Total de visualizações de página

domingo, 31 de março de 2019

ORGULHO: O SENTIMENTO QUE FAZ O CRISTÃO PARECIDO COM O DIABO


Resultado de imagem para Imagem de pessoa orgulhosa
O orgulho é um tipo de pecado do qual ninguém escapa. Num grau maior ou menor, todos têm problemas com ele. A posição de Deus sobre o orgulho é de total reprovação, ao mesmo tempo em que a atitude de humildade é por ele aprovada e recomendada: 
"...no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes concede a sua graça" (1 Pedro 5:5). 
Invariavelmente, a maioria dos seres humanos considera-se humilde. À exceção de cristãos genuinamente convertidos, raramente vemos alguém admitir que seja orgulhoso. O que vemos, com normalidade, é a admissão do "lado bom" do orgulho ou, como se diz popularmente, o orgulho de ser brasileiro, o orgulho ser cristão, o orgulho de ser honesto, etc. 

O que não vemos é a confissão do orgulho pecaminoso que nos leva à auto-exaltação, que nos coloca em posição superior e cria em nós uma maneira de viver baseada na arrogância e na soberba. Conquanto o orgulho seja algo inerente à natureza humana, Deus não nos deu esse deplorável defeito e, se não veio de Deus...

A Bíblia Sagrada declara que o Senhor nos fez perfeitos. Porém, o pecado deixou-nos cheios de problemas. O orgulho é um dos mais abomináveis a Deus (sim, mais do que a homossexualidade, a prostituição e outros tantos que gostamos de apontar e denominar com aspereza, preconceito e repulsa).

Sobre o orgulho, disse Deus:
"Eu odeio o orgulho e a falta de modéstia, diz o Senhor" (Provérbios 8:13 – NTLH). 

Como se caracteriza o orgulho?


O orgulho é a exaltação do eu. Sendo assim, a pessoa orgulhosa não admite, mas vê as demais pessoas pequenas e enxerga Deus menor do que ele é. Num estágio avançado do orgulho, deixa-se de acreditar nas pessoas e na existência de Deus. 

De fato, o orgulho é a maior barreira entre o homem e o homem e entre o homem e Deus, porque gera incredulidade, tanto na humanidade quanto na divindade. A experiência de vida mostra que as pessoas suportam quase todos os erros uns dos outros, mas detestam o orgulho. Dependendo do erro, elas até se mobilizam em favor do outro, mas o orgulho é rechaçado.

O orgulho é uma oposição à humildade


A humildade de Jesus é um convite a ser assumido por cada discípulo e discípula: 
"...aprendei de mim, pois sou manso e humilde de coração..." (Mateus 11:29). 
A palavra humildade ganhou um uso recorrente, em nossa semântica cotidiana, de simplicidade. Fala-se que os pobres são humildes; que os sem estudo são humildes. Esse uso tem sua razão de ser, quando ampliamos o alcance interpretativo de tal palavra.

Humildade e humilhação são duas palavras muito próximas, etimologicamente. Ambas estão intimamente ligadas a húmus, terra, chão. Os empobrecidos e empobrecidas, então, estão nessa situação de humildade -humilhação: rebaixados em sua dignidade, estão ao chão. 

Para além desse lugar usual possível, para a palavra humildade, interessa-nos, aqui, refletir a partir de outro lugar, que também se radica no contexto etimológico da palavra: húmus. Curiosamente, também a palavra homem, do latim homo, pertence à mesma família da palavra húmus. Para um cristão, a associação com a narrativa bíblica do Gênesis é inevitável. Do barro, do chão, Deus modela Adão, que, literalmente, significa o terroso.

Tornar-se humildade, nesse contexto, corresponde a assumir uma virtude. Esse é o ponto de partida, aliás, da espiritualidade cristã.  Bonita a dimensão simbólica de tudo isso: ao assumir o caminho de converter-se, isto é, de voltar para Deus numa mudança de mentalidade, é preciso perceber qual lugar ocupamos na vida, diante de nós mesmos, dos outros e de Deus. 

Ser humilde significa, então, não dar para si uma importância maior que a que realmente se tem. Não se trata de modéstia, definitivamente, mas de reconhecer a si mesmo, num processo profundamente espiritual, de dar-se o valor que realmente se tem.

Importante a associação com a palavra húmus: no pó, a identificação de nossa pertença à criação. Da terra, essa mãe-sustento, nasce nossa participação em igualdade de importância com todo o mundo criado. Nem mais nem menos importantes. Recordar de nossa pertença ao chão, ao pó, isto é, ser humilde, é assumir nosso lugar no mundo, em relação a ele e a tudo o que nele contém. 

Viver a humildade corresponde, então, a viver não se colocando em posição superior a nada nem a ninguém, mas no mesmo nível. É preciso que não nos esqueçamos do que significa o pecado: arrancar nosso rosto humano para buscar assumir um lugar que não nos pertence, que é o de querer ser como deuses. Em outras palavras: o pecado é a nossa desumanização, o nosso esquecimento-negação de que somos terra.

Jesus, que para os cristãos e cristãs é o paradigma da humanização, ensina-nos o que é verdadeiramente assumir um lugar existencial que transparece humildade. Mesmo podendo, não se colocou superior a ninguém, mas, ao contrário, rebaixou-se ao ponto de poder elevar quem também estava ao chão. 

É o que faz na ocasião em que a mulher iria ser apedrejada, quando acusada de adultério: Jesus vai ao chão e, lá, no lugar dos humilhados, põe-se a escrever na terra. Os acusadores, mesmo confrontados com os próprios pecados, são incapazes de se curvarem numa postura humilde (João 8:1-11). Essa narrativa exemplifica toda uma postura de vida, assumida por Jesus.

Ela manifesta, aliás, toda a teologia da kénosis. Jesus não se apega à sua condição divina, mas se esvazia para assumir a condição de servo. Humilhou-se ao ponto de assumir a morte de cruz, para prestar um serviço à humanidade (Filipenses 2:5-8). Assumindo a vida humana, o Filho de Deus participa de nossa condição terrosa. E é de lá, da terra, do chão, que nos eleva à condição de filhos e filhas de Deus; que nos possibilita sermos elevados à participação na santidade divina, por pura graça. 

Quando a santidade divina visita o mais íntimo e profundo de nós, alcançando-nos desde a terra, na encarnação do Filho de Deus, somos chamados a assumir nossa dignidade, reconhecendo o que verdadeiramente somos e o que, por graça, somos chamados e levados a ser: plenamente humanos.

É impossível ser um cristão autêntico sendo orgulhoso


Diante de tudo isso, deveria causar estranheza o fato de que cristãos e cristãs cedam ao orgulho. Há uma terrível e real tentação, dentro e fora das igrejas, de que cristãos e cristãs se comportem como se fossem melhores que outras pessoas, inclusive melhor que aqueles e aquelas com as quais lida na vida comunitária. 

Cristãos e cristãs devem ser melhores para os outros e, jamais, pretenderem-se melhor que os outros. A vaidade cristã só nos afasta do Reino, porque desfigura o lugar propriamente cristão que é o do serviço. 
"Entre vocês não deve ser assim: ao contrário, aquele dentre vós quiser ser grande, seja o servidor..." (Marcos 10:43) 
é um imperativo colocado por Jesus a cada discípulo e discípula: aos passos do Mestre, estamos no mundo para servir e não para ocupar lugares de importância que sequer temos direito. 

Assumir a humildade tal como a do coração de Jesus é tarefa espiritual necessária, se queremos nos assumir como cristãos e cristãs, discípulos e discípulas de Jesus. A humildade é virtude necessária e irrenunciável àqueles e àquelas que pretendem ser fiéis à missão dada por Jesus, de anunciadores e promotores do Reino de Deus. Descer ao chão, para lá tocar as situações de humilhação, de indignidade, de pecado é atitude urgente para aqueles que querem ser sinal fecundo do Reino.

O estilo de vida cristã não é aquele composto pelos puros e santamente afastados: mas daqueles que, imersos na terra do mundo, irradiam humanidade, escrevendo ao chão, para solidarizar-se com quem precisa ser tocado pela libertação própria do Reino de Deus. Percorrer o caminho da humildade é compreender que, fora do chão, lugar concreto onde a vida se dá, não há salvação.


O Que Fazer Quando O Orgulho Domina O Crente?

Procurando a mudança


Avalie a si mesmo e não leve o sucesso tão a sério - A pessoa humilde não é aquela que vive dizendo "não sei", "não sou capaz", "não consigo". Humildade não significa incapacidade, mas a certeza do que se pode realizar. Por isso, a palavra de Deus alerta: 
"...não se achem melhores do que realmente são..." (Romanos 12:3 – NTLH). 
Esse "realizar", contudo, precisa ser absorvido com moderação, com a certeza de que a estrutura de quem "chegou lá", de quem "venceu" não deixou se ser pó, frágil, quebrável (cf. Deuteronômio  8:13,14; Eclesiastes 5:15; 2 Coríntios 4:7). Portanto, não se subestime nem se superestime; e, quando realizar seus sonhos, declare: "Bendito seja o Senhor!", em vez de "Bendito seja o meu nome!" 

Valorize o trabalho dos outros e não exija deferência - Ninguém se torna artilheiro, cestinha, recordista, sem um time. E mais: Os incentivos da arquibancada, às vezes, são decisivos. A busca isolada pelo primeiro lugar resulta em humilhação (Lucas 14:10). Por isso, quando você vencer, valorize o trabalho de cada um como se fosse superior ao seu (Fp 2:3). No melhor de sua vida, porte-se quieto, não louve a si próprio, nem exija deferência; no tempo certo, ela virá: 
"Seja outro o que te louve, e não a tua boca; estrangeiro, e não os teus lábios" (Pv 27:2). 
Desta forma, aplauda seus companheiros e não fale favorável a si mesmo; deixe que os outros o louvem.

Não se gabe antes da vitória e fale dela com humildade - A história humana revela exemplos de pessoas que foram a um evento, a um desafio, a uma disputa, repletas de autoconfiança e voltaram humilhadas. Certa vez, Acabe alertou o rei da Síria: 
"...um verdadeiro soldado se gaba depois de uma batalha e não antes" (1 Reis 20:11 – NTLH). 

Conclusão


Você quer realmente mudar? Você se reconhece orgulhoso e deseja abandonar esse grave pecado? Se quiser mudança, o melhor lugar para receber auxílio é ao pé da cruz de Cristo. Ali, o Rei do universo mudou a sua história, porque a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz (Fp 2:7,8). Se quiser mudança, esqueça a glória pessoal; faça como Paulo: 
"Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo" (Gálatas 6:14). 
Em vez de gabar-se, de seus próprios feitos, gabe-se do que Cristo fez por você, na cruz 

[Fonte: LUCADO, Max. Aliviando a Bagagem. São Paulo: CPAD, 2004]

A Deus, o Pai, toda glória! 
E nem 1% religioso. 

Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.

sábado, 30 de março de 2019

ACONTECIMENTOS - ESPECIAL OS 55 ANOS DO GOLPE MILITAR - FINAL


Imagem relacionada


A Redemocratização


Os militares passaram a controlar a vida política bra­sileira logo nos primeiros dias de abril de 1964. Tinham chegado ao poder para, entre outras coisas, "salvar a de­mocracia", mas acabariam com ela e ficariam no poder por duas décadas.

As tendências conciliadoras dos parlamentares não agradavam aos ministros do governo provisório, Briga­deiro Correia de MelloAlmirante Augusto Rademaker e o General Costa e Silva. Em 9 de abril de 1964, com a autori­dade que a si atribuíram de Supremo Comando Revolucio­nário, publicaram um Ato Institucional, que estabelecia eleições indiretas para Presidente da Repúhlica; dava aos comandantes o poder de decretar estado de sítio e sus­pender as garantias constitucionais, e suprimir direitos políticos por até dez anos.

Em 11 de abril, o Congresso elegeu presidente o Ma­rechal Castelo Branco. As primeiras medidas anularam os atos do Governo anterior e reprimiam prováveis opositores.

1. Objetivos Econômicos:


Os principais objetivos econômicos dos governos que se seguiram a 1964, foram:
  • Fazer o País se desenvolver;
  • Controlar a inflação, sobretudo através da conten­ção do crédito e dos salários;
  • Diminuir as diferenças regionais;
  • Diminuir o déficit da balança de pagamentos;
  • Incentivar as exportações;
  • Atrair capitais estrangeiros, oferecendo possibili­dade de bons lucros e de estabilidade política.
Os objetivos, constantes do Plano de Ação Econô­mica do Governo (PAEG) elaborado durante o Governo de Castelo Branco (1964-1967), foram perseguidos durante os governos militares seguintes: Costa e Silva (1967-1969), Médici (1969-1974), Geisel (1974-1979) e Figueiredo (1979­-1985).

O crescimento econômico no Governo Militar 


Resultado de imagem para Imagem da economia no governo militar
O milagre econômico foi inegável. Em 16 anos, o Bra­sil saltou do 50° para o 10° lugar na lista de nações com maior PIB (Produto Interno Bruto); concentrou mais de um quarto do desenvolvimento industrial do chamado Terceiro Mundo; subiu o nível técnico de produção.

Além de tudo, cresceram acima da taxa de crescimento da popu­lação: o número de matrículas escolares, o de leito em hospitais, de médicos, de casas com água, luz e esgoto. E aumentou a proporção de lares com eletrodomésticos e automóveis.

No período áureo da ditadura militar, entre 1968 e 1973, a economia brasileira cresceu 11 % ao ano. O "milagre" resultou de vários fatores:
  • arrocho de salários;
  • situação internacional vantajosa: preços altos na venda de produtos brasileiros e baixos na de alguns es­trangeiros, como petróleo;
  • grandes investimentos estatais;
  • taxas de juros internacionais baixas;
  • grande endividamento externo, público e particular;
  • participação das multinacionais.
Mas, por volta de 1974, começou uma crise mundial, com o aumento do preço do petróleo e outros produtos; e o déficit comercial, entre 1974 e 1977, chegou a 10 bilhões de dólares.

No Brasil, a crise foi duplamente grave, porque:
  • o "milagre" feito com financiamento externo, que acarretou enorme dívida, não desenvolveu o mercado in­terno; concentrou-se em grandes obras, muitas delas des­necessárias, e na produção de bens duráveis inacessíveis ao grosso da população;
  • com a crise mundial, os juros subiram e o Brasil passou a receber pelas exportações, menos do que paga­va por elas.

Nem tudo foram flores


Entre 1970 e 1980, cresceu a concentração de renda: os ricos ficaram mais ricos, e os pobres, mais pobres. A concentração impediu a maior parte da população de usufruir do "milagre" e o Governo justificava com a famosa tirada de que era preciso fazer o bolo crescer para depois repartir. O bolo cresceu, mas jamais foi repartido. A crise tornou a situação do povo dramática: desemprego jamais visto e salário real despencando.

Os militares fizeram o País crescer mais, incentivaram as exportações e atraíram capitais estrangeiros. Mas não diminuíram o déficit da balança de pagamentos, não diminuíram as diferenças regionais, nem controlaram a
infla­ção.

O projeto que os militares tinham em mente não po­deria sustentar-se, caso não tivessem poderes excepcio­nais nas mãos. Eles apelaram para a legitimidade revoluci­onária e se atribuíram tais poderes, mediante Atos Institucionais (AIs).
  • AI-2 (27.10.1965): mais poderes ao Presidente quan­to à apresentação de projetos de lei; Justiça Militar passa a julgar civis incursos em crimes contra a segurança nacional; eleições indiretas para o futuro presidente; autoriza­ção para caçar mandatos e suspender direitos políticos por dez anos; extinção dos partidos políticos e autoriza­ção para a organização de apenas dois: ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro);
  • AI-5 (13.12.1968): autorização ao Presidente da Re­pública para: decretar o recesso do Congresso, Assem­bléias Legislativas e Câmaras Municipais; intervir nos estados, municípios e territórios; cassar mandatos por dez anos; decretar estado de sítio; decretar o confisco de bens.
O General Costa e Silva, ao baixar o AI-5, pôs o Con­gresso em recesso. Este só seria convocado novamente para aprovar a indicação do General Médici para a Presi­dência. Os poderes discricionários de que a ditadura pas­saria a dispor com o AI-5 não tinham limites.

Os governos militares resumiram seus grandes obje­tivos em duas palavras: segurança e desenvolvimento. Tais métodos são contestados, pois o desenvolvimento beneficiou a poucos e promoveu a segurança para o Esta­do, a custa da insegurança da população.

"Diretas já!"


Resultado de imagem para Imagens das diretas já
O período chamado de "redemocratização" compreendeu os anos de 1975 a 1985, entre os governos dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo e as eleições indiretas que devolveram o poder às mãos de um presidente civil. O processo de redemocratização compreendeu uma série de medidas que, progressivamente, foram ampliando novamente as garantias individuais e a liberdade de imprensa até culminar na eleição do primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura militar.

Em março de 1974, no início de seu Governo, o Gene­ral Ernesto Geisel apresentou a proposta de um "gradual, mas seguro, aperfeiçoamento democrático". Dez anos de­pois, os gigantescos comícios por eleições diretas para Presidente da República tornavam clara a intenção do povo brasileiro de voltar a tomar conta do seu próprio destino.

Dentre as principais medidas que caracterizaram o processo de distensão, encontram-se:
  • O fim da censura prévia à espetáculos e publicações;
  • A revogação do AI-5;
  • O retorno ao pluripartidarismo;
  • A Lei de Anistia.
Apesar de representarem avanços no sentido de restaurarem o sistema democrático, o retorno ao pluripartidarismo e a Lei de Anistia visaram também o benefício dos militares, uma vez que a primeira dividiu a esquerda em diversos partidos e a segunda promoveu o perdão dos agentes que cometeram crimes contra os direitos humanos durante a ditadura militar.


Conclusão 

Os partidos políticos e as Diretas Já 


Com o retorno ao pluripartidarismo, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) foram extintos dando lugar a novos partidos políticos. O MDB virou Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e a ARENA virou o Partido Democrático Social (PDS).

Foram também criados o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido Democrático Trabalhista (PDT), o Partido Popular (PP) e o Partido dos Trabalhadores (PT). Este último, para a surpresa dos militares, operou em sentido contrário ao desejado, pois fortaleceu a esquerda e mobilizou a classe trabalhadora em torno da redemocratização. 

Foi um dos precursores da campanha pelas Diretas Já e, durante o século XXI, levou seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva a dois mandatos presidenciais consecutivos, tornando-se o primeiro operário a chegar ao posto de Presidente da República na História do Brasil.

Por mais que as Diretas Já tenham mobilizado milhões de pessoas em manifestações memoráveis em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso Nacional e as eleições diretas só ocorreram em 1989. 

O primeiro presidente civil foi eleito, portanto, de forma indireta, sendo este Tancredo Neves (PMDB) que, devido a problemas de saúde que o levaram a óbito, deixou o cargo de primeiro presidente da Nova República para seu vice, José Sarney (FL).


Espero com esta série de artigos ter contribuído ao menos um pouco para a informação de quem se interessa em conhecer um pouco de um dos períodos mais importantes, controversos, polêmicos e ainda um tanto obscuro da História recente do nosso Brasil.


[Fonte: Tudo Sobre ConcursosInfo Escola - por: Por Michelle Viviane Godinho Corrêa (Mestre em Educação (UFMG, 2012); Especialista em História e Culturas Políticas - UFMG, 2008); Graduada em História (PUC-MG, 2007); Referências Bibliográficas: BUENO, Eduardo. Das direta a Sarney. In: Brasil: uma História: cinco séculos de um país em construção. Rio de Janeiro: Leya, 2012, p. 432-445. SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. No caminho da democracia: a transição para o poder civil e as ambiguidades e heranças da ditadura militar. In: Brasil: uma biografia. São Paulo: Cia das Letras, 2015, p. 478-484.]
A Deus, o Pai, toda glória! 
E nem 1% religioso. 


Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.

ACONTECIMENTOS - ESPECIAL OS 55 ANOS DO GOLPE MILITAR - CAP. 3


A Igreja Evangélica e o Golpe Militar


O Ato Institucional nº 5 colocou a sociedade e a Igreja Evangélica na parede. O Brasil foi sacudido em suas memórias recentemente. Documentos da agência americana CIA, disponíveis desde 2008, mas que só agora ganharam o destaque merecido ao serem divulgadas por um professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, apontaram que o presidente Ernesto Geisel não só sabia das mortes e torturas no período da ditadura militar no Brasil, como também avocou para si a responsabilidade de deliberar e decidir quem morria e quem vivia.

Alguns ainda tentam desmentir as informações, negar que a ditadura existiu, e falar sobre números que nem de longe indicam o que foi vivido nesse período obscuro da história brasileira, documentado e revelado através de arquivos internacionais e nacionais, revelados pela Comissão da Verdade. É possível também falar sobre a religião na época, de maioria católica mas com o protestantismo ascendendo em todas as partes do país. Geisel, por exemplo, era evangélico da Igreja Luterana. 

Nem todas as feridas fecham em 50 anos. Em 13 de dezembro completam-se cinco décadas que, em nome do combate à suposta ameaça comunista, o Brasil mergulhou numa era de total supressão das liberdades individuais e políticas. E ainda "choram Marias e Clarices", como cantou Elis Regina em 1979, na campanha em favor da anistia. 

Quem viveu sob o Ato Institucional nº 5, imposto em 1968 pelo general-presidente Artur da Costa e Silva, depois de uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, não esquece facilmente a experiência de não ter qualquer garantia constitucional contra os desmandos do Estado. Foram dez anos de linha-dura. 
"Às favas todos escrúpulos de consciência"
disse o então ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, na reunião que sacramentou o AI-5.

O chamado golpe dentro do golpe, que veio para calar os protestos estudantis que varriam o país pedindo democracia e reverberavam no Congresso, deu poderes totais a Costa e Silva e suspendeu o instrumento legal do habeas corpus. Qualquer pessoa poderia ser presa sem acusação formal por até 60 dias para responder a inquéritos políticos, ficando incomunicável durante até 10 dias. 

Anunciado em rede nacional pelo então ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, que o redigiu, o AI-5 foi a deixa para uma feroz caça às bruxas, que para a extrema direita ainda restavam soltas mesmo com o Golpe de 1964. Fechado o Congresso, políticos, intelectuais e artistas – muitos deles sem qualquer identificação com a esquerda – foram presos imediatamente. Era a "doutrina de segurança nacional", pregada pelo general Golbery do Couto e Silva no âmbito da Escola Superior de Guerra e fortemente influenciada pelos Estados Unidos. Tratava-se de uma guerra contra os inimigos internos, não contra potências estrangeiras. 

E a Igreja Evangélica? Muitos crentes em Jesus Cristo, que já enfrentavam problemas em suas próprias denominações por conta da intensa disputa político-ideológica daquele período, passaram a ser vistos como ameaça pelo regime militar, que não poupou os religiosos.

Vários protestantes vinculados a movimentos ecumênicos que pregavam a responsabilidade social da igreja e a transformação do país sofreram perseguição. Muitos eram entusiasmados seguidores dos ensinos do teólogo norte-americano Richard Shaull (✯1919-✞2002), que, expulso da Colômbia, viera ao Brasil ainda nos anos 50 pregando o engajamento político das igrejas para mudar a sociedade, profundamente desigual. 

Um dos principais organizadores, por meio da Confederação Evangélica do Brasil (CEB), do encontro "Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro", que reuniu em 1962, no Nordeste, 167 representantes de diversas igrejas, o sociológo e jornalista Waldo Lenz César (✯1923-✞2007) também foi preso e teve que deixar o Brasil. 

Crentes na luta armada


O presbiteriano Paulo Wright, deputado estadual por Santa Catarina, tornou-se militante da Ação Popular (AP) – organização de esquerda que de início agregava estudantes católicos e um punhado de protestantes – e desapareceu nos porões do regime em 1973. Seu irmão, o pastor Jaime Wright, acabou se destacando na luta contra a ditadura, unindo-se ao arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, para denunciar os crimes do Estado brasileiro. Ele trabalhou intensamente no Projeto Brasil: Nunca Mais, que uniu o Conselho Mundial das Igrejas (CMI) e a Arquidiciocese de São Paulo para expor a violência do regime.

Boas-vindas


A história da Igreja Evangélica, porém, não foi exatamente das mais bonitas. A principal razão era o medo do comunismo, como reconheceu, certa vez, o próprio Jaime Wright em entrevista ao jornalista Jorge Antônio Barros. 
"Na União Soviética a prática da religião foi cerceada e proibida; os evangélicos tinham alguma razão para ter receio disso"
declarou Wright, que era profundamente identificado com a visão de um Evangelho social e faleceu em 1999. 

Em 1963, em plena Guerra Fria, a alguns meses do golpe militar, o nascente movimento carismático, que dava ênfase aos dons do Espírito Santo, se mobilizava em jejum e oração para que o Brasil não caísse sob poder do comunismo. Em pouco tempo, no entanto, o país viveria as agruras de uma ditadura de extrema direita. Em relato publicado em 2005 no site da Igreja Metodista do Brasil, o líder leigo Anivaldo Padilha, recentemente beneficiado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, afirma ter sido acusado de comunista e delatado aos militares por um pastor da própria denominação.

"A liderança evangélica, de modo geral, deu boas-vindas ao regime. Surgiram matérias nos jornais das igrejas apoiando o novo governo"
reconhece o pastor Alderi Souza de Matos, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Para ele, que se dedica ao projeto de escrever sobre os últimos 50 anos da denominação, é difícil analisar aquele período. 
"Havia muito radicalismo, muito extremismo. Na minha avaliação houve excessos de ambas as partes: tanto dos conservadores, que se apossaram do poder na igreja, quanto da oposição, vinculada ao movimento social, ao ecumenismo e ao liberalismo teológico"
diz, lembrando que os pastores e seminaristas à esquerda batiam de frente com determinações vindas da direção da denominação. 
"Difícil dizer como seria a igreja hoje, o que teria acontecido se o grupo vencedor fosse o oposto"
comenta, observando que muitos sínodos da IPB foram simplesmente dissolvidos, pela sua recusa em cumprir a ordem de expulsar os pastores desobedientes. 
"Era uma época de muita tensão, confrontação, polêmica e polarização; não era fácil alcançar equilíbrio"
diz o pesquisador.

Dois anos antes do AI-5, a Igreja Presbiteriana, preocupada com a influência do liberalismo, já dera uma guinada forte à direita. Em 1966, o pastor Boanerges Ribeiro fora eleito presidente do Supremo Concílio da denominação com a promessa de moralizar os seminários, varrendo a influência dos modernistas. 

Durante os anos de chumbo, ele permaneceria à frente da igreja, que era então a mais influente entre os protestantes. O tenente-coronel Renato Guimarães, ligado ao temido Serviço Nacional de Informações (SNI), tinha assento no Supremo Concílio. Teólogos esquerdistas como o próprio Waldo César, o escritor Rubem Alves, Zwinglio Mota Dias – que foi torturado e teve o irmão, Ivan, assassinado pela ditadura – e João Dias de Araújo, que escreveu o livro Inquisição sem fogueiras, deixaram a IPB. Surgia a Igreja Presbiteriana Unida (IPU), que abrigou no período grande parte da esquerda protestante.

"Eu fiz uma decisão radical, muito consciente, em 1970: jamais me envolver com política eclesiástica", 
conta Eduardo Emerich, de 64 anos, ministro presbiteriano que, já próximo de aposentar-se, após 40 anos de ministério, atua como pastor auxiliar em Ourinhos (SP). 

Simpático às ideias naquele momento combatidas pela direção da IPB, o então seminarista considerava um total equívoco a ideia sair da igreja e preferiu dedicar-se a pastorear uma pequena comunidade na mesma denominação, que já chegou aos 150 anos de existência. 
"A igreja perdeu cérebros brilhantes naquele período. Seria outra hoje em dia"
acredita.

Em 1968, Emerich estava no Seminário Presbiteriano de Vitória (ES) e militava na esquerdista AP. Ele participou do histórico congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, no interior paulista – evento realizado clandestinamente, já que a entidade estudantil fora banida pelo regime militar. 
"Eu nunca havia usado uma arma"
conta Emerich, que acabou sendo designado para, em rodízio, ajudar a fazer a segurança do encontro: 
"Pela única vez na vida portei uma arma pesada, talvez um fuzil"
recorda. No meio da noite, porém, foi acordado pelos companheiros da AP e retirado às pressas do local. Pela manhã, mais de 200 policiais das forças da repressão cercaram o sítio e prenderam os cerca de mil estudantes da UNE. Depois disso, a entidade radicalizou. 
"Saí da AP em 1969, quando estava em meu último ano no seminário. Eles queriam que eu largasse tudo e entrasse na luta armada. Eu não era marxista, era um cristão, e jamais faria isso"
declara Emerich.

A antropóloga Laurie Miller, de 57 anos, era uma adolescente durante os anos de chumbo do AI-5, mas guarda para sempre as lembranças da comunidade organizada por seu pai, o pastor americano John Lawrence Miller, em Ceilândia. 

A localidade não passava de uma miserável cidade-satélite no entorno de Brasília. Ele seguiu o caminho da IPU e trabalhou com Jaime Wright. Em Ceilândia, construiu uma igreja de madeira. Laurie guarda cópias de textos do teólogo Richard Shaull e muito material da então nascente Ação Cristã Pró-Gente, voltada a organizar a comunidade local e instruí-la a lutar por seus direitos, em especial a posse da terra. 

Um dos textos divulgados pela ONG – onde Laurie ainda trabalha – àquela população no início dos anos 70 mostrava em detalhes a correlação entre a Declaração Universal dos Direitos do Homem e muitos versículos da Bíblia.
"Eu me lembro de ver o irmão de Jaime Wright, o Paulo, que era perseguido pela ditadura, escondido na casa de um dos presbíteros da igreja. Na época eu não entendia o que estava acontecendo"
diz ela, ainda na mesma congregação. Laurie relata também o estranho atropelamento sofrido em setembro de 1974 pela ex-dirigente da Mocidade Presbiteriana Willie Gammon, filha de missionários norte-americanos, que se dedicava a ajudar o trabalho comunitário. 

Hospitalizada, Billy, como era conhecida, chegou a telefonar para confortar seus amigos, avisando que estava bem e se já recuperava. Poucos dias depois, estava morta.

Guerra suja


O pastor Djalma Torres, de 68 anos, da Igreja Batista Nazareth, de Salvador (BA), classifica o período de vigência do AI-5 como uma época de terror. 
"O comportamento da Igreja Evangélica durante a ditadura militar foi lamentável. Foi mais de conivência do que de reação. A parcela que reagia, era com silêncio. E uns poucos foram para a clandestinidade, criando movimentos de resistência"
relembra, dizendo ter vivido, por ser alinhado a uma "teologia mais libertadora", momentos de muita tensão e incerteza. Djalma diz ter acolhido 
"jovens insatisfeitos com a postura de conivência com o fechamento do Congresso, com a falta de liberdade"
e confessa que era constante a sensação de vigilância pelos agentes da ditadura. 
"Olhando para todo o contexto 50 anos depois, vejo que os grupos que se enfrentaram na Igreja hoje têm muito mais respeito pelas opiniões diferentes"
ressalta.

Outro pastor, Jorge Pinheiro dos Santos, da Igreja Batista de Perdizes, em São Paulo, nem era crente na época. Estava entre os jovens que resolveram entrar para a guerrilha urbana, com o objetivo de derrubar o governo. Também jornalista, ele escreveu o livro Um Pedaço de Mim, novela de memórias, da Editora Cultural, que narra sua trajetória e o clima de medo vivido pelo país. Para Pinheiro, os que enfrentavam a ditadura – que pela sua violência estaria fadada ao fracasso e um dia iria despencar –,
"estavam fazendo história".

Em 1974, assumiu o poder o quarto general-presidente, Ernesto Geisel, substituindo Emílio Garrastazu Médici. O luterano Geisel prometia uma abertura política "lenta, gradual e segura". No ano seguinte, a enorme repercussão da morte do jornalista comunista Wladimir Herzog nas dependências do prédio do Comando do II Exército, em São Paulo, aumentou a pressão sobre os militares. 

Nos Estados Unidos, em 1976, o crente batista Jimmy Carter venceria as eleições pelo Partido Democrata, criticando duramente na campanha eleitoral o apoio dos EUA a ditaduras fascistas na América Latina. Eleito, Carter passara a pressionar por abertura política no Cone Sul, onde a Argentina, o Chile, o Paraguai, o Uruguai e o Brasil viviam a chamada Guerra Suja, com a Operação Condor, que saía à caça de militantes de organizações de esquerda.

Nesse contexto, em 1978, Geisel deu fim à vigência do AI-5 e teve que segurar os cães raivosos do aparato de segurança do Estado. Era o primeiro passo para a anistia e a volta dos exilados. Mas os militares só deixariam o poder em março de 1985, após o enorme movimento popular por eleições diretas para presidente da República.


Identidade e missão 


"A Igreja Evangélica cresceu naquele período, mas houve uma ruptura com sua própria história e tradição"
diz o bispo anglicano de Recife (PE) e cientista político Robinson Cavalcanti, lembrando que o antigo "destino manifesto" dos protestantes brasileiros, de trazer transformação social, democracia e desenvolvimento para o país, contrapondo-se ao atraso da Igreja Católica, se perdeu nesse processo. 

Ele explica que, antes do golpe de 1964, os evangélicos se dividiam em quatro grandes alas: os pentecostais, os carismáticos, os tradicionais e os ecumênicos ou liberais. Para Cavalcanti, com a violenta polarização política logo antes e durante a vigência do regime militar, todos os evangélicos perderam.

"Em apenas quatro anos, entre 1964 e 1968, o cenário protestante mudou totalmente"
continua o religioso, de 64 anos. Como resultado, diz, os pentecostais saíram fortalecidos, mas alienados, preocupando-se apenas com o Céu, sem projeto político.


Os carismáticos 


Com sua maioria expulsos das igrejas tradicionais – se voltaram à construção de sua própria estrutura institucional e também se alienaram da situação política do país. Os tradicionais se fecharam. 
"A Confederação Evangélica do Brasil acabou. Houve intervenções nos movimentos de mocidades das denominações históricas, além de autocensura entre batistas, presbiterianos, metodistas e demais grupos"
observa, sublinhando que um documento progressista da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, pedindo mudanças sociais em 1963, logo sumiu de circulação. 
"Já a IPB, que tinha sido a primeira denominação a formar quadros do mais alto nível, sofreu com as divisões e se alinhou ao regime militar".
Quanto aos liberais, Cavalcanti avalia que eles também teriam se prejudicado ao adotar um 
"discurso social correto"
mas com uma 
"completa perda de ênfase na conversão ou na expansão missionária"
em decorrência de sua visão universalista. 
"Eles não gastariam latim com a conversão de ninguém"
lamenta o bispo anglicano. Cavalcanti aponta ainda para o surgimento, ao final da ditadura, dos "neo" ou "pseudopentecostais', representando aí "uma ruptura total com a fé evangélica".

Para o historiador Alderi, refletir sobre os desafios vividos pela geração do AI-5 é importante hoje. Os conflitos da época estavam relacionados a questões básicas a serem respondidas teologicamente pela igreja: identidade e missão. 
"Quem somos nós e para quê estamos aqui? A que viemos? O compromisso com Deus, com as Escrituras e com a Igreja se relaciona com o mundo e a sociedade. Não há respostas prontas; são perguntas às quais cada nova geração precisa responder"
conclui. 


Um documento que rasgava os outros


Poder total para o chefe do Executivo, num documento que não tinha sequer um prazo de validade. Este era o cerne do Ato Institucional nº 5, imposto pela ditadura militar em 1968. Na reunião do Conselho de Segurança Nacional, no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, que decidiu calar toda voz política destoante, o então ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, não teve nenhum pudor em dizer que nem mesmo da Constituição de 1967, já sob os militares, sobrava parágrafo algum.

Nem daquela Constituição, nem dos poderes Legislativo e Judiciário ou dos direitos e garantias individuais. Um discurso do deputado Márcio Moreira Alves contra a repressão ao movimento estudantil e a invasão, pelos militares, da Universidade de Brasília, serviu de pretexto para fechar o Congresso e suspender o direito ao habeas corpus, fundamental nas democracias. Os ecos da tenebrosa reunião que soltou as feras da repressão política sobre o povo brasileiro podem ser ouvidos no site https://ims.com.br – é que foi tudo gravado e entregue ao jornalista Elio Gaspari, que doou a fita ao Instituto Moreira Salles.

O clima era de terror e valia tudo em nome do objetivo de deter a ameaça comunista representada pela União Soviética e seu satélite mais próximo, a Cuba de Fidel Castro. Como efeito colateral, multiplicaram-se no Brasil as organizações clandestinas de esquerda, e só aumentou o número de jovens inconformados, que optaram pela luta armada para tentar implantar uma revolução socialista. Como queria o guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara, a idéia era fazer ainda "muitos Vietnãs".

Uma teologia pela revolução


Enquanto sofria sob ditaduras de extrema direita, em um tempo em que as guerrilhas de esquerda ainda tinham apelo romântico, a América Latina viu nascer a chamada Teologia da Libertação, com foco na revolução política e com uma leitura bíblica centrada na luta de classes. 

Textos do frade franciscano Leonardo Boff, do dominicano peruano Gustavo Gutiérrez e do teólogo e educador Rubem Alves colocaram de cabeça para baixo os conceitos anticomunistas e influenciaram padres e pastores desencantados com uma visão mística do Reino dos Céus, voltada apenas para o pós-morte. O empolgante Jesus Cristo Libertador, de Boff, virou livro de cabeceira de muita gente.

"Não havia uma, mas várias ‘teologias da libertação'"
escreve o bispo anglicano Robinson Cavalcanti no livro Cristianismo e política, da Editora Ultimato. Ele se refere aos muitos autores que tinham em comum um alinhamento político à esquerda, a influência do marxismo e uma interpretação bem liberal das Escrituras, na tentativa de dar uma resposta política à opressão na América Latina. 
"A Teologia da Libertação na verdade acabou se tornando um elemento complicador na unidade dos cristãos contra a ditadura. Muitos não aprovavam sua heterodoxia e assim não somavam forças para combater o regime"
opina Cavalcanti.

Anistiados e indenizados


No mês de setembro de 2008, nos 40 anos do AI5, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça beneficiou treze religiosos católicos e protestantes, ligados a movimentos ecumênicos de oposição à ditadura militar que perdurou de 1964 a 1985. Em comum, experiências de perseguição, prisão e tortura. 

Muito criticado por distribuir benefícios considerados elevados a alguns ex-militantes de esquerda que pegaram em armas para derrubar o regime, o governo apenas repete uma experiência que deu certo em outros países: reconhecer os desmandos do Estado, para que não venha um dia a repeti-los. E dessa vez a comissão contemplou gente bem pacífica.

O órgão do governo analisou os casos de indenização e reparação de religiosos a pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), da Conferência dos Religiosos, da Comissão de Justiça e Paz e da Igreja Metodista do Brasil. 

Além de uma indenização do governo por ter sido preso e torturado, o leigo Anivaldo Padilha, assim como o pastor americano Fred Morris, recebeu um pedido formal de desculpas da Igreja Metodista do Brasil pela omissão na época. A prisão de Fred, que trabalhava com o arcebispo de Recife, dom Hélder Câmara, teve grande repercussão nos Estados Unidos, em 1975.


Conclusão deste capítulo


A Comissão Nacional da Verdade revelou que algumas igrejas foram repreendidas pelo regime autoritário da época, com seminários teológicos, inclusive, sendo fechados.

Não era só a filosofia e sociologia, fundamentais para a formação do pensamento crítico, que estavam proibidas. Não estava vetado apenas pensar. Também deveria se combater interpretações de misericórdia e amor que eram pregados em algumas igrejas “subversivas”. A fé genuína foi abafada pela repressão militar.

Os números não mentem, nem puderam se manter escondidos por muito tempo: As perseguições por conta de pessoas evangélicas e católicas que consideravam o regime militar uma ditadura brutal e covarde fizeram com que houvessem muitas prisões arbitrárias (25), expulsões e banimentos (14), torturas (18) que levaram ao desaparecimento forçado (5) e à morte (2), todas com viés religioso, todas com a concordância dos presidentes "evangélicos", homens que eram vistos como salvadores da pátria.

O fato é que qualquer um pode chegar e dizer que tudo não passa de uma "mentira da esquerda", "mi mi mi" ou qualquer outra forma de negar a história. Mas ainda que se negue o passado, ele não pode ser silenciado.

Muito ainda há de vir a tona, muito ainda há que se discutir sobre uma lei de anistia que perdoa crimes bárbaros cometidos durante a fase mais obscura da história brasileira. Mas mais do que isso, é necessário que muito se discuta sobre candidato fulano ou sicrano ser evangélico/católico, ser "salvador da pátria", "ser a favor da família", ter "moral" e ser" conciliador". Afinal, os erros nos servem mais que os acertos, na medida de nos fazer não repeti-los, nem negá-los.

Esse período obscuro só não existiu para quem estava no poder, para quem manchou as mãos de sangue inocente, e que com certeza prestará contas ao Deus em quem depositava sua fé. Afinal, a Deus não se engana, nem se faz enganar.

[Fonte: Cristianismo Hoje (edição impressa - esta revista foi extinta); Portal do Trono; SCHIMIDT, Daniel Augusto - "Protestantismo e Ditadura Militar no Brasil", Ed. El Shadday, 2014]

A Deus, o Pai, toda glória! 
E nem 1% religioso. 

Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.

sexta-feira, 29 de março de 2019

ACONTECIMENTOS - ESPECIAL OS 55 ANOS DO GOLPE MILITAR - CAP. 2


As características do Golpe


Para a extensa maioria dos críticos do movimento de março e abril de 1964, tratou-se de um golpe de Estado que derrubou um governo burguês democrático com orientação reformista e progressista. Essa mesma maioria não considera ser cabível celebrar um golpe de Estado como o de 31 de março de 1964.

Durante a curta existência do governo João Goulart (setembro de 1961 a março de 1964), um novo contexto político-social emergiu no país. Suas características básicas foram: 
  • uma intensa crise econômico-financeira; constantes crises político-institucionais; 
  • crise do sistema partidário; 
  • ampla mobilização política das classes populares paralelamente a uma organização e ofensiva política dos setores militares e empresariais (a partir de meados de 1963, as classes médias também entram em cena); 
  • ampliação do movimento sindical operário e dos trabalhadores do campo e um inédito acirramento da luta ideológica de classes.
Passados 55 anos, o governo e os tempos de Goulart são ainda objeto de interpretações controversas e antagônicas. Liberais e conservadores atribuem ao período e ao governo apenas aspectos negativos e perversos: "baderna política", "crise de autoridade" e "caos administrativo"; inflação descontrolada e recessão econômica; quebra da hierarquia e indisciplina nas forças armadas; "subversão" da lei da ordem e avanço das forças de esquerda e comunizantes etc.

Enquanto existe um forte consenso entre liberais e conservadores, divergentes são as visões entre os setores de esquerda acerca da natureza e do significado do governo Goulart. Para estes, vários foram os juízos aplicados: governo de "traição nacional", de orientação social-democrata ou democrático popular; governo populista de esquerda ou nacional-reformista – e até mesmo de "orientação revolucionária". 

Haveria, no entanto, praticamente um consenso entre os setores da esquerda ao interpretarem o período de 1961-1964 como um momento em que a luta de classes no Brasil alcançou um de seus momentos mais intensos, dinâmicos e significativos. 

O que ocasionou o Golpe


No ano de 1961, Jânio Quadros tomou posse e, logo em seguida, renunciou ao mandato. Sua esperança era de que pudesse aplicar um auto-golpe, renunciando para voltar ao poder por meio de um pedido da população, que aceitaria apenas diante de uma proposta de poderes absolutos. Isso não funcionou, e seu vice, João Goulart, assumiu a presidência. João, mais conhecido como Jango, tinha ideologias de esquerda, e por ser considerado uma ameaça, foi acusado pelos militares de ser comunista.

No dia 13 de março, Jango e Leonel Brizola discursaram na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, declarando as Reformas de Base. Os oposicionistas se organizaram em pouco tempo, e realizaram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, seis dias depois, com o objetivo de envolver a população no combate ao comunismo.

Os principais fatores que influenciaram e permitiram a ocorrência do golpe militar foram a instabilidade política durante o governo de João Goulart, alto custo de vida enfrentado pela população, a promessa da Reforma de Base, o medo que a classe média tinha da implementação do socialismo no Brasil, e o apoio que os militares brasileiros receberam da Igreja Católica, dos setores conservadores, da classe média e dos Estados Unidos.

Como aconteceu o Golpe?


Nesse contexto, o Golpe de 64 começou a tomar forma quando os generais Olímpio Mourão Filho e Odílio Denys, unidos ao governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, se reuniram em Juiz de fora, no dia 28 de março de 1964. O encontro visava à determinação de uma data para começar a mobilização militar e a tomada do poder.

Apesar de a data determinada ser 4 de abril de 1964, o general Olímpio não quis esperar e no dia 31 de março avançou com suas tropas durante a madrugada em direção ao Rio de Janeiro. Apesar de Castello Branco ter tentado frear o movimento, pois ainda não era maduro o suficiente, já era tarde.

O general Âncora, aliado à Jango, recebeu ordens de para prender Castello Branco, mas não a cumpriu alegando que não queria iniciar uma guerra civil. Quando João Goulart se deparou com as tropas, abandonou a presidência e se refugiou no Uruguai. A partir de então, o Congresso Brasileiro tomou medidas que tornariam o golpe legalizado, fazendo com que os militares elegessem os presidentes indiretamente. Castello Branco, dessa forma, tornou-se presidente e começou a implementar mudanças no Brasil.

O golpe militar durou até o ano de 1985, com a entrada de Tancredo Neves, que foi o primeiro presidente civil desde 1964.

Medidas do Golpe de 64 e da Ditadura Militar


  • Alteração do papel do exército como autor do poder e de um regime autoritário;
  • Contrário às reformas de base nacional-populistas;
  • Milagre econômico: entrada de capitais externos e aumento da dívida externa;
  • Censura dos meios de comunicação, artistas, músicos, atores, etc.;
  • Lei de Segurança Nacional: violenta repressão política com prisões, interrogatórios e tortura de suspeitos de comunismo ou simpatizantes, principalmente estudantes, jornalistas e professores;
  • Implantação do bipartidarismo: ARENA (Governo) e MDB (oposição controlada pelo Governo);
  • Controle dos sindicatos.
Em síntese, as classes dominantes e suas elites ideológicas e repressivas, no pré-64, apenas enxergavam baderna, anarquia, subversão e comunização do país diante de legítimas iniciativas dos operários, camponeses, estudantes, soldados e praças etc. Por vezes, expressas de forma altissonante e retórica, tais demandas, em sua substância, reivindicavam o alargamento da democracia política e a realização de reformas do capitalismo brasileiro.

O golpe de 1964 veio, pois, coroar as tentativas anteriormente fracassadas. Destruindo as organizações políticas e reprimindo os movimentos sociais de esquerda e progressistas, o golpe foi saudado pelas classes dominantes e seus ideólogos, civis e militares, como uma autêntica Revolução. Aliviadas por não terem de se envolver militarmente no país, as autoridades norte-americanas congratularam-se com os militares e políticos brasileiros pela "solução" encontrada para superar a "crise política" no país.

O governo Goulart que, nos últimos dias de março de 1964, contava com elevada simpatia junto à opinião pública, ruiu como um castelo de areia. As classes populares e trabalhadoras estiveram ausentes das manifestações e passeatas que, em algumas capitais do país, pediam a destituição de Goulart. 

Embora não se opusessem ao governo, os setores populares e os trabalhadores nada fizeram para evitar a derrubada do governo. As forças políticas que afirmavam representar esses setores nenhuma ação significativa desenvolveram para impedir o golpe que há muito tempo se anunciava no horizonte político. O golpe de 64, bem sabemos, não foi um raio em céu azul...

Desarmadas, desorganizadas e fragmentadas, as forças progressistas e de esquerda nenhuma resistência ofereceram aos golpistas. Alegando que não queria assistir a uma "guerra civil" no país, Goulart negou-se a atender alguns apelos de oficiais legalistas no sentido de ordenar uma ação repressiva – de caráter intimidatório – contra os sediciosos que vinham de Minas. Preferiu o exílio político.

No discurso de lideranças de esquerda, a expressão "cabeças cortadas", dirigida contra os eventuais golpistas, tinha um sentido metafórico; com a ação dos "vencedores de abril", ela se tornará uma cruel realidade para muitos homens e mulheres durante os vinte anos da ditadura militar.

Conclusão


A efervescência do início da década de 1964 e os acontecimentos, conflitos e projetos que a caracterizam tiveram como desfecho o golpe de estado de 1964, marco inaugural de uma conjuntura política, marcada por crescente autoritarismo.

Não foi a primeira vez, na trajetória republicana brasileira, que uma experiência democrática foi interrompida. Triste sina a da realidade política do Brasil! Usualmente não considera normais as disputas e divergências peculiares à democracia política e muito menos absorve a efetiva participação de organizações populares no cotidiano das relações políticas. Assim aconteceu em 1964.

Assim, pode-se dizer que o governo Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o espectro do golpe de Estado. Goulart foi empossado em setembro de 1961, após a fracassada tentativa golpista de Jânio Quadros. Com sua inesperada renúncia, JQ visava, contudo, o fechamento do Congresso que lhe fazia oposição. 

Não tendo o povo saído às ruas para exigir dos militares a volta do renunciante, o golpe se frustrou. A emenda parlamentarista, imposta ao Congresso nacional pela junta militar, pode ser interpretada como um "golpe branco". O Congresso, acuado e ameaçado pela espada, reformou a Constituição sob um clima pré-insurreicional, contrariando, assim, dispositivos constitucionais da Carta de 46.

Em outubro de 1963, alegando a necessidade de impedir "grave comoção interna com caráter de guerra civil", Goulart – por imposição de seu dispositivo militar – tentou impor ao Congresso o estado de sítio. Se o estado de exceção visava silenciar Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, quem poderia negar que líderes de esquerda como Miguel Arrais e Leonel Brizola não estariam também incluídos na "lista saneadora" elaborada pelos militares, com a inteira anuência do próprio Goulart?

Em abril de 1964, o golpe de Estado – permanentemente reivindicado por setores da sociedade civil – foi, então, plenamente vitorioso.

[Fonte: Scielo; Estudo Prático - Referências Bibliográficas: CARVALHO, José Murilo de. Fortuna e virtù no golpe de 1964, GORENDER, Jacob. A sociedade cindida, CONY, Carlos Heitor. Crônicas políticas, CARPEAUX, Otto Maria. Comentários sobre política internacional, NAPOLITANO, Marcos. No exílio, contra o isolamento: intelectuais comunistas, frentismo e questão democrática nos anos 1970, DANTAS, Audálio. A mídia e o golpe militar, REIMAO, Sandra. “Proíbo a publicação e circulação…” – censura a livros na ditadura militar, MAUES, Flamarion. Livros, editoras e oposição à ditadura, RAMOS, Paulo Roberto. Cenas do golpe de 1964 em cinco documentários]

A Deus, o Pai, toda glória! 
E nem 1% religioso. 

Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.

quinta-feira, 28 de março de 2019

ACONTECIMENTOS - ESPECIAL OS 55 ANOS DO GOLPE MILITAR - CAP. 1


Imagem relacionada


A divulgação de que o presidente Jair Bolsonaro determinou que as esferas militares comemorem no dia 31 de março, os 55 anos do Golpe Militar, tem causado uma série de discussões e debates, causando reações de repúdio por parte do Ministério Público, da OAB, da imprensa e de entidades que defendem os parentes de vítimas da Ditadura e que consideram o Golpe um ataque frontal contra a democracia. Enfim, a determinação do presidente tem causado um grande alvoroço Brasil afora. Mas será que todos realmente conhecem o que foi o ato conhecido como Golpe Militar de 64? O que o ocasionou? Quais foram seus agentes e o seus resultados?

À partir daqui até o dia 31 eu estarei postando uma série especial de artigos sobre este acontecimento histórico que foi um importante, polêmico e controverso marco na história recente do Brasil. Saliento que:
  1. Não coloco nenhuma opinião pessoal, todo o conteúdo da série é com base em pesquisas, cujas fontes e referências serão postadas no final de cada capítulo.
  2. Não estou sob doutrinação de ideologia nem de direita e nem de esquerda, apenas me valerei dos dados registrados nos anais da história. Se estão certos ou não, não cabe a mim fazer tal avaliação.
Isto posto, vamos ao primeiro capítulo da série.

A mídia e o golpe militar


Resultado de imagem para imagem do golpe militar de 1964 e a imprensa
No dia 20 de junho de 1951 esboçavam-se as primeiras cenas de uma tragédia que abalaria o país três anos depois – o suicídio do presidente Getulio Vargas. Naquele dia, as bancas de jornal do Rio de Janeiro, então capital da República, receberam pilhas de um novo jornal, Última Hora, que aparecia com nova cara, diferente de todos os veículos de imprensa até então publicados. Vinha com nova paginação, títulos chamativos, em cores, grandes espaços ocupados por fotografias e, principalmente, escrito em linguagem direta, de fácil compreensão pelo público.

As diferenças não se limitavam a inovações editorias e gráficas: o novo jornal surgia com o claro objetivo de romper a "conspiração do silêncio" que predominava na quase totalidade dos grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão em relação ao governo de Getulio Vargas, que voltara ao poder pelo voto popular, nas eleições de 1950. Destacavam-se, entre eles, os mais importantes jornais editados no eixo Rio-São Paulo, como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Diário de Notícias e O Estado de S. Paulo, aos quais se somavam os Diários Associados de Assis Chateaubriand, esses com alto poder de fogo, pois tinham edições em praticamente todos os estados.

A mídia refletia a reação da classe dominante, os conservadores e os chamados liberais que não aceitavam o resultado das urnas, das quais Vargas saíra vitorioso com 48% dos votos. Assim, em pouco tempo o silêncio foi cedendo lugar a uma campanha aberta contra o presidente. Um jornal, especialmente a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, fazia o papel de porta-bandeira da reação.

Última Hora, dirigido pelo jornalista Samuel Wainer, que defendia o governo, obteve sucesso imediato, principalmente entre as camadas mais pobres da população. Além de atrair pela inovação gráfica, o jornal custava menos do que os demais e crescia em volume e tiragem, mais uma razão para a reação da mídia estabelecida. Não demorou a que se estabelecesse um verdadeiro duelo entre Última Hora e Tribuna de Imprensa.

É chegada a última hora


Resultado de imagem para imagem de maquina de escrever antiga
Em meio a esse embate, a nova publicação era saudada nos meios profissionais como uma importante renovação do jornalismo brasileiro. Para muitos, o caráter inovador do jornal representava uma "revolução" na imprensa. Mas o impacto de seu lançamento marcaria, também, o início de sucessivas crises políticas que culminariam com o suicídio de Vargas e se prolongariam até o golpe militar de 1964. Com o aparecimento de Última Hora, começava a ser chocado o ovo da serpente que levaria o país a mergulhar na escuridão e na violência de 21 anos de ditadura.

A história de Última Hora havia começado dois anos antes, quando Samuel Wainer, que trabalhava nos Diários Associados, foi enviado ao Rio Grande do Sul para fazer uma série de reportagens sobre a produção de trigo. Foi, então, que o repórter, atiladíssimo, tomou o rumo de uma casa perdida no meio do pampa gaúcho, sede da fazenda onde Getulio Vargas se refugiara depois da queda do poder, em 1945, com o fim da ditadura do Estado Novo por ele implantado em 1937.

Ali o ex-ditador vivia, tranquilo, o seu ostracismo. Na casa simples, de poucos e pobres móveis, quase miserável, o ex-ditador recebeu o repórter, que voltou para o Rio com uma reportagem-bomba: Getulio anunciava que voltaria ao poder. Disputaria o voto popular nas eleições de 3 de outubro de 1950, voltaria "nos braços do povo".

A reportagem teve enorme repercussão e serviria, pouco tempo depois, de porta de entrada para os cofres do Banco do Brasil, que garantiu parte substancial do capital necessário para a montagem do jornal Última Hora. Samuel Wainer, que se tornara amigo do presidente eleito, seria o comandante da operação.

A ideia da criação de um jornal começara a frutificar logo depois da publicação da reportagem, que sacudira os meios políticos, servindo de termômetro para Getúlio avaliar o seu poder de fogo no embate eleitoral que se avizinhava. Agradecido, ele tornara-se amigo de Samuel Wainer e tratou de ajudá-lo na tarefa de montar o jornal.

Vargas antevia as dificuldades que teria de enfrentar com a imprensa, que durante a campanha eleitoral se unira contra sua volta ao poder. Já antes da posse ele considerava a necessidade de contar com um veículo de comunicação para enfrentar o fogo cerrado da mídia aliada aos setores mais conservadores do capital nacional e defensora dos interesses das grandes corporações internacionais que atuavam no país. Ao jornal de Samuel foi destinada a missão de enfrentar os poderosos donos da mídia comprometidos com esses interesses.

Difícil missão


Resultado de imagem para Imagem do jornal última hora
Não era uma missão fácil. Com o sucesso do vespertino, que aliava às inovações técnicas uma cobertura de qualidade, graças à contratação de profissionais recrutados entre os melhores, todos bem pagos, não tardariam as denúncias de favorecimento do governo, principalmente o financiamento concedido a Samuel Wainer pelo Banco do Brasil. Esse financiamento não constituía uma novidade entre as empresas editoras de jornais, mas no caso de Última Hora foi alardeado como um escândalo sem precedentes.

O golpe da mídia


A participação da mídia nos acontecimentos que levaram ao golpe militar de 1964 contribuiu de maneira decisiva para a implantação da ditadura que dominaria o país por 21 anos. Pode-se afirmar, sem temor de erro, que um único jornal, Última Hora, não aderiu ao golpe. No dia 2 de abril, acuado depois de depredada sua redação, o jornal vivia uma situação inversa à de 24 de agosto de 1954, quando o povo enfurecido atacou as redações de veículos que pregavam a queda de Getúlio, entre os quais O Globo e Tribuna da Imprensa, a edição daquele dia, com cerca de 400 mil exemplares, trazia em manchete a notícia do suicídio de Getúlio Vargas.

Os grandes jornais do eixo Rio-São Paulo vinham, simultaneamente à conspiração que avançava nos quarteis, ampliando a cada dia o espaço para respaldo ao movimento. Alguns desses veículos, como no caso de O Estado de S. Paulo e O Globo, além do notório Tribuna da Imprensa, participavam ativamente da conspiração. Alguns dirigentes de grandes empresas jornalísticas faziam questão de alardear a sua condição de conspiradores. Em entrevista que me concedeu em 2005, o jornalista Ruy Mesquita, diretor do Grupo Estado, afirmou, ao ser perguntado sobre o apoio dado por seus jornais ao golpe: 
"Não só apoiamos, como conspiramos".

Esse alinhamento com o movimento golpista repetia a posição de amplos setores do empresariado, assustados com a possível implantação das reformas de base anunciadas com alarde pelo governo de João Goulart, inclusive em comícios em praça pública. O fantasma da tomada do poder pelo comunismo pairava no ar.

As grandes empresas jornalísticas cumpriam, assim, o papel que consideravam legítimo em defesa de seu capital. A mídia tornava-se poderoso instrumento ideológico na preparação e, mais tarde, no respaldo ao regime militar. Sua contribuição para a desestabilização do governo Goulart, que além de ser acusado de inepto era apontado como agente da infiltração comunista no Brasil, foi fundamental. Resultado de imagem para Imagem do jornal última hora
Mesmo jornais de longa tradição liberal, como o Correio da Manhã, estiveram na linha de frente do processo de desestabilização do governo. Ficaram famosos dois editoriais publicados por esse jornal nos dias 31 de março e 1° de abril, na agonia e na queda do governo Goulart. Os títulos – "Basta!" e "Fora!" – falavam por si. Clamavam pela deposição do presidente.

O apoio da imprensa ao golpe tem sido analisado em inúmeros trabalhos acadêmicos e, frequentemente, por jornalistas que acompanharam os acontecimentos que precederam o abril de 1964 e os duros dias que se seguiram, com a instauração do regime militar.

Chega o AI-5


Imagem relacionada
Com o AI-5 veio a censura, que se fazia a distância, e instalou-se na redação do Correio. O jornal foi, aos poucos, definhando. Morreria ingloriamente nas mãos de um grupo ligado a empreiteiras, que o havia arrendado no final de 1969.

Os censores chegaram também à redação de O Estado de S. Paulo, que ficara longe do Correio no confronto direto com o poder militar, mesmo que dele discordasse desde a imposição do Ato Institucional n°2, de 27 de outubro de 1965, que entre outras coisas extinguia os partidos políticos e tornava indireta a eleição para presidente da República.

A censura prévia ao Estado chegou antes mesmo da consumação do AI-5. Pode-se dizer que veio na véspera, 12 de dezembro, para impedir que um editorial escrito por seu diretor, Júlio de Mesquita Neto, chegasse a conhecimento público. Perto da meia-noite, o chefe da Polícia Federal, general Sílvio Correia de Andrade, telefonou para a redação querendo saber qual seria a manchete do dia seguinte.

Logo mais, às duas da madrugada do dia 13, estava nas oficinas do jornal que estava em final de impressão. Mandou que parassem as máquinas e ordenou a apreensão dos exemplares impressos O editorial, intitulado "Instituições em frangalhos", tratava do episódio em que a Câmara dos Deputados negara a licença de cassação do deputado Márcio Moreira Alves, exigida pelo governo como punição pelo discurso em que o parlamentar atacara duramente o regime. Batia duro em Costa e Silva e mencionava "as contradições do artificialismo institucional que pela pressão das armas foi o país obrigado a aceitar".

O jornal driblara a ordem de apreensão e conseguira lançar mais de cem mil exemplares nas bancas, incluídos 80 mil do Jornal da Tarde, o vespertino do grupo. Isso levou o general-chefe da censura a marchar sobre as bancas e a recolher, furioso, exemplares que sacudia no ar, furioso, enquanto gritava: "Este jornal traiu a Revolução!".

No mesmo dia os censores, alguns de revólver à mostra, estavam na redação e nas oficinas. A censura prévia, de "corpo presente", permaneceria até 9 de janeiro de 1969, Mas, como acontecia nos outros veículos de comunicação, continuou sendo feita a distância, por telex ou telefone. Três anos mais tarde, em agosto de 1972, os censores voltaram a agir diretamente da redação e de lá só saíram em janeiro de 1975, quando o general Geisel determinou o fim da censura prévia no grupo Estado.

Isso não significou que as restrições à liberdade de informação tivessem terminado para todos os veículos. Mas foi, sem dúvida, uma sinalização para a grande imprensa em geral, que, mesmo censurada a distância, foi aos poucos, cautelosamente, abrindo mão da autocensura, sem deixar, porém, a prática da omissão, evitando bater de frente com o regime.

O caso Vladmir Herzog

Um importante marco para a mudança no cenário da imprensa nacional


Resultado de imagem para Imagem de Vladimir Herzog
Os donos dos jornais atravessaram o período da ditadura fazendo um jogo dúbio em que as cartas eram, na maioria das vezes, favoráveis ao regime. A maioria fez autocensura ou fingiu uma mais que suspeita neutralidade. Alguns, como nos casos de O Estado de S. Paulo e do Correio da Manhã, reagiram aos "desvios" autoritários dos militares, mas a maioria silenciou, não apenas por temor de represálias, mas por apoiar os desmandos da ditadura.

Pode-se constatar que a omissão de informação era a praxe na grande imprensa. Antes do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em dependência do II Exército, em São Paulo, os militares da extrema-direita haviam desfechado uma operação de caça a jornalistas acusados de subversão. Em notas sucessivas, enviadas às redações, o Sindicato denunciava as prisões. Raramente essas notas eram publicadas; nenhum jornal ousou perguntar nada além daquilo que constava nos comunicados. Nada era apurado, nada era investigado.

Esse comportamento mudaria gradativamente a partir da morte de Herzog, quando O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde, que já estavam livres da censura prévia, foram abrindo espaço cada vez maior para noticiar o caso. E não só noticiar como condenar a violência dos militares em editoriais candentes. Os demais jornais noticiavam cautelosamente, mesmo que privilegiando os comunicados oficiais, que ofereciam a versão de suicídio para a morte do jornalista. De qualquer modo era um avanço, o despertar de longos anos de silêncio.

Nesse caso estava a Folha de S.Paulo, carro-chefe da empresa Folha da Manhã, comandado por Octavio Frias de Oliveira. Mas o grupo mantinha também a Folha da Tarde, um vespertino que assumira uma linha de esquerda antes do AI-5, mas que depois sofreu uma virada violenta, a ponto de ser considerado porta-voz da repressão política. Mas especificamente da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) e da Operação Bandeirante, que evoluiria para o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), onde Herzog foi morto sob tortura.

A Folha da Tarde era, praticamente, o avesso da Folha de S.Paulo, apesar da linha cautelosa e mesmo da concordância que essa mantinha em relação à ditadura militar. Em sua redação chegaram a trabalhar alguns policiais, em verdadeira dupla militância. Na verdade, militância a favor da ditadura. Havia acusações de que os carros do jornal serviam em operações da repressão política.

O caso Herzog escancarou o absurdo da existência de jornais tão diferentes editados pela mesma empresa. Enquanto a Folha de S.Paulo, com seus cuidados, informava com economia de espaço sobre os fatos que se seguiram ao assassinato do jornalista, a Folha da Tarde se esmerava em reforçar a versão dos militares. A manchete de primeira página do dia 27 de outubro, dois dias depois do ocorrido, anunciava: "Comunistas levam colega ao suicídio". E já no dia seguinte completava o serviço: "Herzog é sepultado e perícia confirma: suicídio".

A tragédia de Herzog servira, apesar das versões dos militares veiculadas pela Folha da Tarde, para espantar o fantasma da censura, que pairava em todas as redações. E, de modo marcante, contribuiu para substancial mudança na linha editorial da Folha de S.Paulo. Desde janeiro de 1969, quando a censura caiu pesadamente sobre toda a imprensa, o jornal de Octavio Frias deixara de publicar o editorial, tornando-se assim o único dos grandes jornais brasileiros a abrir mão do espaço destinado à sua opinião.

No dia seguinte ao culto ecumênico celebrado na catedral de São Paulo, no dia 31 de outubro de 1975, em memória do jornalista assassinado, a Folha estampava de volta o seu editorial. O culto, que levou oito mil pessoas à praça da Sé, realizara-se sem incidentes, ao contrário do que era esperado pelos militares, que haviam cercado a catedral e sitiado toda a cidade. Havia a ameaça de um massacre, a cidade e o país viveram momentos de grande tensão.

Conclusão do primeiro capítulo


Anos depois, quando o povo começou a tomar as ruas exigindo o fim do arbítrio, pelas eleições diretas para a Presidência da República, a Folha saía na frente, abrindo as suas páginas para aquelas que se constituiriam na maior manifestação de massa da história do Brasil.

Outros grandes jornais passaram a dedicar mais espaço à reação da sociedade civil, que se organizava em movimentos que se mostravam irreversíveis. Eles haviam engolido a censura ou convivido sem protesto com o arbítrio. Até que perceberem que a mercadoria que vinham entregando aos seus leitores – a informação – começava a não ser aceita, por falta de credibilidade.

  • Continua no próximo capítulo.


[Fonte: Scielo - Referências Bibliográficas: ABRAMO, Z. W.; MAUÉS, F. Pela democracia, contra o arbítrio – A oposição democrática, do golpe de 1964 à campanha das Diretas Já. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2006; ABREU, J. B. de. As manobras da informação. Rio de Janeiro: Mauad; Eduf, 2000; AZEVEDO, C. Jornal Movimento – Uma reportagem. São Paulo: Editora Manifesto, 2011; BLASS, S.; BERTOL, R. (Org.) Memória de repórter – Lembranças, casos e outras histórias de jornalistas brasileiros. Rio de Janeiro: Verso Brasil, 2010; DANTAS, A. As duas guerras de Vlado Herzog – Da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012; FALCÃO, A. Tudo a declarar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989; GASPARI, E. A ditadura encurralada. São Pulo: Cia. das Letras, 2004; JORGE, F. Cale a boca, jornalista – O ódio e fúria dos mandões contra a imprensa brasileira. São Paulo: Novo Século, 2008; KUSHNIR, B. Cães de guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo, 2004; LIMA, V. A. de. Mídia – Crise política e poder no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006; MATTOS, S. Mídia controlada – A história da censura no Brasil e no mundo. São Paulo: Paulus, 2005; PEROSA, M. F. de L. Cidadania proibida – O caso Herzog através da imprensa. São Paulo: Imprensa Oficial, 2001; SALDANHA, M. O país transtornado – Memórias do Brasil recente. Porto Alegre: Movimento, 2012; SILVA, H. O poder militar no Brasil. Porto Alegre: L&PM, 1987. SODRÉ, N. W. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966; WILLIAM, W. O soldado absoluto – Uma biografia do marechal Henrique Lott. Rio de Janeiro: Record, 2006]

A Deus, o Pai, toda glória! 
E nem 1% religioso. 

Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.