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sábado, 23 de dezembro de 2017

FILMES QUE EU VI - 37: "UM GRITO DE LIBERDADE"

Em tempos atuais, quando a polêmica do episódio de racismo envolvendo o jornalista William Waak, assistir a este filme é uma questão didática para a compreensão de tudo o que envolve esse tema. Retratando a vida do ativista negro Steve Biko, o filme é baseado na experiência real do jornalista Ronald Woods, que o conhece e se interessa pela forma como vivem os negros durante o período de Apartheid na África. Essa vivência resultará em um livro, que também embasou o filme, mas que para ser publicado colocou em risco a vida do jornalista e de sua família.

Contexto de Produção do Filme


Os verdadeiros Biko e Woods
As cenas iniciais nos colocam no meio de um gueto. Poderíamos imaginar se tratar de mais um filme sobre o holocausto, não é?

A palavra gueto é rapidamente associada ao genocídio dos judeus na 2ª Guerra Mundial praticado pelos nazistas. Nos parece que associá-la a outros momentos da história não é adequado, acreditamos que perseguições e violências semelhantes ao que ocorreu na Alemanha entre 1939 e 1945 não devam ter acontecido nas mesmas proporções em outras regiões do planeta.

No entanto, as imagens marcantes de crianças sendo espancadas, mulheres sendo estupradas e gritando em desespero, homens tentando se defender de agressões covardes e gratuitas nos são apresentadas. Tanques invadindo locais deploráveis, sem as mínimas condições de higiene, propícias ao surgimento de doenças, onde vivem pessoas aos milhares, estão ao alcance de nossos olhos. 

Impossível não se sensibilizar com tão evidente falta de humanidade. Estamos presenciando cenas da década de 1970, ocorridas na África do Sul, num sub-distrito de Capetown (a cidade do Cabo). As vítimas de toda essa insanidade são os negros, os agressores são os brancos.

Os registros que deram base para as fortes sequências filmadas pelo premiado e experiente diretor inglês Richard Attemborough (o mesmo que filmou o épico "Ghandi") vieram de dois livros, escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods, que vivenciou os acontecimentos e pode, dessa forma, fazer relatos denunciando toda a violência e a intolerância características do regime de segregação racial sul-africano, o Apartheid.

Além de ter visto, ouvido e sentido na própria pele todo ódio incontido dos brancos em relação aos seus conterrâneos negros, Woods teve a oportunidade de viver proximamente ao ativista Stephen Biko. Inteligência privilegiada, Biko se tornou uma liderança respeitada dentro de sua comunidade desde os tempos em que era estudante, aproveitando-se das poucas chances de estudar concedidas pelos governantes brancos sul-africanos à maioria negra do país.

A estruturação da sociedade do apartheid fazia prevalecer a lógica mesquinha da divisão injusta dos meios e recursos, das oportunidades e bens materiais, legando a comunidade negra, majoritária em termos quantitativos, as piores condições de vida e de trabalho, a humilhação de ter que pedir autorização para se deslocar de um lugar para o outro, a separação de famílias para que pudessem sobreviver (os empregos eram concedidos em locais distantes, homens e mulheres acabavam se encontrando apenas nas folgas e nos finais de semana), os salários irrisórios, as moradias que eram verdadeiros guetos (favelas, aglomerados, cortiços ou como queiram chamar).

O filme foi indicado a três Oscars (melhor ator coadjuvante, melhor canção original e melhor trilha sonora original), mas só recebeu alguns prêmios menores, como Prêmio da Paz - Menção Honrosa do Festival de Berlim e Political Film Society, em 1989 na categoria Direitos Humanos. Também recebeu indicações ao Globo de Ouro, Grammy e Bafta.

Desenvolvimento da narrativa


Denzel Washington e Kevin Kline
Steve Biko, era um ativista negro que vivia em um gueto na Província do Cabo. Na década de 70, era motivo de preocupação das autoridades, já que mesmo banido procurava sempre alguma forma de se encontrar com sua comunidade.

Sendo considerado a única esperança de salvar a África do Sul, pelos seus discursos e idéias defendidas, sempre a favor dos direitos e oportunidades dos negros, que não deveriam se submeter à dominação branca, frente essas comunidades, Biko era alvo da imprensa, que considerava sua atitude responsável pelo aumento do ódio racial no país, o que distanciaria a comunidade negra dos brancos.

O editor Donald Woods era um dos que adotavam esse ponto de vista em suas publicações, até ser instigado a conhecer pessoalmente o ativista, e se surpreender com o contraste de sua vida e a dos negros, que viviam em assentamentos, sem oportunidades de estudo e trabalho, e sofrendo a discriminação do mundo branco, essa experiência resulta em uma verdadeira amizade entre Biko e Woods, que passa a mudar suas publicações.

Quando uma das tentativas do ativista, de sair do espaço permitido por seu banimento, falha, ele é encontrado e preso pela polícia, que o submete a torturas durante um mês, até que isso o leva a morte, porém o que se revela como causa, é apenas uma greve de fome.

A partir de então o foco do filme volta-se para o jornalista, que pretende publicar um livro sobre o período que vivenciou, ressaltando a imagem de Biko, e divulgando a verdade sobre os acontecimentos, distorcida pela imprensa. Mas tamanha dedicação à causa negra coloca em risco a vida de sua família, que começa a ser ameaçada pelas autoridades, e o leva a decidir sair do país. Mas como também foi banido pelo governo, sair de sua casa tornou-se um problema, que com a ajuda dos seguidores de Biko torna-se, apesar de arriscado, mais fácil de resolver.

É evidente o contexto histórico do filme, já que o protagonista é um ativista negro, que luta contra a lei Constitucional que oficializou a segregação racial entre brancos e negros, que ficou conhecida como apartheid. Um período em que a minoria branca existente na África do Sul impõe seu poder aos inúmeros grupos sociais compostos pela população negra nativa.

Durante a convivência dos amigos, a forma de destruição da cultura negra, para que a superioridade de uma classe social composta por brancos seja imposta e se mantenha um regime com base na discriminação racial, também é mostrada. Assim como as dificuldades para um negro vencer na vida acadêmica diante das cotas impostas, que resultam em um quadro em que poucos tenham oportunidades de emprego.

Formas de tratamento como fêmea Banthu, inúmeras abordagens e revistas feitas pelos policiais aos negros, restrições impostas, como o banimento do direito de ir e vir, eram as formas encontradas pelos brancos para impor sua soberania, e tentar de alguma forma controlar os possíveis movimentos reacionários.

Diante da exposição desses acontecimentos da época, percebemos que o diretor, não opta pelo panorama das autoridades, e sim defende as causas negras, as apresentando como principais.

A violência aplicava-se sob a égide de um estado de caráter fascista, a base de pancadaria e de submissão a condições totalmente desumanas. Woods (interpretado no filme pelo versátil Kevin Kline) é um jornalista liberal, que faz críticas a ação desmesurada do governo, mas que, vive em subúrbio luxuoso, afastado de toda a conturbação característica dos bairros pobres onde residem os negros. Parece atento ao que acontece ao seu redor, mas não consegue perceber todas as mazelas e diferenças que matam milhares, que mutilam outros tantos, que ferem os corpos assim como as almas. E o pior, tudo acontecendo por conta da diferença da cor da pele.

Biko (protagonizado pelo excelente Denzel Washington, premiado com o Oscar duas vezes, por seu desempenho em "Tempo de Glória" e "Dia de Treinamento"), é um dos alvos mais frequentes dos editoriais escritos por Woods. Do alto de toda a sua sabedoria de membro da classe dominante, o jornalista acredita que a ação de líderes negros como Biko aumenta o ódio racial, faz crescer o número de situações de enfrentamento, distancia a comunidade negra dos brancos e estimula a segregação ao invés de combatê-la.

Quando Woods e Biko se conhecem, quebram as barreiras do silêncio impostas pelo estado racista a Biko e estabelecem conexões entre si que reforçam a idéia de que o diálogo, a compreensão e as concessões são o melhor caminho para solucionar o problema sul-africano. A admiração mútua logo se torna mais marcante e o carisma do líder Biko atinge em cheio o jornalista liberal que passa a utilizar seu espaço no jornal para pregar em favor do fim do apartheid. A perseguição aos negros atinge então seu confortável lar de classe dominante num luxuoso distrito reservado a elite branca.

O que lhe parecia distante, próprio dos subúrbios poeirentos em que residiam os negros, também podia chegar a sua casa, atingir a sua família, obrigá-lo a se calar. Os amargos "remédios" dados pelos racistas sul-africanos a Biko e a Mandela (preso desde a década de 1960 tendo sido solto apenas no final dos anos 1980) atingiam Woods. O doce sonho de que toda a situação vivida pelo país poderia ser superada às custas de planos de governo e boa vontade da população iam por água abaixo. Que alternativa resta senão a luta, que possibilidade se apresenta que não seja o enfrentamento. Biko acreditava ser possível alterar os rumos do país seguindo as máximas de Ghandi e Martin Luther King, sem violência.


Conclusão

Comentário pessoal


As inúmeras cenas de ação, presentes principalmente na segunda parte do filme, já que este pode ser dividido em drama antes e ação depois da morte de Biko, torna a história interessante, e nada cansativa, já que desperta curiosidade e cria expectativa para o final da saga do jornalista. Porém o filme peca ao mostrar a rápida incorporação e aceitação do jornalista pela comunidade negra diante do contexto, em que era esperado o mínimo de recusa e desconfiança por parte dos negros.

Qual foi o custo de toda essa verdadeira guerra civil que se instalou entre os sul-africanos? Quantos homens e mulheres morreram vitimados pela discriminação? As feridas desse verdadeiro genocídio podem se cicatrizar? Será que um dia superaremos todas as formas de preconceito e aceitaremos os outros como são? Assistir a "Um Grito de Liberdade" nos faz refletir sobre essas questões. Alimenta um debate que a humanidade ainda não conseguiu resolver. Permite que falemos sobre problemas que ainda existem. Apesar do fim do regime do Apartheid, será que a situação de vida dos negros na África do Sul melhorou? Como serão as relações entre negros e brancos nesse país (e também aqui no Brasil) hoje em dia?

Ficha Técnica


  • Um Grito de Liberdade (Cry Freedom)
  • País/Ano de produção: Inglaterra, 1987
  • Duração/Gênero:- 157 min., drama
  • Direção de Richard Attemborough
  • Roteiro de John Briley
  • Elenco: Denzel Washington, Kevin Kline, Penélope Wilton.
A Deus toda glória. 
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E nem 1% religioso.

Um comentário:

  1. Mais de vinte anos depois, parece que o fato foi apagado. Mal falaram disso na morte de Mandela. Estou procurando o filme online e não acho.

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