Reprodução Getty Images
"Quem há entre vós que, tendo ficado, viu esta casa na sua primeira glória? E como a vedes agora? Não é esta como nada em vossos olhos, comparada com aquela? (...)
A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos Exércitos, e neste lugar darei a paz, diz o Senhor dos Exércitos" (Ageu 2:3,9).
Não é novidade a ninguém que é viral no meio evangélico, o abominável hábito de isolar versículos de seus contextos e, em cima deles, criar chavões, clichês, vícios linguísticos que entram para o pavoroso "evangeliquês" e passam a ser recitados em uníssono, como verdadeiros mantras.
Aí, viram temas musicais, frases de efeitos repetidas dos púlpitos como se fossem verdades absolutas, insofismáveis. Os profissionais dos púlpitos, coaches motivacionais do movimento da autoajuda religiosa, então, deitam e rolam.
Este é o caso do versículo acima, que iremos dissecar no texto deste artigo, mais um capítulo da nossa série especial Teologando.
Colocando palavras "na boca de Deus"
"A glória da segunda casa será maior do que a da primeira".
Esta é uma frase muito conhecida entre os cristãos. E o intrigante é que esta famosa declaração é utilizada para os mais diversos fins, desde um novo casamento, um novo emprego, uma nova casa (literalmente) ou até mesmo um novo empreendimento ou uma nova cidade onde se vá morar.
Muitos a utilizam nos apelos para a construção de um novos prédios, ou muitas vezes, na própria inauguração de tais prédios, com o objetivo de dizer:
"Este será muito melhor do que o outro".
Também é bastante comum a aplicação dessa frase no sentido de conquistas e realizações, algo característico do tipo de mensagem triunfalista e antropocêntrica que infelizmente está enraizada em muitos dos que se intitulam cristãos na atualidade.
Campanhas com o tema "a glória da segunda casa" não faltam. Até mesmo hinos já foram compostos falando sobre isto, mas claro, a tal "glória" da segunda casa que será maior do que a da primeira sempre se refere às bênçãos e vitórias que um povo acostumado a determinar coisas a Deus irá conseguir.
Mas será que a Bíblia realmente traz, em algum lugar, essa assertiva? A resposta é um sonoro e enfático NÃO!
É isso o que acontece quando um versículo bíblico é tirado do seu contexto.
As pessoas se apropriam indevidamente de determinadas passagens e acham que, por serem bíblicas, podem ser usadas a esmo, basta fazer um ajuste aqui, uma adaptação ali, um enxerto acolá: eis a teologia franskstein!
As pessoas se apropriam indevidamente de determinadas passagens e acham que, por serem bíblicas, podem ser usadas a esmo, basta fazer um ajuste aqui, uma adaptação ali, um enxerto acolá: eis a teologia franskstein!
Para tanto, ignora-se completamente a Exegese, a Hermenêutica e, em muitos casos, até mesmo a Etimologia das palavras. Este é um erro crasso e muito comum no panteão evangélico.
- Exegese — Na teologia, a exegese é a interpretação profunda e crítica de um texto sagrado. Do grego exēgeomai (que significa "extrair", "guiar para fora" ou "revelar"), o objetivo do exegeta é extrair o significado original que o autor pretendia transmitir, e não impor ideias próprias ao texto.
- Hermenêutica — Na teologia, a hermenêutica é a ciência e arte da interpretação. Ela fornece os princípios, regras e métodos que orientam a compreensão correta dos textos sagrados, permitindo descobrir a mensagem original do autor e como ela se aplica aos dias de hoje.
- Etimologia — Na teologia, a etimologia é a ciência que investiga a origem e a evolução histórica das palavras usadas na fé e nos textos sagrados. Ela ajuda a descobrir o sentido original dos termos nos idiomas originais (hebraico, aramaico e grego), evitando erros de interpretação e revelando mensagens teológicas profundas.
Contexto histórico
Ciro rei da Pérsia, havia permitido que 50.000 judeus voltassem a Jerusalém sob a liderança do governador Zorobabel e o sumo sacerdote Josué.
Durante o segundo ano de seu retorno, foram lançadas os alicerces do templo. A oposição dos samaritanos, porém, fez cessar a obra. Esta tarefa ficou paralisada por dezesseis anos. E, os judeus se tornaram espiritualmente fracos.
O primeiro Templo era magnífico, era extraordinário em riquezas, e o segundo Templo parecia ser infinitamente inferior. A realidade do povo também já não era a mesma.
Nos dias de Salomão, o reino estava unido e havia grande prosperidade, mas nos dias de Ageu o povo tinha acabado de sair do exílio e faltavam recursos.
Diante de tal realidade, o povo ficava cada vez mais desanimado. Foi quando Deus enviou os profetas Ageu e Zacarias para encorajá-los.
Nos dias de Salomão, o reino estava unido e havia grande prosperidade, mas nos dias de Ageu o povo tinha acabado de sair do exílio e faltavam recursos.
Diante de tal realidade, o povo ficava cada vez mais desanimado. Foi quando Deus enviou os profetas Ageu e Zacarias para encorajá-los.
1 – A casa do Senhor estava deserta (Ag 1:4)
Os judeus que voltaram do cativeiro estavam tão ocupados, com os próprios interesses, que passaram negligenciar a construção da casa de Deus.
As suas casas estavam revestidas de madeira de cedro, enquanto o templo permanecia em ruínas. Ageu mostra-lhes que a obra de Deus tem que ter primazia.
O Reino de Deus e as causas do Mestre precisam ter prioridade em nossa vida (Mateus 6:33; João 2:17, 4:34).
As suas casas estavam revestidas de madeira de cedro, enquanto o templo permanecia em ruínas. Ageu mostra-lhes que a obra de Deus tem que ter primazia.
O Reino de Deus e as causas do Mestre precisam ter prioridade em nossa vida (Mateus 6:33; João 2:17, 4:34).
2 – Semeastes muito e recolhestes pouco (Ag 1:6-11)
O povo de Deus perdera a sua bênção, pois estava vivendo apenas em função das próprias vantagens (respeitados as especificidades contextuais, é exatamente igual acontece em nossos dias). Revelavam um mínimo interesse pelos alvos e propósitos divinos.
Podemos esperar um declínio das bênçãos e da ajuda de Deus em nossa vida, se não estivermos envolvidos pela sua obra, tanto no lar quanto entre as nações.
Podemos esperar um declínio das bênçãos e da ajuda de Deus em nossa vida, se não estivermos envolvidos pela sua obra, tanto no lar quanto entre as nações.
3 – Ouviu a voz do Senhor (Ag 1:12)
Os líderes e o povo reagiram positivamente à mensagem de Ageu. Obedeceram e temeram ao Senhor. Levaram a sério a Palavra de Deus. Recomeçaram de imediato a construção da casa do Senhor.
4 – Eu sou convosco (Ag 1:13)
A certeza da presença de Deus é o que dá sentido e direção à vida, oferecendo paz, segurança e propósito em meio às incertezas.
Mais do que bênçãos materiais, essa comunhão traz direção para as escolhas diárias, renova as forças espirituais e transforma o ambiente ao nosso redor.
Mais do que bênçãos materiais, essa comunhão traz direção para as escolhas diárias, renova as forças espirituais e transforma o ambiente ao nosso redor.
Compreensão do contexto
Vamos à análise do trecho da Palavra do Senhor que, ao ser utilizado de forma distorcida, dá origem a uma das mais famosas exclamações presente nos púlpitos brasileiros.
Identificamos, de pronto, que a frase adaptada:
"A Glória da Segunda Casa Seria Maior do que a da Primeira"está fadada a diversos equívocos. Vejamos:
A sã exegese nos ensina que devemos entender o contexto histórico em que determinado livro foi escrito, bem como seu estilo literário.
No caso em questão, o livro de Ageu trata-se de livro profético, e isto já nos traz à mente que devemos interpretá-lo como tal.
Ademais, Ageu escreve seu livro em uma época em que o templo estava sendo restaurado.
No caso em questão, o livro de Ageu trata-se de livro profético, e isto já nos traz à mente que devemos interpretá-lo como tal.
Ademais, Ageu escreve seu livro em uma época em que o templo estava sendo restaurado.
Além disso, o termo hebraico traduzido neste versículo como casa — ניח — tem como melhor tradução a palavra: templo (não "casa", como ficou convencionado falar).
No contexto do Antigo Testamento, o templo significava o local onde Deus manifestava a Sua Glória, e assim foi com o Templo que Salomão edificou a Deus (2 Crônicas 7:1,2)
Assim, o significado bíblico de templo, segundo o contexto do Antigo Testamento, no qual o profeta Ageu estava inserido, era o local onde Deus manifestava a sua Glória.
Outro ponto interessante é que o texto bíblico em nenhum momento fala de "segunda" casa, mas sim da "última" casa. Mas por que será?
Ora, segundo o real significado do termo "casa/templo", o profeta Ageu está dizendo que a Glória do último templo seria maior do que a do primeiro.
Ora, segundo o real significado do termo "casa/templo", o profeta Ageu está dizendo que a Glória do último templo seria maior do que a do primeiro.
E é agora que surge o de mais maravilhoso nesse texto: o profeta Ageu estava falando de Jesus Cristo! Esse é mais um maravilhoso texto messiânico do Antigo Testamento.
Explico: é que o último e maior templo por meio do qual Deus manifestou a Sua Glória foi Jesus Cristo, e Ele mesmo testificou isso:
"Jesus respondeu, e disse-lhes: 'Derribai este templo, e em três dias o levantarei'" (Jo 2:19).
Nesse texto, Jesus estava falando de Si mesmo, o que de fato se cumpriu, visto que morreu e ressuscitou ao terceiro dia.
Assim, o último templo, no qual a glória seria maior do que a do primeiro, é Jesus Cristo!
Em um momento em que a nação de Israel sonhava com o retorno da Glória de Deus por meio da reconstrução do templo, o profeta traz a maravilhosa mensagem do Senhor de que, na verdade, viria o último templo, por meio do qual a Glória de Deus se manifestaria de forma nunca vista, e esse templo é o nosso Senhor Jesus!
Ao contrário do teor que muitos empregam a esse texto de Ageu, a verdade é que se trata de um texto profético e messiânico, apontando para o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo.
A glória e a casa
Recapitulando
Primeiramente precisamos saber que essa "segunda casa" na verdade é o "segundo Templo" que foi construído em Jerusalém, e a frase original traz a expressão "esta última casa" ao invés de "segunda casa".
Esta frase está registrada no livro do profeta Ageu (2:3, 9), e faz parte da série de quatro mensagens proféticas da parte de Deus que ele trouxe ao povo.
O contexto histórico se refere ao momento pós-exílico, pouco tempo depois que o povo havia retornado a Jerusalém.
Deus ordena ao povo que considere por que não fora ainda abençoado. A causa era a desobediência (Ag 1:9-11).
Agora as bençãos vinham a partir da decisão de edificar o templo (a obra). Deus faz com que tudo que empreendam tenha êxito. O favor de Deus, amor, e comunhão, vêm a medida que continuamos a buscá-lo e observar os seus mandamentos.
Agora as bençãos vinham a partir da decisão de edificar o templo (a obra). Deus faz com que tudo que empreendam tenha êxito. O favor de Deus, amor, e comunhão, vêm a medida que continuamos a buscá-lo e observar os seus mandamentos.
O Templo foi reiniciado no ano de 520 a.C e terminado no ano 516 a.C.
Concluímos que quando amamos a obra do Senhor e investimos os nossos recursos e trabalho, seremos ricamente abençoados.
As promessas de nosso Deus não falham. Deus é fiel!
A promessa de Deus nesse versículo se refere ao fato de que aquele Templo seria o Templo dos últimos dias, ou seja, o Templo em que o Messias adentraria.
- Se o primeiro Templo foi esplendoroso em riqueza, esse seria esplendoroso em glória.
- Se no primeiro Templo podia ser visto muito ouro e prata, nesse segundo Templo o dono do ouro e da prata é quem poderia ser visto.
A promessa de que a
"glória desta última casa será maior do que a da primeira"foi finalmente cumprida em Cristo, a maior manifestação da glória e da presença de Deus.
O apóstolo Paulo, na Carta aos Efésios, nos ensina que a glória de Cristo é vista em sua Igreja, o templo de Deus (2:21; 3:20,21).
Sobre a paz que é prometida também no versículo 9, podemos entender que não se referia apenas aos resultados dos esforços da restauração, mas uma paz infinitamente maior.
A palavra paz em hebraico não implica somente na ausência de conflitos, mas num sentimento de total prosperidade e bem-estar, o que também se cumpre em Jesus (Jo 14:27).
A palavra paz em hebraico não implica somente na ausência de conflitos, mas num sentimento de total prosperidade e bem-estar, o que também se cumpre em Jesus (Jo 14:27).
Conclusão
É muito perigoso o hábito de isolar um versículo específico da Bíblia e inferir interpretações diversas do que aquilo que o texto realmente quer dizer.
A hermenêutica nos ensina que a Bíblia se explica, ou seja, a própria Bíblia traz o significado de suas passagens, por meio de textos correlatos e explicativos.
A hermenêutica nos ensina que a Bíblia se explica, ou seja, a própria Bíblia traz o significado de suas passagens, por meio de textos correlatos e explicativos.
Queridos irmãos, instituir doutrinas a partir de versículos isolados tem dado origem a muitas heresias, de onde se extrai a máxima:
"texto sem contexto é pretexto para heresia".
Finalmente, toda essa profecia se cumprirá em sua plenitude no momento em que o Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro serão eles próprios o Templo da Nova Jerusalém, a noiva do Cordeiro, no novo céu e nova terra.
Portanto, a interpretação correta da frase "a glória desta última casa será maior que a da primeira" se refere diretamente a Cristo e ao significado de sua obra redentora, e não a qualquer outra aplicação que remeta a bens e prosperidades materiais.
Que nosso Senhor nos abençoe e gere em nossos corações a responsabilidade para com o verdadeiro significado das Escrituras.
- Por Leonardo Sérgio da Silva
- [Fonte: Good Prime, por Hélio Roberto; Estilo Adoração, por Daniel Conegero; Casa do Senhor]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blogue https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização frequentes dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.
- O blogue CONEXÃO GERAL presa pelo respeito à lei de direitos autorais (L9610. Lei nº 9.610, de 19/02/1998), creditando ao final de cada texto postado, todas as fontes citadas e/ou os originais usados como referências, assim como seus respectivos autores.

E nem 1% religioso.
