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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

DIRETO AO PONTO — A IGREJA CRISTÃ E O DESAFIO DO TRANSGENERISMO

Associar universo trans e Cristianismo é a receita de uma bomba prestes a detonar.

Mas, o fato é que quase não há dias em que questões sobre transexuais não surgem no noticiário.
  • Pode ser uma história de interesse humano sobre alguém fazendo a transição de um sexo para outro, e como foram recebidos (ou não) por suas comunidades.
  • Pode dizer respeito à política de direitos para homens e mulheres transexuais, quais banheiros devem estar disponíveis para eles.
  • Pode ter a ver com complexas discussões sobre as causas e tratamentos disponíveis para transgêneros.
Mas uma coisa é certa: 
esta questão não desaparecerá tão cedo, e nós cristãos não podemos nos dar ao luxo de evitá-la. Muito de nós, no entanto, vão querer evitá-la. 
Sabemos que estamos pisando em terreno extremamente sensível.

Por isso este foi o tema que escolhemos pesquisar, para escrever mais este capítulo da nossa série especial de artigos Direto ao Ponto.

Posicionamento Psicanalítico


Transexualidade é uma incongruência inerente da autopercepção sexual em relação ao sexo atribuído no nascimento.

Ela pode acompanhar a necessidade urgente de equiparar o modo de vida e o corpo com o do sexo que determina interiormente.

A transexualidade foi considerada durante muito tempo um grave distúrbio psíquico.

Essa avaliação errônea levou a uma discriminação massiva e à violência contra pessoas transexuais.

No entanto, sob a influência das pesquisas neurocientíficas e das ciências da vida, ocorreu uma mudança de paradigma nas últimas duas décadas.
De acordo em unanimidade da comunidade científica, transexualidade não é uma doença psíquica, mas uma variante individual da sexualidade humana.
O processo de conscientização dessa discrepância corpo-gênero pode estar associado a considerável sofrimento psicológico para as pessoas em causa. 

Muitas vezes há sérios impactos, incluindo, entre outros, acolhimento e família. 

Também inclui o fato de as pessoas transexuais serem dependentes de médicas e médicos, psicólogas e psicólogos, para a realização de suas vontades particulares.

Transexuais raramente têm o respeito necessário frente à autodeterminação sexual e sua consideração fundada na dignidade que todo ser humano merece.

Posicionamento Teológico


A visão alterada de gênero representa, sem dúvida, um enorme desafio para a teologia e a Igreja, pois a suposição da natureza do ser humano em dois sexos e o dualismo "homem" e "mulher" a ela associado formam aparentemente uma determinação dada por Deus e, portanto, determinante da vida na imagem humana cristã tradicional.

A teologia e a Igreja, ao querer orientar para o debate com tarefas e discussões atuais, não se fecham para teorias mais recentes de conhecimentos não teológicos e para as realidades sociais, mas as incluem em questões ético-teológicas.

E essas questões nos são pertinentes justamente pela preocupação do próprio Jesus em trazer como pauta de Seu Evangelho, a inclusão indiscriminada dos que, por diferentes motivos, foram excluídos (Mateus 25:31-46).

A Bíblia é uma biblioteca de textos de muitos séculos e das mais variadas situações sociais, que oferecem diferentes perspectivas e pontos de vista.

A Bíblia também é lida em diferentes situações — fornece, portanto, respostas distintas.

No entanto, a Bíblia tem um centro:
o encontro de Deus com os seres humanos e sua parcialidade libertadora para com os/as marginalizados/as sociais, econômicos ou culturais. 
A lei e a justiça são a marca essencial de Deus no Antigo e no Novo Testamento —, portanto, sua defesa amorosa dos (ainda) impotentes. 
É importante descobrir o grande potencial de esperança e libertação da Bíblia para todas as pessoas.

O ser humano como ser físico


Os textos bíblicos atêm-se positivamente à corporalidade do ser humano.

O ser humano é criado "do pó da terra" (Gênesis 2:7) e nunca se torna um ser puramente espiritual em algum momento histórico.

Os seres humanos são vulneráveis e transitórios; todas as suas experiências, sensações, relacionamentos, seus pensamentos e, principalmente, seu amor e compaixão, são moldados por seu corpo (Hebreus 13:3).

O corpo faz parte da identidade e é muito mais do que apenas uma ferramenta do espírito ou da alma.

Faz parte do ser humano construir um bom relacionamento com seu próprio corpo e com o meio ambiente — obviamente, sempre em linha com o Autor da criação.

Nova criação em Cristo


Segundo Paulo, em Cristo já estão superadas as fronteiras e hierarquias entre os seres humanos.

Em um texto até hoje visionário, ele descreve a nova criação: 
"Pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, revestiram-se de Cristo. Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre masculino e feminino: pois todos vocês são um só no Messias Jesus" (Gálatas 3:27s., cit. segundo a Bíblia em língua adequada).
Paulo vê o reino de Deus surgir na comunidade cristã, em que as fronteiras anteriores são superadas: nacionais, culturais e sociais — e até mesmo de gênero.

Mesmo que ele próprio não cumpra rigorosamente essa afirmação, estabelece o terreno mental para romper imagens rígidas de mulheres e homens, e libertar pessoas de restrições de papéis, gênero, casamento e padrões paternos.

O quão abertamente Paulo pensa fica claro aqui quando remete, metaforicamente, a si próprio, apenas alguns versículos adiante, a imagem do corpo de uma mulher, escrevendo: 
"Meus filhos, por quem de novo sinto as dores de parto" (4:19).

Posicionamento social


Sabemos que estamos lidando com áreas de profunda dor pessoal para muitos homens e mulheres, e queremos ser cuidadosos em dizer coisas que possam contribuir para essa dor.

Podemos não saber o que pensar sobre alguns dos debates políticos intensos à nossa volta.

Podemos nos sentir como se simplesmente não sabemos o suficiente sobre o transgenerismo para dizer algo com confiança.

Tente procurar "transgênero" em uma concordância; dificilmente irá chegar longe.

Mas o evangelho é sempre boas novas, e o é para todos.

Parece-me que existem duas visões em particular que o evangelho pode oferecer, que podem formar o ponto inicial da nossa resposta.
  • 1. Compreensão Singular
Disforia de gênero, o sentimento de profundo desconforto com o sexo do próprio corpo, é muitas vezes extremamente doloroso.

Para alguns é crônico, originando mesmo na infância. Para muitos, o peso emocional pode ser insuportável.

Não se pode negar esta dor. E os cristãos talvez possam explicar isto de maneira única.

O mesmo já anteriormente referenciado, Paulo, nos dá uma visão chave do mundo em que vivemos:
"Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus" (Romanos 8:20,21).
A criação não está bem. O mundo físico foi "sujeito à vaidade," à frustração. Não funciona corretamente. Está descontrolado.

Foi submetido a esta frustração por Deus. A narrativa mais ampla da Bíblia explica isso.

Deus amaldiçoou a terra como julgamento pelo pecado humano (Gn 3:17).

Em outras palavras, o mundo não funciona corretamente tanto como uma consequência e como uma demonstração do fato de que nós não funcionamos bem.

O mundo não funciona bem tanto como uma consequência e como uma demonstração do fato de que nós não funcionamos bem.

O que é verdade sobre a criação em geral, é também verdade sobre nossos corpos.

Eles fazem parte da ordem física que foi sujeitada a esta frustração. Observamos esta frustração de muitas maneiras.

Alguns enfrentam problemas de saúde persistentes; outros lutam com toda uma série de confrontos sobre sua imagem corporal; outros mais, sentem disforia corporal, sentindo-se como se estivessem presos no tipo de corpo errado.

O fato é que praticamente ninguém tem uma relação inteiramente clara com o seu próprio corpo. É como as coisas são neste mundo.

E embora seja verdade que qualquer um pode observar este problema, os cristãos podem singularmente explicá-lo

A Bíblia nos mostra que o pecado causa alienação profunda, em primeiro lugar de Deus, e as outras alienações que advêm disto.

Estamos alienados uns dos outros. E estamos alienados de nós mesmos.

O que era para ser inteiro e integrado, nossas mentes, corpos e espíritos, estão agora profundamente fragmentados. Não nos sentimos alinhados conosco mesmos.

Nossas igrejas devem ser lugares onde as pessoas possam se sentir mais seguras para articularem seu próprio senso de não estarem funcionando direito.

Ter conhecimento destas coisas deve nos tornar compassivos — não coniventes.

Embora grande parte dos pensamentos em torno das questões transexuais de hoje seja falho, a dor experimentada por aqueles com disforia de gênero é muito real.

Nós, mais do que quaisquer outros, deveríamos entender o porquê, pois mais do que todas os outros, compreendemos a profundidade do que está errado com este mundo.

Nossas igrejas devem ser lugares onde as pessoas possam se sentir mais seguras para articularem seu próprio senso de não estarem funcionando direito.
  • 2. Esperança Singular
Mas a Bíblia nunca termina com o diagnóstico.

Tal como podemos oferecer uma compreensão singular e excepcionalmente profunda, podemos também apontar as pessoas para uma esperança sólida e singular.

Todos experimentamos a maldição da queda de forma corporal.

Mas a resposta para os problemas do nosso corpo, juntamente com a resposta a qualquer um dos nossos problemas, nunca será encontrada em nós mesmos.

Qualquer que seja o que façamos aos nossos corpos para superar os problemas percebidos, nunca seremos capazes de corrigir o que realmente se encontra por detrás da nossa auto-alienação.

Podemos alterar nossa aparência; podemos corrigir muito daquilo que consideramos estar errado.

Mas nunca encontraremos a verdadeira liberdade que tão profundamente desejamos.

Nada do que possamos fazer aos nossos corpos nos ajudará a nos sentirmos que somos o nosso verdadeiro eu, pelo menos não de forma duradoura.

A resposta para os problemas do nosso corpo nunca será encontrada em nós mesmos.

Não, a única resposta para a nossa experiência de ruína em nossos corpos, é encontrada na ruína máxima do corpo de Cristo.

Ele experimentou a aflição máxima. Seu, era o corpo mais odiado por outros.

E a disforia máxima jamais experimentada foi quando Ele 
"que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós" (2 Coríntios 5:21). 
Isto sim era estar no corpo errado. No entanto, ele passou por tudo isso por nós. 

Ele experimentou a ruína máxima para que nós não tivéssemos que experimentá-la.

O problema com os nossos corpos acaba por ser uma questão com qualquer de nossas partes. 

Elas manifestam a ruína de uma forma que aponta para o ruína dentro de cada um de nós. 

Nos afastamos de Deus, de modo que nada é como deveria ser. 

O ponto de partida para a fé cristã é reconhecer isto. 
"Bem-aventurados os pobres de espírito",
Jesus nos disse (Mt 5:3), e não 
"Bem-aventurados os que se consideram perfeitos."
Se tivermos olhos para ver, qualquer tipo de ruína corporal, poderá nos apontar para o corpo partido de Cristo e através desta ruína, à eventual restauração e cura que vem através dEle.
Receber a Cristo não garante resolução nesta vida para a ruína corporal que experimentamos
Mas nos dá uma esperança segura e confiante de que vamos ter um relacionamento perfeito com nossos corpos no mundo por vir.

Conclusão

"Ainda não se manifestou o que havemos de ser…" (1 João 3:2)
A Bíblia no mostra que ainda há algo para o futuro da humanidade.

Os nossos antepassados espirituais experimentaram — e nós experimentamos — o mundo existente como desastre.

Dominação, opressão e exploração caracterizam o tratamento dado à terra e a convivência entre as pessoas.

Isso também afeta aqueles que não estão em conformidade com as normas (de gênero); contrasta com a esperança de um mundo no qual as pessoas se desenvolvem e se expressam livremente, fortalecendo-se e se respeitando mutuamente.

Respeito


Aqueles e aquelas que não se enquadram nas normas (de gênero) não são doentes, estranhas ou bizarras, mas incentivos — ou seriam desafios? — às mudanças necessárias na Igreja e na sociedade.

Interesse mútuo, respeito e acolhimento são as pedras basilares no caminho rumo a um mundo melhor.
E, se tiver algo mais a fazer, que esteja além da nossa competência, por certo o Espírito Santo fará, pois é dEle, exclusivamente dEle a função de levar-nos ao convencimento acerca do pecado, do juízo e da justiça (João 16:7-11).
  • Por Leonardo S. Silva
  • [Fonte: Coalizão Pelo Evangelho, por Sam Allberry — pastor, apologeta e palestrante. Ele é autor de uma série de livros, incluindo, Is God Anti-Gay? ("Deus é Contra os Gays?", sem edição em português), James For You ("Tiago Para Você", sem edição em português), e Why Bother with Church? ("Por que Se Preocupar Com a Igreja?", sem edição em português. Novos Diálogos. Parte deste texto foi extraído do manual "Criado à imagem de Deus — Transexualidade na Igreja", realizado pelo Grupo Justiça de Gênero da Igreja Evangélica em Hessen e Nassau, Alemanha. A Associação Kreuzweise-Miteinander e a Igreja Evangélica na Alemanha (Evangelische Kirche in Deutschland — EKD) foram responsáveis por promover generosamente a tradução do manual para o português.]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blogue https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização frequentes dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.
  • O blogue CONEXÃO GERAL presa pelo respeito à lei de direitos autorais (L9610. Lei nº 9.610, de 19/02/1998), creditando ao final de cada texto postado, todas as fontes citadas e/ou os originais usados como referências, assim como seus respectivos autores.
E nem 1% religioso.

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