Crédito: Imagem gerada com recursos da IA
Eu me lembro perfeitamente daquela madrugada de quinta-feira, 12 de outubro de 1995, quando a imagem estática do televisor de tubo da minha sala materializou algo impensável.
O fato aconteceu originalmente durante o extinto programa de televisão "O Despertar da Fé" (frequentemente associado e alternado na grade da Rede Record com o bloco "Palavra de Vida"), por volta de 01h00 da manhã (horário de Brasília).
"Viralizou"
Em uma época sem redes sociais, em que as notícias não se espalhavam pelo imediatismo da internet, o impacto de ver o bispo desferir aqueles golpes contra um dos maiores símbolos católicos no Brasil, foi um choque que se propagou de boca em boca pelas calçadas dos bairros.
O silêncio estarrecido que se seguiu na vizinhança antecipava o tamanho da crise que aquela transmissão ao vivo acabara de inaugurar na história da comunicação brasileira.
É sobre este emblemático episódio, que chegou a virar até tema de publicações acadêmicas, este capítulo especial da nossa série (também especial) de artigos Acontecimentos.
O caso do “chute na santa”
31 anos depois, um episódio que marcou as relações entre católicos e evangélicos
Crédito: Publicação da internet
Às vésperas de mais um 12 de outubro, o Brasil volta a lembrar um dos episódios mais emblemáticos de intolerância religiosa da televisão brasileira.
Em 12 de outubro de 1995, o então bispo Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), atacou uma imagem da Senhora Aparecida durante o programa "O Despertar da Fé", transmitido pela Rede Record, em São Paulo.
O gesto ocorreu justamente na primeira hora do feriado nacional dedicado à considerada pela população católica, como sendo a padroeira do Brasil e tinha como objetivo questionar a veneração dos católicos pelas imagens.
Com a proximidade do aniversário do acontecimento, e em meio a uma nova polêmica, dessa vez, de cunho político, envolvendo a imagem da Senhora Aparecida, o debate sobre os desdobramentos desse estúpido e desnecessário ato retorna ao cenário público.
"Guerra santa?"
Na época, o reflexo nos segmentos cristãos alterou a dinâmica de relacionamento entre as instituições religiosas brasileiras. O ato insano provocou protestos públicos e apelos jurídicos por violação ao sentimento religioso.
Entre os católicos, a reação foi imediata. Missas e atos de desagravo foram realizados em diferentes cidades.
O então arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio de Araújo Sales (☆1920/✞2012), advertiu que, sem controle das emoções, poderia haver risco de uma “guerra santa”.
O então papa João Paulo II (☆1920/✞2005) também pediu aos católicos que não respondessem “ao mal com o mal”.
O então papa João Paulo II (☆1920/✞2005) também pediu aos católicos que não respondessem “ao mal com o mal”.
A reação não ficou restrita ao catolicismo. Entre lideranças evangélicas, o pastor Caio Fábio, então presidente da Associação Evangélica Brasileira, classificou a agressão como um ato “extremamente perigoso” e defendeu o direito de todas as religiões ao culto e à expressão. O bispo metodista Geoval Jacinto da Silva também condenou o episódio.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) agiu rapidamente. O bispo Dom Aloísio Lorscheider manifestou-se contra o ato, classificando-o como uma grave falta de cortesia e exigindo respeito aos símbolos da fé católica.
A liderança da CNBB, inclusive, divulgou nota oficial lamentando o desrespeito à constitucional liberdade religiosa e ressaltou que a atitude isolada do agressor não representava a postura oficial da totalidade dos evangélicos protestantes no Brasil.
Mea culpa
O fundador da denominação, bispo Edir Macedo, foi a público por meio da própria emissora para pedir perdão formal aos católicos. Macedo classificou o comportamento de Von Helder como "insensato" e "desastroso". Anos mais tarde, classificaria o episódio como “nosso maior erro”. Por outro lado, a repercussão negativa forçou um recuo estratégico na cúpula da própria IURD.
Pouco depois do episódio, a instituição afastou o agressor de suas funções diretivas no país e o transferiu para o exterior. Von Helder deixou o Brasil durante o período de maior repercussão do caso. Ele enfrentou sérios problemas com a Justiça e acabou rompendo com a denominação liderada por Edir Macedo.
Ele mantém perfis nas redes sociais, onde realiza pregações religiosas e transmissões ao vivo de forma autônoma, sem estar oficialmente vinculado a nenhuma grande denominação evangélica.
Apesar do tempo e das consequências, ele mantém sua postura teológica crítica em relação à veneração de imagens e à idolatria, continuando a abordar esses temas em seus vídeos na internet.
O episódio também produziu consequências sociais. Templos da Universal foram alvo de protestos, depredações e outros atos de violência. O caso ainda resultou em processo judicial contra Von Helder, que posteriormente, em 1996, foi condenado por discriminação religiosa e vilipêndio a objeto de culto.
No campo religioso, o episódio aprofundou naquele momento a tensão entre setores católicos e neopentecostais. Ao mesmo tempo, a reação de lideranças evangélicas demonstrou que a discordância doutrinária sobre imagens religiosas não significava, necessariamente, apoio à agressão ou à intolerância.
O oportunismo da imprensa
O episódio do "chute na santa" em 1995, transpôs os limites da divergência teológica para se tornar o marco zero da espetacularização da fé na mídia brasileira.
Ao transformar um ato isolado de intolerância em um superespetáculo televisivo, a imprensa da época encontrou o combustível perfeito para alimentar uma engrenagem que visava tanto à audiência fácil quanto à mercantilização do sagrado.
Sob a máscara do jornalismo informativo, canais de TV agiram com um oportunismo cirúrgico, exacerbando a polarização entre o catolicismo tradicional e o neopentecostalismo em ascensão.
Em vez de mediar o debate público com responsabilidade sociológica, a cobertura preferiu capitalizar sobre o choque moral da opinião pública.
Desse modo, o sensacionalismo midiático acabou por consolidar uma perigosa cultura do conflito religioso que reverbera até os dias atuais.
Ao transformar um ato isolado de intolerância em um superespetáculo televisivo, a imprensa da época encontrou o combustível perfeito para alimentar uma engrenagem que visava tanto à audiência fácil quanto à mercantilização do sagrado.
Sob a máscara do jornalismo informativo, canais de TV agiram com um oportunismo cirúrgico, exacerbando a polarização entre o catolicismo tradicional e o neopentecostalismo em ascensão.
Em vez de mediar o debate público com responsabilidade sociológica, a cobertura preferiu capitalizar sobre o choque moral da opinião pública.
Desse modo, o sensacionalismo midiático acabou por consolidar uma perigosa cultura do conflito religioso que reverbera até os dias atuais.
Conclusão
Crédito: reprodução do YouTube
Durante a transmissão, Von Helder deu chutes e golpes na imagem e fez críticas ao culto católico.As cenas foram exibidas posteriormente por outras emissoras e provocaram ampla repercussão nacional.
O Judiciário brasileiro processou e condenou Sérgio Von Helder pelos crimes de discriminação religiosa e vilipêndio a objeto de culto.
O episódio consolidou-se como um divisor de águas jurídico, cultural e jornalístico, evidenciando as barreiras civis e legais contra atos de violência simbólica nos meios de comunicação social do país. Será que aprendemos a lição? A julgar pelo que estamos vendo, infelizmente, parece que não, né?
Passadas três décadas, o “chute na santa” permanece como referência histórica sobre os limites da liberdade religiosa, do discurso religioso e da exposição de conflitos de fé nos meios de comunicação.
Relembrá-lo no período de comemorações e homenagens católicas à Senhora Aparecida também permite distinguir divergência teológica de hostilidade contra a crença do outro.
Relembrá-lo no período de comemorações e homenagens católicas à Senhora Aparecida também permite distinguir divergência teológica de hostilidade contra a crença do outro.
🚨Observação importante: o texto que produzi é original e não reproduz as fontes consultadas.
As publicações foram utilizadas como referencial teórico para fundamentar as análises em seus respectivos prismas.
- Por: Leonardo Sérgio da Silva
- [Fontes consultadas: Folha de S.Paulo — “Evangélicos acham perigosa agressão de bispo”, 14/10/1995, “Fiéis fazem missas de desagravo”, 21/10/1995; SciELO — estudo sobre iconoclastia religiosa no Brasil contemporâneo; Estudos Avançados/USP — expansão pentecostal no Brasil e o caso da Igreja Universal; Religião e Sociedade — estudos sobre a “guerra santa” e Caio Fábio; Persée — André Corten, estudo sobre pentecostalismo e neopentecostalismo no Brasil; Estado de Minas — retrospectiva do episódio, publicada em setembro de 2026]
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E nem 1% religioso.
