Total de visualizações de página

domingo, 27 de setembro de 2026

🗣️PRONTO, FALEI!💬 — “VIRTUOSAS" SEM NENHUM VIRTUOSISMO

Crédito: imagem gerada com recursos da IA
Neste capítulo da nossa série especial de artigos, Pronto, falei!, vamos repercutir o pavoroso filme "Virtuosas".
⚠️Para composição do texto deste artigo, fiz o enorme sacrifício de assistir essa aberração, para que pudesse fazer minha crítica sem leviandades.
Em cartaz desde 24 de setembro de 2026, "Virtuosas", dirigido por Cíntia Domit Bittar, utiliza o terror para abordar mulheres cristãs identificadas pela produção como integrantes de um universo ultraconservador ligado ao conceito de tradwife.

O longa apresenta um retiro destinado a aperfeiçoar a chamada feminilidade cristã e transforma essa proposta em uma narrativa de suspense, crítica social e confronto com determinadas interpretações da Bíblia. De acordo com a diretora, o filme procura discutir manipulação da fé, conservadorismo e relações de poder.

Estrelado por Bruna Linzmeyer, a produção apresenta um retiro feminino no qual a Bíblia é utilizada como referência para definir comportamentos, relações conjugais e papéis sociais.

A diretora afirma que pesquisou o fenômeno durante anos e que seu interesse central está na ascensão do ultraconservadorismo e no que identifica como manipulação da fé e distorção do texto bíblico.

Entre a crítica ao conservadorismo e a leitura de Provérbios 31


O ponto de partida da obra é a expressão “mulher virtuosa”, associada a Provérbios 31:10-31.

É justamente nessa associação que surge uma das principais questões teológicas do filme.
Provérbios 31 não descreve uma mulher passiva, sem autonomia ou restrita ao ambiente doméstico. O poema apresenta uma personagem que administra a casa, negocia, compra propriedades, trabalha, produz, comercializa mercadorias e toma decisões econômicas.
“Considera uma propriedade e a adquire; planta uma vinha com as rendas do seu trabalho” (Pv 31:16).
A passagem continua:
“Ela faz roupas de linho e as vende” (Pv 31:24).
O texto também registra uma dimensão social:
“Abre a mão ao aflito; e ainda a estende ao necessitado” (Pv 31:20).
Portanto, a personagem bíblica não cabe integralmente na representação contemporânea de uma mulher cuja principal função seria obedecer ao marido e permanecer confinada ao lar.

Narrativa progressista


Na história, três mulheres participam de uma espécie de retiro VIP comandado pela influenciadora Virgínia Heinzel, interpretada por Bruna Linzmeyer.

O objetivo anunciado é ajudá-las a alcançar uma “melhor versão” de si mesmas. A narrativa transforma gradualmente esse ambiente em uma experiência de terror.

A produção utiliza como referência principal Provérbios 31:10-31. O trecho bíblico apresenta a chamada eshet hayil, expressão hebraica tradicionalmente traduzida como “mulher virtuosa”, “mulher valorosa” ou “mulher de valor”.

É nesse ponto que surge uma das principais questões teológicas envolvendo o filme.
O texto bíblico não apresenta essa mulher apenas como esposa dedicada ao marido e aos filhos. Ela trabalha, administra recursos, compra uma propriedade, planta uma vinha, comercializa produtos, ajuda pessoas pobres e participa ativamente da vida econômica de sua comunidade.
A narrativa acompanha Virgínia Heinzel, uma influenciadora e coach que prega os valores tradicionais da chamada “mulher virtuosa” para o público feminino conservador.

Acompanhada por Germina (Maria Galant), Lorena (Juliana Lourenção), Bárbara (Sarah Motta) e Gorete (Brisa Marques), o grupo inicia um encontro focado no aprimoramento pessoal e espiritual.

No entanto, a busca inicial por harmonia é rapidamente substituída por uma crescente atmosfera de paranoia, tensão e escolhas extremas. É justamente aí que surge uma das principais questões teológicas do filme.

Quando o cinema transforma Provérbios 31 em campo de batalha ideológica


Crédito: Folha / Uol
Provérbios 31 não descreve uma mulher passiva, sem autonomia ou restrita ao ambiente doméstico. 

O poema apresenta uma personagem que administra a casa, negocia, compra propriedades, trabalha, produz, comercializa mercadorias e toma decisões econômicas.

Estudos acadêmicos também observam essa dimensão. O projeto Theology of Work, associado ao trabalho de estudiosos como Bruce Waltke e Alice Mathews, interpreta a personagem como uma mulher forte, produtiva e economicamente ativa. 

O comentário destaca que a passagem apresenta uma empreendedora que administra trabalhadores e realiza negócios. 

A pesquisadora Jacqueline Vayntrub, da Yale Divinity School, identifica ainda no poema uma valorização da sabedoria adquirida e das ações realizadas pela mulher, em contraste com a valorização da beleza exterior.

A própria estrutura do capítulo merece atenção. Provérbios 31:10-31 é um poema acróstico, construído a partir das letras do alfabeto hebraico.

Não se trata de uma reportagem biográfica sobre uma mulher específica. Estudos hermenêuticos o interpretam como uma figura idealizada da literatura sapiencial. 

O versículo 30 estabelece o eixo teológico da passagem: 
“A mulher que teme o Senhor, essa será louvada”. 
Esse elemento modifica a interpretação do conceito de virtude.

No texto bíblico, a virtude não está fundamentada simplesmente na obediência a padrões sociais de feminilidade. Ela está relacionada ao caráter, à sabedoria, ao trabalho, à responsabilidade e, sobretudo, ao temor do Senhor.

Não se trata apenas de crítica é militância escancarada e crítica frontal às mulheres cristãs

Crédito: reprodução Mural do Paraná
O filme, entretanto, constrói sua crítica a partir de uma determinada leitura contemporânea do cristianismo conservador.

Em entrevista, Bittar afirmou que pesquisou grupos identificados com mulheres “virtuosas” e sua relação com o movimento tradwife.

A diretora também declarou enxergar nesses grupos uma relação entre submissão feminina, conservadorismo e determinadas interpretações do cristianismo. 

Essa perspectiva ajuda a compreender a proposta cinematográfica, mas também exige separação entre crítica cultural e exegese bíblica.

A crítica ao uso da religião como instrumento de controle encontra respaldo em estudos sobre gênero e Bíblia. 

A teóloga Ilze Jansen, da Universidade de Pretória, observa que Provérbios 31 foi utilizado historicamente para estabelecer expectativas sobre o comportamento feminino, mas também argumenta que a personagem pode ser compreendida como modelo de iniciativa, trabalho e relacionamento com Deus. 

Ao mesmo tempo, uma leitura cristã do capítulo não permite simplesmente retirar a dimensão familiar do texto. Provérbios 31 menciona marido, filhos, administração da casa e responsabilidade comunitária. 

O problema hermenêutico aparece quando uma dessas dimensões é transformada na totalidade da mensagem.

Outros textos bíblicos ampliam essa perspectiva. Gálatas 3:28 afirma que, em Cristo,
“não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher”.
O versículo trata da igualdade espiritual em Cristo e não deve ser utilizado isoladamente para resolver todas as questões contemporâneas de gênero. Ainda assim, integra uma teologia cristã que precisa ser considerada na discussão.
 
Concomitantemente, Efésios 5:25 determina aos maridos:
“Amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja”.
E Marcos 12:31 estabelece o amor ao próximo como princípio fundamental.

A própria diretora relaciona as personagens de Virtuosas ao movimento internacional tradwife e afirma identificar nesses grupos uma concepção de feminilidade baseada na submissão feminina e na rejeição do feminismo. 

Essa é uma interpretação apresentada pela cineasta sobre o fenômeno que inspirou sua obra.

O filme, portanto, não pretende realizar uma exposição teológica de Provérbios. Ele utiliza a linguagem cinematográfica para fazer uma crítica social.

Essa distinção é importante.

A Deus o que é de Deus


Do ponto de vista da hermenêutica bíblica, Provérbios 31:10-31 é um poema. No hebraico, a passagem possui estrutura acróstica.

Cada verso acompanha sucessivamente as letras do alfabeto hebraico. A mulher descrita no poema funciona como uma representação de excelência, sabedoria, trabalho e temor de Deus.

O centro da passagem aparece no versículo 30: 
“Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada”.
A virtude, portanto, não é definida apenas pela aparência, pela domesticidade ou pelo relacionamento conjugal.

Ela está relacionada ao caráter.

Provérbios 31:26 acrescenta: “Fala com sabedoria, e a instrução da bondade está na sua língua”.

A Bíblia também apresenta mulheres exercendo funções relevantes fora de uma interpretação exclusivamente doméstica.
  • Débora, em Juízes 4, aparece como profetisa e juíza de Israel
    .
  • Priscila participa da instrução teológica de Apolo em Atos 18:26.

  • Febe é mencionada por Paulo em Romanos 16:1,2 como serva da igreja em Cencreia e alguém que auxiliou muitas pessoas.
Esses textos não eliminam as responsabilidades familiares presentes na Bíblia.

Eles demonstram que a compreensão bíblica da mulher é mais ampla do que uma única função social.
A passagem, portanto, não apresenta autoridade masculina como licença para dominação. O parâmetro colocado diante do marido é o amor sacrificial de Cristo.
A leitura de Provérbios 31 também encontra respaldo em estudos teológicos que destacam a atividade econômica da personagem.

Pesquisas sobre o texto observam que ela administra recursos, realiza negócios e participa da produção familiar e comunitária.

Nesse sentido, existe uma diferença entre o que Provérbios 31 afirma e determinadas construções culturais feitas posteriormente a partir da passagem.

É nessa diferença que a crítica de Virtuosas encontra seu principal argumento.

O problema aparece quando a discussão cinematográfica transforma uma interpretação específica do cristianismo conservador em representação abrangente da própria fé cristã.

Cristianismo, conservadorismo, feminismo e patriarcado são conceitos relacionados historicamente em diferentes contextos, mas não são sinônimos.
Há mulheres cristãs que defendem a organização tradicional da família sem necessariamente aderirem a movimentos políticos conservadores. 
Também existem mulheres cristãs que defendem maior participação feminina em diferentes espaços sociais sem abandonarem sua fé bíblica.
A obra de Bittar escolhe um recorte específico.

Nada pode contra a verdade

Senão pela verdade



Crédito: YouTube
Assim, a discussão provocada por "Virtuosas" ultrapassa a oposição simplificada entre feminismo e cristianismo.
O filme questiona uma determinada construção social da mulher cristã.

A Bíblia, por sua vez, precisa ser analisada dentro de seu contexto literário, histórico e teológico.

Do ponto de vista cinematográfico, a obra utiliza o horror para transformar uma discussão social em uma experiência de tensão.

Críticas publicadas após a estreia destacaram justamente a combinação entre drama, sátira e terror, além da representação caricatural de determinados ambientes religiosos. 

A principal questão deixada pelo filme, portanto, não é simplesmente se a mulher deve ser “virtuosa”. O próprio texto bíblico responde afirmativamente. A questão é o que significa ser virtuosa segundo Provérbios 31.

E, nesse aspecto, o texto apresenta uma mulher que trabalha, negocia, administra, produz, protege sua família, socorre os necessitados, fala com sabedoria e teme a Deus.

Conclusão


Crédito: YouTube
O Festival de Cinema de Vitória classificou "Virtuosas" como um filme de “terror feminista” voltado à crítica do patriarcado e do negacionismo. 

A própria diretora afirma que o gênero foi escolhido para discutir aquilo que considera um fenômeno social contemporâneo.

Por isso, a produção deve ser compreendida também como uma obra de posicionamento cultural.

Sua leitura da religião não é apresentada como exegese acadêmica de Provérbios 31, mas como instrumento narrativo para questionar uma determinada construção social da mulher cristã.

A questão que permanece para o espectador cristão é outra: até que ponto uma crítica dirigida a determinadas práticas religiosas consegue distinguir entre abuso da fé e a própria fé?

Provérbios 31 termina dizendo:
“Dai-lhe do fruto das suas mãos, e de público a louvarão as suas obras” (Pv 31:31).
A mulher virtuosa do texto bíblico não é apresentada somente como esposa. Ela é trabalhadora, administradora, comerciante, cuidadora, sábia e temente a Deus.

A discussão provocada por Virtuosas, portanto, não deveria terminar na oposição entre feminismo e cristianismo.

Ela pode começar justamente onde o filme e o texto bíblico se encontram: na pergunta sobre quem tem autoridade para definir o significado de “virtude”.

Para a tradição cristã, a resposta precisa começar pelo próprio texto bíblico. Para o cinema, a resposta pode ser construída pela crítica social e pela ficção.

São linguagens diferentes.

Confundi-las pode produzir tanto uma caricatura da fé quanto uma leitura reduzida do próprio filme.

A discussão permanece aberta entre cinema, teologia, feminismo e sociedade. O desafio está em não substituir a leitura do texto bíblico pela leitura ideológica feita sobre ele — seja ela conservadora ou progressista.
🚨Observação importante: o texto que produzi é original e não reproduz as fontes consultadas.

As publicações foram utilizadas como referencial teórico para fundamentar as análises em seus respectivos prismas.
  • Por: Leonardo Sérgio da Silva
  • [Fontes e bibliografia para aprofundamento: Sociedade Bíblica do Brasil — Provérbios 31:10-31. Cíntia Domit Bittar — entrevistas sobre a concepção e os objetivos de Virtuosas. Medium. Festival de Cinema de Vitória — apresentação oficial de Virtuosas. Festival de Cinema de Vitória. Jacqueline Vayntrub — estudos acadêmicos sobre beleza, sabedoria e trabalho em Provérbios 31. Bruce K. Waltke — estudos sobre o livro de Provérbios e a literatura sapiencial. Tremper Longman III — Proverbs, Baker Commentary on the Old Testament Wisdom and Psalms. Michael V. Fox — Proverbs 10–31, Anchor Yale Bible. Roland E. Murphy — estudos sobre a literatura sapiencial do Antigo Testamento. Sociedade Bíblica do Brasil — Provérbios 31: texto bíblico e contexto imediato. Sociedade Bíblica do Brasil. Cíntia Domit Bittar — entrevistas sobre Virtuosas: concepção do filme e suas referências sociais e religiosas. Feito por Elas. Bruce Waltke e Alice Mathews — Theology of Work: análise de Provérbios 31 e da dimensão econômica da mulher virtuosa. Teologia do Trabalho. Jacqueline Vayntrub — Harvard Theological Review: estudo sobre beleza, sabedoria e trabalho em Provérbios 31. Cambridge University Press. Ilze Jansen — Verbum et Ecclesia: leitura contextual, gênero e interpretação de Provérbios 31. Verbum et Ecclesia. Raymond Apple — Jewish Bible Quarterly: análise das duas mulheres apresentadas em Provérbios 31. Jewish Bible Quarterly. Working Preacher / Luther Seminary: comentário sobre trabalho, família e atividade econômica da mulher de Provérbios 31.]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blogue https://conexaogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualizações frequentes dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.
  • O blogue CONEXÃO GERAL presa pelo respeito à lei de direitos autorais (L9610. Lei nº 9.610, de 19/02/1998), creditando ao final de cada texto postado, todas as fontes citadas e/ou os originais usados como referências, assim como seus respectivos autores.
E nem 1% religioso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário