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terça-feira, 2 de junho de 2026

"NOVELAS DAS FRUTAS" — EPISÓDIO DE HOJE: 'A POLÊMICA'

Reprodução da internet
Você certamente passou por conteúdos deste tipo navegando nas redes sociais nos últimos meses: novelinhas geradas por inteligência artificial protagonizadas por frutas ou vegetais em corpos humanos, envolvidas em histórias sobre romances e a vida cotidiana.

Tudo, obviamente, muito atrativo, afinal, para aguçar o interesse do público alvo, o infanto-juvenil, quanto mais atrativo, melhor. A ordem é viralizar e para isso, os idealizadores e produtores deste tipo de conteúdo, não medem nenhum esforço.

O que é este fenômeno digital?

Entenda a polêmica


Reprodução da internet
Com frutas antropomorfizadas (com características humanas) e enredos polêmicos, as tais “Novelas das Frutas”, criadas por Inteligência Artificial (IA) generativa que utilizam uma estética lúdica para narrar enredos pesados e impróprios para menores, tornaram-se um fenômeno nas redes sociais, especialmente no TikTok e no YouTube Shorts, com conteúdo, em inglês, português e até espanhol.

O sucesso, no entanto, acendeu um alerta que ainda está reverberando entre especialistas, pais e educadores que questionam os possíveis impactos psicológicos desse tipo de conteúdo em crianças e jovens.

O que começa como um vídeo inofensivo de um morango ou um limão falante pode terminar em uma cena de violência doméstica ou abandono parental.

Preocupar por quê?

Reprodução da internet
Apesar do caráter aparentemente inofensivo, o consumo frequentemente desse tipo de conteúdo, principalmente para crianças e adolescentes, levanta preocupações.

O fenômeno ganha força nas redes sociais ao mesmo tempo em que o Brasil implementa o chamado ECA Digital, um conjunto de diretrizes e atualizações no Estatuto da Criança e do Adolescente para garantir a segurança de menores no ambiente virtual.
Reprodução Fundação Abrinq
O ECA Digital surge como uma legislação pioneira nas Américas para responsabilizar as empresas de tecnologia. 
Não é sobre proteger as crianças da internet, mas na internet. 
A lei exige que as plataformas facilitem a configuração de segurança para os pais e criem mecanismos eficazes de verificação de idade.
O problema das "Novelal das Frutas", é que, sob a máscara de entretenimento inofensivo, reforçam estereótipos de gênero e discursos misóginos, segundo especialistas.

Estética infantil, narrativa violenta

Reprodução Mit Technology Review Brasil

A força dessas "novelinhas" está em uma dissociação central. 
Quando esse tipo de enredo é embalado em códigos visuais associados à infância, o reconhecimento do risco fica menos imediato. 
Com repetição suficiente, o inadequado passa a circular como entretenimento banal.
A distribuição algorítmica amplia esse efeito.

Organizações como o UNICEF vêm alertando que sistemas de recomendação moldam de forma decisiva as experiências digitais de crianças e adolescentes, sugerindo vídeos, conteúdos e interações antes de qualquer avaliação crítica do usuário.

Em ambientes guiados por retenção, recorrência e engajamento, conteúdos mais intensos, emocionais e repetitivos tendem a ganhar vantagem competitiva, como aponta o documento Guidance on AI and Children, de dezembro de 2025.

Há ainda um aspecto revelador do caráter momentâneo desse fenômeno: a trend já foi apropriada por perfis institucionais, de times de futebol, como o Flamengo, a representantes da administração pública, como a Prefeitura de Salvador.

Isso indica que o formato extrapolou os perfis anônimos, deixando em segundo plano o aspecto problemático do conteúdo, e passou a funcionar também como linguagem de ocasião nas redes.

Origem


Reprodução da internet
As novelas das frutas não surgiram no Brasil. A moda veio de fora, mas é difícil traçar sua origem.

Antes mesmo das novelas, vimos a tendência das frutas e legumes falantes e irritadiços, que davam dicas de armazenamento e consumo.

Segundo reportagem do Wall Street Journal, a tendência das novelas começou a crescer com Fruit Love Island, versão com as frutas antropomórficas do reality americano Love Island.

O formato foi popularizado em perfis do TikTok como @ai.cinema021 e alcançou cerca de 10 milhões de visualizações cada na primeira semana depois do lançamento, no início de março deste ano. O perfil já passa dos 2,7 milhões de seguidores no TikTok.

No reality original em questão, diversos jovens solteiros vão para uma ilha luxuosa e precisam competir por amor e dinheiro. O objetivo é formar casais e enfrentar os desafios em busca do prêmio final.

Na versão gerada por IA, acontece praticamente a mesma coisa. A diferença é que os competidores são frutas como banana, morango, uva e abacaxi, que se beijam, flertam, choram e traem.

Embora já tenham se espalhado para além deste perfil inicial, a identidade de quem está por trás das novelas de IA — e, portanto, de quem está lucrando com isso — ainda é um mistério.

Formato brasileiro


Reprodução da internet
Se nos Estados Unidos o formato ganhou força na estilização de um reality, a versão nacional assume suas próprias particularidades, incluindo gírias locais e dilemas comuns em novelas tradicionais.

A embalagem colorida ajudou a popularizar os vídeos curtos, embora seus conteúdos nem sempre sejam tão corriqueiros assim.

Como já dito, as frutas reproduzem lógicas misóginas e estereótipos de superioridade masculina, enquanto as frutas femininas são normalmente interesseiras e infiéis.

O termo "Brain Rot" (apodrecimento cerebral, em tradução livre) tem sido usado para descrever conteúdos ultrarrápidos e bizarros que buscam capturar a atenção a qualquer custo.
Reprodução Colégio Rio Branco
Doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutorado ¹sanduíche com bolsa PDSE da CAPES na Universidade de Paris V e na EHESS (2014), mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pelo CIAGS - UFBA e graduado em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista - UNESP.
O especialista em Educação Digital pelo Instituto Alana, Rodrigo Nejm lista três grandes prejuízos desse consumo:
  • Uso compulsivo: O design é feito para manter a criança "vidrada", prejudicando a fala e a interação social.
  • Adutização precoce: A exposição a dilemas adultos (como divórcios conflituosos e erotismo implícito) acelera o fim da infância.
  • Hiperestimulação: A velocidade dos vídeos dificulta que a criança consiga, futuramente, se concentrar em atividades mais lentas, como ler um livro ou assistir a um filme longo.

Conclusão

A "Dieta Digital"



Reprodução CNN
A orientação dos especialistas não é a punição, mas o diálogo e a construção de uma "dieta digital".

Assim como os pais cuidam da alimentação, escolhendo o que é saudável para cada fase, o acesso à rede deve ser dosado.
"Os pais precisam entender, tem produtos na internet que fazem mal. 
Só que diferente de uma cólica, de uma dor de barriga, de uma diarreia ou de uma cárie no dente, os produtos digitais, como esses videozinhos que parecem fofos, mas são maliciosos, eles podem prejudicar o desenvolvimento cognitivo dessa criança. 
Eles podem prejudicar a saúde mental da criança. Eles podem prejudicar a forma como essa criança vê o próprio corpo, a autoimagem dela. 
Então, como os danos são muito mais abstratos, às vezes invisíveis, do que os danos de uma comida processada, a gente tem que pelo menos entender também na internet",
explica Rodrigo.

Assim, o Ministério dos Direitos Humanos acionou formalmente órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), devido a potenciais violações das diretrizes de proteção à infância no ambiente digital.

A repercussão do caso foi tão expressiva que motivou notas técnicas do governo federal, servindo como um dos estopins para o endurecimento e revisão das regras de classificação indicativa de conteúdos em plataformas como o YouTube no Brasil.

Devido à onda de denúncias e à violação de diretrizes sobre segurança infantil, diversas contas de criadores tiveram episódios inteiros derrubados ou censurados pelas redes sociais.

  • Nota: Não é censura, é prevenção!

Embora fonte de preocupações, a inteligência artificial não deve ser encarada apenas como algo maléfico para a formação da personalidade de jovens.

Se usadas com consciência para promover discursos de inclusão e conscientização, podem ser úteis para incentivar o pensamento crítico.
"Os adultos podem usar as IAs de uma maneira que promova a tolerância, a inclusão e a democracia, ao mesmo tempo em que mitigam os usos desfavoráveis e desalinhados. 
Dessa forma, com essa promoção e a experiência de confiabilidade, os jovens poderão utilizar todo o potencial da IA para promover a ciência, o crescimento coletivo e o alinhamento moral, buscando um uso mais criativo e ético possível",
ressaltou o Dr. Cândido Fontan Barros, médico psiquiatra e e doutor pelo Instituto de Psicologia da USP, em entrevista à CNN Brasil/Saúde.

Fica aí a reflexão. Que ela sirva para que deixemos sempre ativado o botão do discernimento, para usá-lo em conjunto com o do bom senso.
  • ¹O doutorado sanduíche é um programa em que o estudante cursa parte do seu doutorado no Brasil e outra parte em uma instituição no exterior (ou em outra cidade brasileira). O termo "sanduíche" faz alusão ao formato: a pesquisa é iniciada no Brasil (primeira fatia do pão), seguida pelo período fora (o recheio) e finalizada no Brasil (a última fatia). 
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
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E nem 1% religioso.