Há uma contradição inquietante no Brasil contemporâneo: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão necessário reaprender a capacidade de compreender aquilo que se lê.
Mais que um fenômeno, trata-se de um enorme desafio social
A popularização da internet e, sobretudo, das redes sociais, não criou esse problema — mas ampliou sua visibilidade e, em determinadas circunstâncias, pode aprofundá-lo.
A importância da leitura interpretativa
Ler uma notícia, compreender um contrato, interpretar uma estatística ou perceber a manipulação de um discurso político são formas de exercer cidadania. Quando essa capacidade é limitada, a própria autonomia social fica comprometida.
Vamos para o divã?
Vamos à Pedagogia?
Há, portanto, uma espécie de paradoxo contemporâneo: quanto mais informação circula, maior pode ser a necessidade de formar sujeitos capazes de pensar criticamente.
Conclusão
Precisamos fazer uma importante ponderação. Não é adequado afirmar que a internet ou as redes sociais, comprovadamente, "causaram" ou "potencializaram" o analfabetismo funcional brasileiro.
A expansão das redes sociais não criou o analfabetismo funcional, mas introduziu um novo ambiente de circulação de informações no qual suas consequências podem tornar-se ainda mais visíveis e socialmente problemáticas.
Enfim, o analfabetismo funcional continua sendo um desafio que ultrapassa a simples capacidade de ler e escrever. Ele revela dificuldades em compreender, interpretar e utilizar informações no cotidiano.
- Por Leonardo Sérgio da Silva
- [Fonte e referências] INAF — Indicador de Alfabetismo Funcional. Instituto Paulo Montenegro / Ação Educativa — INAF 2024. É a principal fonte para os dados sobre alfabetismo funcional no Brasil. A edição de 2024 aponta que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos estão em situação de analfabetismo funcional, percentual que permaneceu praticamente estável em relação a 2018. UNICEF Brasil — Analfabetismo funcional no Brasil. Análise dos resultados do INAF 2024. A publicação destaca a relação entre analfabetismo funcional e desigualdades socioeconômicas: 76% dos analfabetos funcionais pertencem a famílias com renda de até dois salários mínimos. Também apresenta dados específicos sobre jovens e trabalhadores. Cetic.br — TIC Domicílios 2024. Observatório Brasileiro das Desigualdades — Relatório 2025. Fundamental para discutir a popularização da internet. A pesquisa mostra que 81% dos usuários de internet no Brasil utilizaram redes sociais em 2024. O estudo também revela diferenças importantes nas habilidades digitais, inclusive na capacidade de verificar se uma informação encontrada na internet. O relatório apresenta ainda dados do INAF relacionados às desigualdades de renda e às diferenças regionais. Um dado particularmente significativo é que a taxa nacional de analfabetismo funcional permaneceu em 29,4% entre 2018 e 2024, evidenciando uma preocupante estagnação.
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