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quinta-feira, 25 de junho de 2026

🗣️PAPO DE PSICANALISTA🧠 — A CULTURA DO EXCESSO

Créditos: Reprodução da internet
A cultura do excesso é um fenômeno social, comportamental e corporativo contemporâneo caracterizado pela busca incessante por acumular, produzir e consumir além do necessário, normalizando a sobrecarga como sinônimo de sucesso.

Fortemente impulsionada pelo capitalismo digital e pela hiperconectividade, essa mentalidade dita que "mais é sempre melhor", seja em horas trabalhadas, bens adquiridos ou informações absorvidas.

É este o tema deste capítulo da nossa série especial de artigos Papo de Psicanalista.

O 'ter' em detrimento do 'ser'


A sociedade contemporânea caracteriza-se por um consumo exacerbado e um entretenimento desenfreado, elementos centrais no capitalismo atual.

A expansão da indústria do entretenimento promove a criação e circulação de conteúdos que incentivam o consumo desenfreado, afetando comportamentos, valores e identidades individuais e coletivas.

O entretenimento, que deveria funcionar como forma de lazer e cultura, se transforma em uma mercadoria voltada à venda constante de produtos e experiências.

Dessa forma, as grandes corporações do setor mantêm uma relação simbiótica com o consumo, alimentando um ciclo de desejos e necessidades fabricados.

As plataformas digitais, redes sociais e serviços de streaming reforçam essa dinâmica, oferecendo ao público acesso contínuo a um vasto conteúdo, condicionando-o a um consumo quase que ininterrupto.

Esse fenômeno causa impactos sociais significativos, como a alienação, a perda da autonomia crítica e o enfraquecimento de laços comunitários e culturais.

A busca constante por novidades gera uma insatisfação crônica, alimentada pela rapidez com que produtos e tendências são substituídos.

Em um contexto onde o excesso é incentivado e a superficialidade é normatizada, o papel do entretenimento na sociedade capitalista suscita reflexões sobre o rumo da cultura, do consumo e do comportamento social em meio a essa lógica que prioriza o lucro em detrimento de valores mais duradouros.

Sim, o tempo está passando...


43 anos. Esse é o tempo que nós, brasileiros, passamos ocupados com atividades essenciais e responsabilidades compulsórias.

Nós dedicamos 74% da nossa vida adulta ao cumprimento de demandas, sendo:
  • cerca de 30% destinado ao sono,

  • 23% ao trabalho remunerado,

  • 15% aos cuidados com a casa e a família e

  • 7% aos deslocamentos, como no trânsito ou em transportes públicos.
Os dados são de um levantamento realizado pelo Instituto Ipsos, a pedido do Nubank, e mostra que o trabalho ocupa uma parte enorme na equação da vida adulta.

O problema é quando esse espaço, em vez de nos impulsionar, é dominado por uma lógica de excesso que ainda é confundida com alta performance.

Nos últimos anos, temos visto crescer, principalmente —porém, não especificamente — dentro dos ambientes corporativos, um discurso sobre "alta performance" que, à primeira vista, parece motivador, mas se olharmos com atenção, é possível perceber que em muitos lugares esse termo se tornou sinônimo de algo perigoso: a normalização do excesso.

Jornadas intermináveis, metas inalcançáveis, a ideia de que só é reconhecido quem se sacrifica além do limite. Essa lógica, que ainda é romantizada como virtude, está silenciosamente adoecendo pessoas e fragilizando organizações.

Como identificar se estamos na cultura do excesso?


Para identificar a chamada cultura do excesso, devemos observar se a ocupação permanente é confundida com relevância e se o esforço extremo deixou de ser pontual para se tornar a regra.

Essa dinâmica substitui a qualidade pela quantidade, transformando o senso de urgência em algo permanente. 

A cultura do excesso, portanto, é fácil de identificar, mas nem tão simples de abandonar quando se torna algo "normal", fazendo o esforço extremo passar de algo pontual para ser regra e tornando permanente o senso de urgência.

Essa lógica faz com que os trabalhadores adiem sempre a vida pessoal e, ainda assim, no trabalho, a sensação é a de nunca ser suficiente.

Perceba, aqui não estamos falando sobre uma cultura de comprometimento, mas de exaustão mascarada de produtividade.

Os impactos invisíveis do excesso


Penso que durante algum tempo, esse modelo pode até gerar entregas rápidas, mas sempre com um custo alto demais.

A médio e longo prazo, o preço é o adoecimento físico e emocional das pessoas, o aumento do burnout, a desmotivação e a perda de talentos valiosos.

E, quando isso acontece, a empresa também perde: cai a produtividade, aumenta a rotatividade e o clima organizacional se desgasta.

Recentemente, acompanhamos no Brasil um episódio emblemático: uma grande companhia promoveu demissões em massa, justificando "baixa produtividade" com base em dados como número de cliques no computador, tempo de tela ativa e janelas abertas.

De acordo com o que vem sendo noticiado, não foram consideradas metas batidas, os tais dos feedbacks de gestores ou qualidade de entregas, mas sim uma régua algorítmica que decidiu quem fica e quem sai.

Esse tipo de prática escancara o risco de confundir controle com performance e tecnologia com gestão humana.

Quando reduzimos pessoas a métricas de atividade, deixamos de enxergar o que considero essencial: o valor humano que sustenta qualquer organização.

O excesso não fortalece, enfraquece, pois mina a energia, a criatividade e o engajamento, justamente os elementos que deveriam sustentar uma verdadeira alta performance.

Pois bem, vamos ao divã!


Isto posto, vamos ver essa questão da cultura do excesso sob o prisma psicanalítico.

Na perspectiva lacaniana, o ser humano é constituído por uma falta estrutural. 

Nascemos na linguagem, e esse corte nos afasta de uma mítica plenitude total. É essa falta que nos move, que faz circular o desejo.

O problema surge quando o vazio assusta. Diante do abismo da falta, o sujeito tenta tamponá-la com o excesso: comida, trabalho, consumo, telas, substâncias...

Uma tentativa voraz de responder à angústia. O excesso é, na verdade, uma denúncia.

Onde há um comportamento hiperbólico, há um eco de um vazio que se recusa a ser nomeado.

O adulto que consome em excesso muitas vezes carrega o desamparo de um sujeito infantilizado, buscando no Outro um objeto que dê conta de uma satisfação plena que, estruturalmente, não existe.

Sustentar a falta (em vez de tentar anestesiá-la com o excesso) é o passo fundamental para que o desejo possa, finalmente, fluir.

Gritamos no excesso aquilo que nos falta na palavra. O excesso é sintoma. É a tentativa de tamponar o vazio constitutivo com objetos do mundo capitalista ou com comportamentos compulsivos.

Para [Jacques] Lacan (✰1901/✞1981) — psicanalista e psiquiatra francês, considerado um dos maiores pensadores da psicanálise após [Sigmund] Freud (✰1856/✞1939) —, portanto o desejo é sempre desejo de outra coisa.

Quando tentamos fixá-lo em um objeto único (na bebida, no acúmulo, no controle), caímos na armadilha do excesso.

O excesso tenta esconder que, no fundo, não sabemos o que fazer com o nosso próprio vazio.

O processo de uma análise não é sobre "reprimir" o excesso, mas sim sobre investigar a falta que ele tenta, desesperadamente, traduzir.

O excesso é a fantasia que o sujeito cria para não ter que se deparar com a própria nudez da falta.

Conclusão


Maria Homem: Vivemos na Era dos Excessos
Corremos, consumimos, acumulamos e nos intoxicamos na tentativa ilusória de nos sentirmos completos.

Mas a verdade clínica é implacável: o objeto que preencheria perfeitamente a nossa falta não existe. Ele é, por definição, perdido.

Por trás de toda postura de autossuficiência ou de busca frenética por satisfação, reside o desamparo original de quem ainda espera ser totalmente preenchido pelo Outro.

Dar lugar à falta, aceitar o vazio como o motor do nosso desejo (e não como um erro a ser corrigido), é o que nos liberta do peso dos excessos.

Que possamos falar da falta, para não precisar atuar no excesso.
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blogue https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização frequentes dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.
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E nem 1% religioso.

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