E então, chegou o Carnaval: há quem o ame e também quem o odeia (e faço parte do segundo grupo).
O Carnaval está presente nas origens gregas de nossa civilização ocidental.
O Carnaval está presente nas origens gregas de nossa civilização ocidental.
Era uma festa profana de culto a fertilidade, comemorada com orgia sexual e muito vinho, em reverência ao deus Dionísio.
O espetáculo carnavalesco carrega consigo uma história, traz na bagagem máscaras e fantasias de um mundo subjetivo que se revelam e ganham expressão nessa manifestação cultural, com o lema
"tudo é permitido, o carnaval é de todos, e para todos!"
E é exatamente aqui que é possível fazer uma leitura psicanalítica de toda a subjetividade que se manifesta através das máscaras e fantasias carnavalescas.
Neste texto, proponho uma reflexão psicanalítica sobre o uso da máscara no Carnaval e insisto: ela esconde ou revela?
Há algo bem mais profundo do que apenas a diversão dos foliões. É o que veremos em mais um capítulo da nossa série especial "Papo de Psicanalista".
Terapia foliã
Certamente a pergunta feita é: afinal, o que tem a ver psicanálise com o Carnaval? A resposta direta é: TUDO!
Há dois equívocos teóricos recorrentes quando se pensa um objetivo da análise: aquele que entende que a psicanálise seria um hedonismo ingênuo, uma liberação das pulsões e dos desejos; e outro, de que a psicanálise buscaria "delimitar o gozo".
Soaria como se estivéssemos propondo uma moral hedonista ou ascética, um movimento dionisíaco ou uma renúncia cristã ao prazer.
Não se trata disso. A psicanálise não é uma pedagogia do prazer ou da abstinência. Ao contrário, ela busca distinguir gozos.
E, justamente por distingui-los, aposta que é possível passar de um tipo de gozo a outro.
O carnaval provoca uma quebra na ordem social e permite uma inversão de papéis e valores.
Esse período é representado pela mistura de cores, classes sociais, diversão e cultura.
Mais sobre a característica psíquica do Carnaval
O Carnaval é uma festa que, à primeira vista, pode parecer apenas um momento de celebração, diversão e descontração.
Mas, se olharmos com mais atenção, veremos que ele carrega camadas profundas de significados psíquicos e sociais.
A Psicanálise, ao longo do tempo, se debruçou sobre diversas expressões culturais, como Shakespeare (✰1564/✞1616) e a música clássica, mas ainda parece ter explorado pouco essa riquíssima experiência do Carnaval.
Por exemplo, se perguntarmos
"o que uma máscara faz?",
a resposta imediata pode ser: "Ela esconde".
Esconde o rosto, a identidade, quem realmente somos.
Mas, e se for o oposto? E se a máscara ao ser escolhida, ao invés de ocultar, permitir que algo autêntico venha à tona?
Esconde o rosto, a identidade, quem realmente somos.
Mas, e se for o oposto? E se a máscara ao ser escolhida, ao invés de ocultar, permitir que algo autêntico venha à tona?
Na Psicanálise, sabemos que o sujeito está sempre em conflito entre o que ele quer mostrar e o que precisa esconder.
- O tímido se torna extrovertido.
- O discreto se veste de maneira exuberante.
- O formal se transforma em palhaço...
Freud (✰1856/✞1939) nos ensina que o inconsciente se expressa indiretamente, através dos sonhos, lapsos e atos falhos.
No Carnaval, ele ganha um novo canal: a fantasia. Escolher uma fantasia não é aleatório; pode expressar desejos nem sempre tão aparentes.
No Carnaval, ele ganha um novo canal: a fantasia. Escolher uma fantasia não é aleatório; pode expressar desejos nem sempre tão aparentes.
- Por exemplo, vestir-se de super-herói pode indicar um desejo de potência.
- Homens que se vestem de mulher, podem estar projetando desejos homossexuais recalcados (ou seja, reprimidos).
- Optar por um vilão pode ser um flerte com algum tipo de agressividade. O que está por trás de cada escolha?
Brincando com as instâncias psíquicas, poderíamos dizer que o Id se solta.
Arromba a porta do porão, salta pra fora e vai pra folia, arrastando consigo o Ego, que num primeiro momento resiste, mas depois acaba aderindo a festa.
Psicose:
O Mundo Literal
| Imagem criada com recursos da IA |
Na psicanálise, psicose e perversão são estruturas clínicas distintas que organizam o psiquismo de formas singulares, diferindo da neurose na maneira como lidam com a lei, a realidade e a castração.
- Psicose — A psicose se caracteriza pela foraclusão. Trata-se de um termo no âmbito jurídico para se referir ao processo prescrito, que não existe mais legalmente e sobre o qual não se pode mais falar. Não se pode mais falar! Ou seja, o psicótico tem uma lacuna de simbolização na linguagem. Tudo é muito literal. E como o Carnaval é um fenômeno simbólico por excelência, não cabe aqui uma análise aprofundada dessa estrutura dentro dessa festa — ao menos neste momento.
- Perversão — A Transgressão Como Regra. O perverso não recalca, ele denega a castração. Um dos tipos de perversão, inclusive, é o fetiche. Fetiche, da palavra feitiço. Como mágica, o perverso faz sumir toda aquela situação desagradável da castração e inserção da Lei. Assim, o Carnaval pode ser visto, para ele, como um espaço onde as regras sociais são desafiadas, onde se expõe aquilo que deveria ficar oculto.
Fantasias, expressão das personas
- Persona — de acordo com a psicologia junguiana é uma funcionalidade psíquica adaptada à vida social e às necessidades externas. São as máscaras sociais que usamos para nos adaptarmos aos vários papéis que vivemos em sociedade. Criada entre a infância e a adolescência, a persona é em vários momentos um mecanismo de defesa que nos permite encenar no palco da vida os nossos mais variados papéis, com grande versatilidade.
- Personalidade — refere-se aos padrões de pensamento, comportamentos e sentimentos característicos que tornam um indivíduo único. A personalidade surge dentro do indivíduo e permanece consistente ao longo de sua vida. Alguns exemplos de personalidade podem ser encontrados na maneira como você descreve as características de outras pessoas.
A festa do carnaval é considerada a manifestação popular por excelência e o lugar privilegiado da expressão do realismo grotesco.
Na percepção carnavalesca assiste-se uma subversão das fronteiras entre o real e a fantasia.
Na percepção carnavalesca assiste-se uma subversão das fronteiras entre o real e a fantasia.
Dentre os elementos explorados na festa, encontramos o riso.
O riso é festivo, universal, todos riem e permitem rir-se de tudo e de todos.
O riso é festivo, universal, todos riem e permitem rir-se de tudo e de todos.
O riso grotesco exalta o "tempo alegre", que participa no espírito da festa, mas também carrega o tempo da metamorfose, soberano, onipotente e mensageiro da morte.
No regime alegre carnavalesco, tudo é transitório, os corpos estão em permanente transformação flertando com o perigo e o proibido.
O prazer entra em cena, marcando a satisfação do desejo, contrapondo à dor e ao tédio.
O carnaval parece ser uma licença poética, folclórica e cultural do comportamento, um escapismo.
Nesse momento as fantasias dão asas aos actings outs (atuações, representações), parecendo tudo justificado pelo clima dionisíco do carnaval.
Tomemos outro cenário: o "kit" de bebedeiras e drogas, a programação frenética de festas, a combinação de substâncias, os aplicativos de pegação, o chemsex, o tadala, a violência sexual...
✷Slavoj Žižek, ao criticar certas formas contemporâneas de carnavalização, falou de uma "orgia opressiva", uma exigência de gozar que se torna, ela mesma, um imperativo sufocante que mantém intactas as estruturas de poder que nos oprimem.
✷Slavoj Žižek, ao criticar certas formas contemporâneas de carnavalização, falou de uma "orgia opressiva", uma exigência de gozar que se torna, ela mesma, um imperativo sufocante que mantém intactas as estruturas de poder que nos oprimem.
✷Influente filósofo, psicanalista e crítico cultural esloveno, conhecido como um dos pensadores contemporâneos mais provocativos. Misturando marxismo, psicanálise lacaniana e filosofia hegeliana, ele analisa a cultura popular, cinema e política para criticar o capitalismo, o liberalismo e o "politicamente correto" (Editora Vozes).
Sob este entendimento, portanto, a fantasia e a máscara estão longe de ser apenas um adorno de carnaval, ela tem um valor catártico.
É um extravasamento, uma liberdade durante os dias de festividade, das rotinas cotidianas e da estagnação habitual.
É um extravasamento, uma liberdade durante os dias de festividade, das rotinas cotidianas e da estagnação habitual.
Ainda no clima de brincadeira com as instâncias psíquicas, vou chamar o Superego que, embora tenha se deixado levar aos exageros dos companheiros Id e Ego nesses dias de folia, renascerá das cinzas e, com um olhar de superioridade, confirmará que voltaremos a sambar ao som das angústias do cotidiano nos próximos meses.
Conclusão
O Carnaval como Sublimação
Se pensarmos o Carnaval como um espaço de expressão cultural e simbólica, podemos entendê-lo também como um fenômeno de sublimação.
Sublimar, na psicanálise, é transformar impulsos primitivos em expressões culturalmente aceitas.
O Carnaval, com sua arte, suas músicas, sua estética, é um grande movimento sublimatório.
Afinal, a máscara no Carnaval esconde ou revela? A resposta é: ambas.
Ela permite que o sujeito expresse aspectos seus que, no dia a dia, estão reprimidos.
Ela libera o desejo ao mesmo tempo em que protege, pois, por trás da fantasia, há sempre um retorno seguro à ordem social.
Ela permite que o sujeito expresse aspectos seus que, no dia a dia, estão reprimidos.
Ela libera o desejo ao mesmo tempo em que protege, pois, por trás da fantasia, há sempre um retorno seguro à ordem social.
Talvez a grande lição do Carnaval seja esta: a identidade é fluida, mutável e simbólica.
Talvez a grande lição seja a ambiguidade à qual a Psicanálise sempre se agarrou com unhas e dentes.
E, nesse jogo entre esconder e revelar, encontramos pistas importantes sobre quem realmente somos.
Talvez a grande lição seja a ambiguidade à qual a Psicanálise sempre se agarrou com unhas e dentes.
E, nesse jogo entre esconder e revelar, encontramos pistas importantes sobre quem realmente somos.
- Por: Leonardo Sérgio da Silva
- [Fonte: ITIPOA | Psicanálise e Criatividade, por Fabiana Taques; Psicóloga Eliza Goltz, Metrópole, por Guilherme Freitas Henderson — psicanalista, doutor e mestre em Psicologia Clínica e Cultura na Universidade de Brasília (UnB)]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
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E nem 1% religioso.

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