| Crédito: imagem gerada com recursos da IA |
Neste capítulo da nossa série especial de artigos, Pronto, falei!, vamos repercutir o pavoroso filme "Virtuosas".
Em cartaz desde 24 de setembro de 2026, "Virtuosas", dirigido por Cíntia Domit Bittar, utiliza o terror para abordar mulheres cristãs identificadas pela produção como integrantes de um universo ultraconservador ligado ao conceito de tradwife.
O longa apresenta um retiro destinado a aperfeiçoar a chamada feminilidade cristã e transforma essa proposta em uma narrativa de suspense, crítica social e confronto com determinadas interpretações da Bíblia. De acordo com a diretora, o filme procura discutir manipulação da fé, conservadorismo e relações de poder.
O longa apresenta um retiro destinado a aperfeiçoar a chamada feminilidade cristã e transforma essa proposta em uma narrativa de suspense, crítica social e confronto com determinadas interpretações da Bíblia. De acordo com a diretora, o filme procura discutir manipulação da fé, conservadorismo e relações de poder.
Estrelado por Bruna Linzmeyer, a produção apresenta um retiro feminino no qual a Bíblia é utilizada como referência para definir comportamentos, relações conjugais e papéis sociais.
A diretora afirma que pesquisou o fenômeno durante anos e que seu interesse central está na ascensão do ultraconservadorismo e no que identifica como manipulação da fé e distorção do texto bíblico.
A diretora afirma que pesquisou o fenômeno durante anos e que seu interesse central está na ascensão do ultraconservadorismo e no que identifica como manipulação da fé e distorção do texto bíblico.
Entre a crítica ao conservadorismo e a leitura de Provérbios 31
O ponto de partida da obra é a expressão “mulher virtuosa”, associada a Provérbios 31:10-31.
É justamente nessa associação que surge uma das principais questões teológicas do filme.
Provérbios 31 não descreve uma mulher passiva, sem autonomia ou restrita ao ambiente doméstico. O poema apresenta uma personagem que administra a casa, negocia, compra propriedades, trabalha, produz, comercializa mercadorias e toma decisões econômicas.
“Considera uma propriedade e a adquire; planta uma vinha com as rendas do seu trabalho” (Pv 31:16).
A passagem continua:
“Ela faz roupas de linho e as vende” (Pv 31:24).
O texto também registra uma dimensão social:
“Abre a mão ao aflito; e ainda a estende ao necessitado” (Pv 31:20).
Portanto, a personagem bíblica não cabe integralmente na representação contemporânea de uma mulher cuja principal função seria obedecer ao marido e permanecer confinada ao lar.
Narrativa progressista
Na história, três mulheres participam de uma espécie de retiro VIP comandado pela influenciadora Virgínia Heinzel, interpretada por Bruna Linzmeyer.
O objetivo anunciado é ajudá-las a alcançar uma “melhor versão” de si mesmas. A narrativa transforma gradualmente esse ambiente em uma experiência de terror.
O objetivo anunciado é ajudá-las a alcançar uma “melhor versão” de si mesmas. A narrativa transforma gradualmente esse ambiente em uma experiência de terror.
A produção utiliza como referência principal Provérbios 31:10-31. O trecho bíblico apresenta a chamada eshet hayil, expressão hebraica tradicionalmente traduzida como “mulher virtuosa”, “mulher valorosa” ou “mulher de valor”.
É nesse ponto que surge uma das principais questões teológicas envolvendo o filme.
O texto bíblico não apresenta essa mulher apenas como esposa dedicada ao marido e aos filhos. Ela trabalha, administra recursos, compra uma propriedade, planta uma vinha, comercializa produtos, ajuda pessoas pobres e participa ativamente da vida econômica de sua comunidade.
A narrativa acompanha Virgínia Heinzel, uma influenciadora e coach que prega os valores tradicionais da chamada “mulher virtuosa” para o público feminino conservador.
Acompanhada por Germina (Maria Galant), Lorena (Juliana Lourenção), Bárbara (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques), o grupo inicia um encontro focado no aprimoramento pessoal e espiritual.
No entanto, a busca inicial por harmonia é rapidamente substituída por uma crescente atmosfera de paranoia, tensão e escolhas extremas. É justamente aí que surge uma das principais questões teológicas do filme.
Acompanhada por Germina (Maria Galant), Lorena (Juliana Lourenção), Bárbara (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques), o grupo inicia um encontro focado no aprimoramento pessoal e espiritual.
No entanto, a busca inicial por harmonia é rapidamente substituída por uma crescente atmosfera de paranoia, tensão e escolhas extremas. É justamente aí que surge uma das principais questões teológicas do filme.
Quando o cinema transforma Provérbios 31 em campo de batalha ideológica
| Crédito: Folha / Uol |
O poema apresenta uma personagem que administra a casa, negocia, compra propriedades, trabalha, produz, comercializa mercadorias e toma decisões econômicas.
Estudos acadêmicos também observam essa dimensão. O projeto Theology of Work, associado ao trabalho de estudiosos como Bruce Waltke e Alice Mathews, interpreta a personagem como uma mulher forte, produtiva e economicamente ativa.
O comentário destaca que a passagem apresenta uma empreendedora que administra trabalhadores e realiza negócios.
A pesquisadora Jacqueline Vayntrub, da Yale Divinity School, identifica ainda no poema uma valorização da sabedoria adquirida e das ações realizadas pela mulher, em contraste com a valorização da beleza exterior.
A própria estrutura do capítulo merece atenção. Provérbios 31:10-31 é um poema acróstico, construído a partir das letras do alfabeto hebraico.
Não se trata de uma reportagem biográfica sobre uma mulher específica. Estudos hermenêuticos o interpretam como uma figura idealizada da literatura sapiencial.
Não se trata de uma reportagem biográfica sobre uma mulher específica. Estudos hermenêuticos o interpretam como uma figura idealizada da literatura sapiencial.
O versículo 30 estabelece o eixo teológico da passagem:
“A mulher que teme o Senhor, essa será louvada”.
Esse elemento modifica a interpretação do conceito de virtude.
No texto bíblico, a virtude não está fundamentada simplesmente na obediência a padrões sociais de feminilidade. Ela está relacionada ao caráter, à sabedoria, ao trabalho, à responsabilidade e, sobretudo, ao temor do Senhor.
No texto bíblico, a virtude não está fundamentada simplesmente na obediência a padrões sociais de feminilidade. Ela está relacionada ao caráter, à sabedoria, ao trabalho, à responsabilidade e, sobretudo, ao temor do Senhor.
Não se trata apenas de crítica é militância escancarada e crítica frontal às mulheres cristãs
| Crédito: reprodução Mural do Paraná |
Em entrevista, Bittar afirmou que pesquisou grupos identificados com mulheres “virtuosas” e sua relação com o movimento tradwife.
A diretora também declarou enxergar nesses grupos uma relação entre submissão feminina, conservadorismo e determinadas interpretações do cristianismo.
Essa perspectiva ajuda a compreender a proposta cinematográfica, mas também exige separação entre crítica cultural e exegese bíblica.
A crítica ao uso da religião como instrumento de controle encontra respaldo em estudos sobre gênero e Bíblia.
A teóloga Ilze Jansen, da Universidade de Pretória, observa que Provérbios 31 foi utilizado historicamente para estabelecer expectativas sobre o comportamento feminino, mas também argumenta que a personagem pode ser compreendida como modelo de iniciativa, trabalho e relacionamento com Deus.
Ao mesmo tempo, uma leitura cristã do capítulo não permite simplesmente retirar a dimensão familiar do texto. Provérbios 31 menciona marido, filhos, administração da casa e responsabilidade comunitária.
O problema hermenêutico aparece quando uma dessas dimensões é transformada na totalidade da mensagem.
Outros textos bíblicos ampliam essa perspectiva. Gálatas 3:28 afirma que, em Cristo,
Concomitantemente, Efésios 5:25 determina aos maridos:
“não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher”.
O versículo trata da igualdade espiritual em Cristo e não deve ser utilizado isoladamente para resolver todas as questões contemporâneas de gênero. Ainda assim, integra uma teologia cristã que precisa ser considerada na discussão.
“Amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja”.E Marcos 12:31 estabelece o amor ao próximo como princípio fundamental.
A própria diretora relaciona as personagens de Virtuosas ao movimento internacional tradwife e afirma identificar nesses grupos uma concepção de feminilidade baseada na submissão feminina e na rejeição do feminismo.
Essa é uma interpretação apresentada pela cineasta sobre o fenômeno que inspirou sua obra.
O filme, portanto, não pretende realizar uma exposição teológica de Provérbios. Ele utiliza a linguagem cinematográfica para fazer uma crítica social.
Essa distinção é importante.
A Deus o que é de Deus
Do ponto de vista da hermenêutica bíblica, Provérbios 31:10-31 é um poema. No hebraico, a passagem possui estrutura acróstica.
Cada verso acompanha sucessivamente as letras do alfabeto hebraico. A mulher descrita no poema funciona como uma representação de excelência, sabedoria, trabalho e temor de Deus.
Cada verso acompanha sucessivamente as letras do alfabeto hebraico. A mulher descrita no poema funciona como uma representação de excelência, sabedoria, trabalho e temor de Deus.
O centro da passagem aparece no versículo 30:
“Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada”.
A virtude, portanto, não é definida apenas pela aparência, pela domesticidade ou pelo relacionamento conjugal.
Ela está relacionada ao caráter.
Provérbios 31:26 acrescenta: “Fala com sabedoria, e a instrução da bondade está na sua língua”.
A Bíblia também apresenta mulheres exercendo funções relevantes fora de uma interpretação exclusivamente doméstica.
- Débora, em Juízes 4, aparece como profetisa e juíza de Israel
. - Priscila participa da instrução teológica de Apolo em Atos 18:26.
- Febe é mencionada por Paulo em Romanos 16:1,2 como serva da igreja em Cencreia e alguém que auxiliou muitas pessoas.
Esses textos não eliminam as responsabilidades familiares presentes na Bíblia.
Eles demonstram que a compreensão bíblica da mulher é mais ampla do que uma única função social.
Eles demonstram que a compreensão bíblica da mulher é mais ampla do que uma única função social.
A passagem, portanto, não apresenta autoridade masculina como licença para dominação. O parâmetro colocado diante do marido é o amor sacrificial de Cristo.
A leitura de Provérbios 31 também encontra respaldo em estudos teológicos que destacam a atividade econômica da personagem.
Pesquisas sobre o texto observam que ela administra recursos, realiza negócios e participa da produção familiar e comunitária.
Pesquisas sobre o texto observam que ela administra recursos, realiza negócios e participa da produção familiar e comunitária.
Nesse sentido, existe uma diferença entre o que Provérbios 31 afirma e determinadas construções culturais feitas posteriormente a partir da passagem.
É nessa diferença que a crítica de Virtuosas encontra seu principal argumento.
O problema aparece quando a discussão cinematográfica transforma uma interpretação específica do cristianismo conservador em representação abrangente da própria fé cristã.
Cristianismo, conservadorismo, feminismo e patriarcado são conceitos relacionados historicamente em diferentes contextos, mas não são sinônimos.
Há mulheres cristãs que defendem a organização tradicional da família sem necessariamente aderirem a movimentos políticos conservadores.
Também existem mulheres cristãs que defendem maior participação feminina em diferentes espaços sociais sem abandonarem sua fé bíblica.
A obra de Bittar escolhe um recorte específico.
Nada pode contra a verdade
Senão pela verdade
Crédito: YouTube
Assim, a discussão provocada por "Virtuosas" ultrapassa a oposição simplificada entre feminismo e cristianismo.
O filme questiona uma determinada construção social da mulher cristã.
A Bíblia, por sua vez, precisa ser analisada dentro de seu contexto literário, histórico e teológico.
O filme questiona uma determinada construção social da mulher cristã.
A Bíblia, por sua vez, precisa ser analisada dentro de seu contexto literário, histórico e teológico.
Do ponto de vista cinematográfico, a obra utiliza o horror para transformar uma discussão social em uma experiência de tensão.
Críticas publicadas após a estreia destacaram justamente a combinação entre drama, sátira e terror, além da representação caricatural de determinados ambientes religiosos.
Críticas publicadas após a estreia destacaram justamente a combinação entre drama, sátira e terror, além da representação caricatural de determinados ambientes religiosos.
A principal questão deixada pelo filme, portanto, não é simplesmente se a mulher deve ser “virtuosa”. O próprio texto bíblico responde afirmativamente. A questão é o que significa ser virtuosa segundo Provérbios 31.
E, nesse aspecto, o texto apresenta uma mulher que trabalha, negocia, administra, produz, protege sua família, socorre os necessitados, fala com sabedoria e teme a Deus.
Conclusão
Crédito: YouTube
O Festival de Cinema de Vitória classificou "Virtuosas" como um filme de “terror feminista” voltado à crítica do patriarcado e do negacionismo.
A própria diretora afirma que o gênero foi escolhido para discutir aquilo que considera um fenômeno social contemporâneo.
Por isso, a produção deve ser compreendida também como uma obra de posicionamento cultural.
Sua leitura da religião não é apresentada como exegese acadêmica de Provérbios 31, mas como instrumento narrativo para questionar uma determinada construção social da mulher cristã.
A questão que permanece para o espectador cristão é outra: até que ponto uma crítica dirigida a determinadas práticas religiosas consegue distinguir entre abuso da fé e a própria fé?
Provérbios 31 termina dizendo:
“Dai-lhe do fruto das suas mãos, e de público a louvarão as suas obras” (Pv 31:31).
A mulher virtuosa do texto bíblico não é apresentada somente como esposa. Ela é trabalhadora, administradora, comerciante, cuidadora, sábia e temente a Deus.
A discussão provocada por Virtuosas, portanto, não deveria terminar na oposição entre feminismo e cristianismo.
Ela pode começar justamente onde o filme e o texto bíblico se encontram: na pergunta sobre quem tem autoridade para definir o significado de “virtude”.
Para a tradição cristã, a resposta precisa começar pelo próprio texto bíblico. Para o cinema, a resposta pode ser construída pela crítica social e pela ficção.
São linguagens diferentes.
Confundi-las pode produzir tanto uma caricatura da fé quanto uma leitura reduzida do próprio filme.
A discussão permanece aberta entre cinema, teologia, feminismo e sociedade. O desafio está em não substituir a leitura do texto bíblico pela leitura ideológica feita sobre ele — seja ela conservadora ou progressista.
🚨Observação importante: o texto que produzi é original e não reproduz as fontes consultadas.As publicações foram utilizadas como referencial teórico para fundamentar as análises em seus respectivos prismas.
- Por: Leonardo Sérgio da Silva
- [Fontes e bibliografia para aprofundamento: Sociedade Bíblica do Brasil — Provérbios 31:10-31. Cíntia Domit Bittar — entrevistas sobre a concepção e os objetivos de Virtuosas. Medium. Festival de Cinema de Vitória — apresentação oficial de Virtuosas. Festival de Cinema de Vitória. Jacqueline Vayntrub — estudos acadêmicos sobre beleza, sabedoria e trabalho em Provérbios 31. Bruce K. Waltke — estudos sobre o livro de Provérbios e a literatura sapiencial. Tremper Longman III — Proverbs, Baker Commentary on the Old Testament Wisdom and Psalms. Michael V. Fox — Proverbs 10–31, Anchor Yale Bible. Roland E. Murphy — estudos sobre a literatura sapiencial do Antigo Testamento. Sociedade Bíblica do Brasil — Provérbios 31: texto bíblico e contexto imediato. Sociedade Bíblica do Brasil. Cíntia Domit Bittar — entrevistas sobre Virtuosas: concepção do filme e suas referências sociais e religiosas. Feito por Elas. Bruce Waltke e Alice Mathews — Theology of Work: análise de Provérbios 31 e da dimensão econômica da mulher virtuosa. Teologia do Trabalho. Jacqueline Vayntrub — Harvard Theological Review: estudo sobre beleza, sabedoria e trabalho em Provérbios 31. Cambridge University Press. Ilze Jansen — Verbum et Ecclesia: leitura contextual, gênero e interpretação de Provérbios 31. Verbum et Ecclesia. Raymond Apple — Jewish Bible Quarterly: análise das duas mulheres apresentadas em Provérbios 31. Jewish Bible Quarterly. Working Preacher / Luther Seminary: comentário sobre trabalho, família e atividade econômica da mulher de Provérbios 31.]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
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E nem 1% religioso.
