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Quando a teologia deixa de ser discurso e se torna vida
Há afirmações bíblicas que atravessam os séculos sem perder a capacidade de desconcertar. Uma delas está na Primeira Carta de João:
"Deus é amor" (4:8).
Não se trata apenas de dizer que Deus ama. O texto afirma algo muito mais profundo:
o amor pertence à própria identidade de Deus.
Mas o que significa, de fato, dizer que Deus é amor?
Além do que está escrito
A pergunta exige cuidado. João não está transformando o amor em um sentimento humano projetado sobre Deus.
No contexto da carta, o apóstolo está combatendo uma espiritualidade que pretendia conhecer a Deus sem necessariamente produzir uma vida marcada pelo amor.
No contexto da carta, o apóstolo está combatendo uma espiritualidade que pretendia conhecer a Deus sem necessariamente produzir uma vida marcada pelo amor.
Por isso, sua conclusão é contundente:
"Quem não ama não conhece a Deus" (1J o 4:8).Na perspectiva joanina, conhecer Deus e amar o próximo não são experiências independentes; uma confirma a autenticidade da outra.
O amor que toma a iniciativa
A exegese do texto torna-se ainda mais significativa quando João explica como esse amor se manifestou:
"Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo" (1Jo 4:9).Portanto, o amor divino não permanece em uma abstração teológica. Ele se torna acontecimento histórico.
É aqui que João 3:16 ilumina 1 João 4:8:
"Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito".O amor, na Bíblia, não é simplesmente aquilo que Deus sente; é aquilo que Deus faz. Ele se doa, aproxima-se, salva e restaura.
Paulo apresenta a mesma lógica em Romanos 5:8:
"Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores."O detalhe é decisivo: Deus não espera que o ser humano se torne digno para então amá-lo. O amor precede o mérito. Como afirma João,
"nós O amamos porque ele nos amou primeiro" (1Jo 4:19).
Essa compreensão encontra eco em Agostinho de Hipona (354/430). Ao refletir sobre a Primeira Carta de João, ele relaciona inseparavelmente o amor a Deus e o amor ao irmão: quem afirma amar o Deus invisível, mas despreza aquele que vê, contradiz a própria essência da fé cristã.
Deus não apenas tem amor: Deus é amor
Tomás de Aquino (.../1274) também parte de 1 João 4:16 para afirmar que há amor em Deus e relaciona o amor ao movimento da vontade em direção ao bem.
Para ele, falar do amor divino é falar da própria perfeição de Deus, não de uma emoção passageira semelhante às experiências humanas.
Para ele, falar do amor divino é falar da própria perfeição de Deus, não de uma emoção passageira semelhante às experiências humanas.
Séculos depois, Karl Barth (1886/1968) retomaria essa afirmação com extraordinária força.
Em sua Church Dogmatics, Barth sustenta que Deus não é um ser isolado e fechado em si mesmo: seu próprio ser é compreendido em termos de amor e liberdade. Deus é aquele que ama e, livremente, estabelece comunhão com sua criação.
Em sua Church Dogmatics, Barth sustenta que Deus não é um ser isolado e fechado em si mesmo: seu próprio ser é compreendido em termos de amor e liberdade. Deus é aquele que ama e, livremente, estabelece comunhão com sua criação.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que o amor cristão nunca pode ser reduzido a mera simpatia.
O amor de Deus é ágape: iniciativa, entrega, graça e compromisso. É o amor que alcança o outro não porque o outro seja perfeito, mas porque Deus é amor.
O amor também confronta
Existe, entretanto, um equívoco bastante comum: imaginar que afirmar "Deus é amor" significa afirmar que Deus simplesmente aprova tudo aquilo que fazemos.
A Bíblia não permite essa interpretação.O mesmo Deus que ama também corrige.
O mesmo Cristo que acolhe pecadores chama-os ao arrependimento. O amor bíblico não é permissividade. Hebreus 12:6 afirma que
O mesmo Cristo que acolhe pecadores chama-os ao arrependimento. O amor bíblico não é permissividade. Hebreus 12:6 afirma que
"o Senhor corrige a quem ama".
E Jesus, ao encontrar a mulher acusada de adultério, não a condena à morte, mas também não transforma sua graça em autorização para permanecer no mesmo caminho (João 8:11).
O amor verdadeiro não destrói a verdade para preservar o conforto. Ele diz a verdade justamente porque deseja restaurar.
Por isso, amor e santidade não são atributos rivais em Deus. O amor divino é santo, e a santidade divina não é desprovida de amor. Na cruz, essas dimensões encontram uma expressão máxima: Deus não ignora o pecado, mas oferece redenção.
Se Deus é amor, a Igreja precisa parecer com esse Deus
Talvez aqui esteja a consequência hermenêutica mais desconfortável de 1 João 4.
O texto não foi escrito apenas para alimentar nossa devoção. Ele também funciona como um espelho diante da comunidade cristã. João pergunta, em essência: se vocês dizem conhecer Deus, onde está o amor?
A resposta é prática:
"Se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros" (1Jo 4:11).
E João radicaliza ainda mais:
"Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso" (1Jo 4:20).
Não há espaço, portanto, para uma fé que proclama o amor no púlpito e cultiva ódio na vida cotidiana; que fala de graça enquanto pratica humilhação; que defende a verdade bíblica sem demonstrar misericórdia.
O amor de Deus torna-se, assim, critério de autenticidade cristã.
Não significa que todo aquele que ama deva concordar com tudo. Significa que, mesmo quando discorda, o cristão não pode abandonar a dignidade do outro.
A verdade cristã não perde sua absolutez quando é anunciada com amor; ao contrário, encontra no amor uma de suas maiores evidências.
A verdade cristã não perde sua absolutez quando é anunciada com amor; ao contrário, encontra no amor uma de suas maiores evidências.
O amor que vence o medo
João ainda declara:
"No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo" (1Jo 4:18).
Aqui existe uma dimensão profundamente pastoral.
Muita gente se aproxima de Deus imaginando encontrar apenas um juiz pronto para condenar. João apresenta outra realidade: o Deus que julga é também o Deus que ama, e seu amor, quando verdadeiramente compreendido, transforma a relação do ser humano com Ele.
A fé cristã não nasce do terror diante de Deus, mas da confiança naquele que nos amou primeiro.
É por isso que a cruz permanece como o grande símbolo cristão do amor: nela, Deus não permanece distante diante da dor humana. Em Cristo, Ele entra na história, assume a condição humana e oferece reconciliação.
A exegese de 1 João 4 nos conduz, porém, a uma conclusão ainda mais profunda. Se Deus é amor, conhecer a Deus inevitavelmente transforma a maneira como nos relacionamos com o outro.
A fé cristã não pode ser reduzida a palavras, ritos ou declarações de ortodoxia. O amor recebido de Deus precisa tornar-se amor praticado na vida. Como escreveu o apóstolo João:
A fé cristã não pode ser reduzida a palavras, ritos ou declarações de ortodoxia. O amor recebido de Deus precisa tornar-se amor praticado na vida. Como escreveu o apóstolo João:
"Se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros" (1Jo 4:11).
É justamente aí que a teologia deixa de ser apenas discurso e passa a ser existência.
O verdadeiro encontro com o Deus que é amor produz misericórdia onde havia indiferença, perdão onde havia ressentimento, reconciliação onde havia ruptura e esperança onde parecia existir apenas desespero.
O verdadeiro encontro com o Deus que é amor produz misericórdia onde havia indiferença, perdão onde havia ressentimento, reconciliação onde havia ruptura e esperança onde parecia existir apenas desespero.
Talvez seja essa a grande provocação do Evangelho: não basta saber que Deus é amor; é preciso permitir que esse amor nos transforme.
Porque, quando o amor de Deus encontra verdadeiramente o coração humano, ele não termina em nós. Ele transborda.
E talvez seja justamente nesse transbordamento que o mundo consiga reconhecer, através de nossas próprias vidas, o Deus que a Bíblia anuncia: "Deus é amor".
Porque, quando o amor de Deus encontra verdadeiramente o coração humano, ele não termina em nós. Ele transborda.
E talvez seja justamente nesse transbordamento que o mundo consiga reconhecer, através de nossas próprias vidas, o Deus que a Bíblia anuncia: "Deus é amor".
Conclusão
No fim, talvez a grande pergunta não seja apenas "Deus me ama?". O Evangelho já respondeu: sim.
A pergunta mais incômoda é outra:
Se eu realmente conheço o Deus que é amor, o que esse amor está produzindo em mim?
Porque, segundo João, não basta dizer que conhecemos Deus. É preciso que o amor recebido se transforme em amor oferecido.
Deus é amor. E quem verdadeiramente encontra esse Deus não permanece exatamente como estava.
Assim, concluímos que toda reflexão sobre Deus, talvez permaneça uma verdade simples, mas impossível de esgotar: Deus é amor.
Não um amor sentimental, permissivo ou condicionado aos nossos méritos, mas o amor que se revela na iniciativa divina, na graça, no perdão e, sobretudo, na entrega de Cristo. A cruz é a expressão histórica desse amor: Deus não apenas falou sobre amor; Ele o demonstrou.
Não um amor sentimental, permissivo ou condicionado aos nossos méritos, mas o amor que se revela na iniciativa divina, na graça, no perdão e, sobretudo, na entrega de Cristo. A cruz é a expressão histórica desse amor: Deus não apenas falou sobre amor; Ele o demonstrou.
- Por Leonardo Sérgio da Silva
- [Fonte e Referências bíblicas e bibliográficas: BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil. Especialmente: 1 João 4:7-21; João 3:16; João 8:11; Romanos 5:8; Hebreus 12:6. AGOSTINHO DE HIPONA. De Trinitate — especialmente Livro VIII, sobre o amor e sua relação com o conhecimento de Deus. AQUINO, Tomás de. Suma Teológica, I, questão 20 — Do amor de Deus. BARTH, Karl. Church Dogmatics, II/1 — especialmente a doutrina dos atributos de Deus e a compreensão de Deus como aquele que ama. MOLTMANN, Jürgen. Reflexões sobre Deus como amor e sobre a autocomunicação divina. MILES, Margaret R. “How St. Augustine Could Love the God in Whom He Believed”. Augustinian Studies, v. 54, n. 1, 2023.]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
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