Há perguntas que acompanham o ser humano desde que ele tomou consciência de sua própria existência.
Entre elas, talvez nenhuma seja tão desconcertante, incômoda e, por muitos, temida quanto esta:
Essa espécie de ignorância, aparentemente angustiante, pode também ser uma das maiores lições que a vida nos oferece.
O livro bíblico de Eclesiastes traduz essa condição com uma simplicidade quase desconcertante:
Entre elas, talvez nenhuma seja tão desconcertante, incômoda e, por muitos, temida quanto esta:
quando vou morrer?Sabemos que a morte virá, mas desconhecemos o dia, a hora e as circunstâncias.
Essa espécie de ignorância, aparentemente angustiante, pode também ser uma das maiores lições que a vida nos oferece.
O que temos a aprender?
A pedagogia da morte
O livro bíblico de Eclesiastes traduz essa condição com uma simplicidade quase desconcertante:
Planejamos aniversários, viagens, projetos, aposentadoria, encontros para daqui a meses ou anos — mas a existência humana permanece atravessada pelo imprevisto.
- O que nos diz a Filosofia
Na filosofia, o alemão Martin Heidegger (✰1889/✞1976) transformou essa percepção em uma reflexão sobre a própria existência.
Para ele, a morte não deveria ser compreendida apenas como um acontecimento que ocorrerá no final da vida, mas como uma possibilidade permanentemente presente.
Imagem gerada por IA A consciência da finitude pode nos retirar da existência automática e nos devolver à responsabilidade por aquilo que fazemos com o tempo que temos.
É interessante perceber que Epicuro (✰341 a.C./✞270 a.C.) caminhou por outra direção.
Para o filósofo grego, não deveríamos transformar a morte em uma fonte permanente de sofrimento:
Para o filósofo grego, não deveríamos transformar a morte em uma fonte permanente de sofrimento:
"quando somos, a morte não está; quando a morte está, nós não estamos".Seu argumento não elimina a tristeza da despedida, mas questiona a angústia antecipada diante de algo que ainda não aconteceu.
- O que diz a Psicanálise
A psicanálise acrescenta outra camada a esse debate.
Sigmund Freud (✰1856/✞1939) observou que existe, no inconsciente, uma dificuldade profunda de representar a própria morte.
Em "Reflexões para os tempos de guerra e morte", escreveu que, no inconsciente, cada pessoa se comporta como se fosse imortal.
Talvez por isso saibamos racionalmente que morreremos, mas vivamos emocionalmente como se a morte fosse sempre algo que acontece aos outros.
Sigmund Freud (✰1856/✞1939) observou que existe, no inconsciente, uma dificuldade profunda de representar a própria morte.
Em "Reflexões para os tempos de guerra e morte", escreveu que, no inconsciente, cada pessoa se comporta como se fosse imortal.
Talvez por isso saibamos racionalmente que morreremos, mas vivamos emocionalmente como se a morte fosse sempre algo que acontece aos outros.
E há uma consequência curiosa dessa contradição: justamente porque não sabemos quando a vida terminará, cada dia ganha um valor que dificilmente teria se conhecêssemos antecipadamente a data de nossa morte.
A incerteza, nesse sentido, pode ser pedagógica.
Ela nos ensina a não adiar indefinidamente aquilo que realmente importa: pedir perdão, dizer "eu te amo", visitar alguém, reconciliar-se, abandonar ressentimentos, realizar um sonho ou simplesmente aproveitar uma manhã tranquila.
A incerteza, nesse sentido, pode ser pedagógica.
Ela nos ensina a não adiar indefinidamente aquilo que realmente importa: pedir perdão, dizer "eu te amo", visitar alguém, reconciliar-se, abandonar ressentimentos, realizar um sonho ou simplesmente aproveitar uma manhã tranquila.
- O que nos diz a Teologia
Para a tradição cristã, essa consciência da finitude não precisa produzir desespero.
A fé interpreta a morte à luz da esperança da ressurreição.
O Catecismo católico afirma que a lembrança da mortalidade dá "urgência" à existência, justamente porque temos um tempo limitado para realizar nossa vida.
Paulo expressa essa esperança ao afirmar:
A fé interpreta a morte à luz da esperança da ressurreição.
O Catecismo católico afirma que a lembrança da mortalidade dá "urgência" à existência, justamente porque temos um tempo limitado para realizar nossa vida.
Paulo expressa essa esperança ao afirmar:
"...para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro..." (Filipenses 1:21).
A filosofia nos convida a assumir nossa finitude; a teologia nos oferece uma esperança que ultrapassa essa finitude; e a psicanálise nos ajuda a compreender por que resistimos tanto à ideia de nossa própria mortalidade.
Conclusão
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja "quando vou morrer?", mas
"o que estou fazendo com o tempo que tenho?".Não conhecer o dia da morte pode parecer uma limitação, mas também é uma liberdade.
Se soubéssemos a data exata, talvez transformássemos a vida numa contagem regressiva. Como não sabemos, somos convidados a viver.
A morte permanece incerta. O tempo, entretanto, está acontecendo agora.
E talvez essa seja a grande lição:
E talvez essa seja a grande lição:
não temos garantia de quantos dias teremos, mas temos a responsabilidade de decidir o que faremos com este dia.
- Por Leonardo Sérgio da Silva
- [Fontes e referências para leitura: Heidegger, Martin. Being and Time (Ser e Tempo). A reflexão sobre finitude e morte como possibilidade fundamental da existência. Stanford Encyclopedia of Philosophy — Martin Heidegger; Epicuro. Carta a Meneceu. Reflexão clássica sobre a relação entre morte, sofrimento e medo. Stanford Encyclopedia of Philosophy — Death; Freud, Sigmund. Thoughts for the Times on War and Death (1915). Reflexões psicanalíticas sobre a morte e sua representação no inconsciente. Freud Edition — Thoughts for the Times on War and Death; Freud Museum London. Writing against death. Contextualização contemporânea das ideias de Freud sobre a morte. Freud Museum London. Igreja Católica. Catecismo da Igreja Católica, §§1005–1014. Reflexão teológica sobre morte, finitude e esperança da ressurreição. Vaticano — Catecismo da Igreja Católica; Bíblia Sagrada, Eclesiastes 9:12. Texto bíblico sobre a imprevisibilidade do tempo e da morte. Bíblia — Eclesiastes 9:12]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
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