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sábado, 18 de março de 2023

CONTÉM SPOILERS — "PSICOSE", DE ALFRED HITCHCOCK

O objetivo dessa série especial de artigos, é falar de filmes aos quais assisti, que mesmo quem não assistiu já ouviu falar de alguma forma, e, que possuem significados por trás de tudo, até mesmo nos pequenos detalhes. 

Hoje, como graduando em Psicanálise, é praticamente impossível de ver algum filme, sem que também tente "encontrar" as técnicas utilizadas pelo diretor para evidenciar o comportamento de seus personagens, bem como expor que a psicanálise quase sempre será conduzida de maneira simplificada pelo cinema.

Acabei de rever este filme e vou aqui, com base no que tenho estudado, fazer um leitura mais analítica desse filme, considerado um clássico do terror da sétima arte e, na minha opinião, sem dúvida o melhor de todos na cinebiografia do espetacular cineasta Alfred Hitchcock (1899/1980).

Quero dizer quem fazendo juz ao título da série, esse artigo contém mesmo alguns spoilers, mas creio que você irá assistir ou pesquisar sobre o filme antes mesmo de terminar de ler esse texto, então se prepare! Não vou entrar em detalhes, pois assim como o título, pretendo focar no personagem Norman Bates. Afinal, poucos desconhecem a história do filme, o que faria disso só mais uma resenha como as inúmeras já postadas na internet (basta você "dar um google" e verá).

Detalhes sobre o filme


Bom, já viu aquela famosa cena de uma loira sendo esfaqueada no chuveiro com aquela trilha sonora marcante — que você já ouviu pelo menos uma vez na vida? 

Não é à toa que o filme "Psicose ('Phycho')", de 1960, entrou para a história do cinema como uma obra de suspense audacioso e revolucionário para sua época. 

Baseado na novela do americano Robert Alfred Bloch (✩1917/✞1994) e dirigido pelo majestoso Hitchcock, um dos maiores diretores da categoria, todo o custo de produção do filme foi financiado, inclusive o salários dos atores principais, pois a distribuidora Paramount recusou o projeto, totalizado em US$ 800 mil dólares.

Marion Crane (Janet Leight — ✩1927/✞2004) trabalha como secretária em uma imobiliária, onde possui a tarefa de depositar uma alta quantia na conta de um cliente. 

Crane, ao deparar-se com tanto dinheiro, cai em tentação e foge com todo o dinheiro. Começa a dirigir sem destino e vários acontecimentos atrapalham seu percurso, o que acaba levantando algumas suspeitas. 
Cansada e enfrentando uma enorme tempestade, Marion se hospeda no Bates Motel, único lugar disponível e aberto tarde da noite. O lugar era decadente e solitário, quase à falência pela criação da autoestrada e pelo baixo movimento.

Com o desaparecimento de Marion, sua irmã Lila (Vera Miles) começa uma busca para encontrá-la. Sam (John Gavin —  ✩1931/✞2018), namorado de Marion, e o detetive contratado, Arbogast (Martin Balsam — ✩1919/✞1996) começam a procura. 

A busca é iniciada e logo o Bates Motel é cogitado como um possível esconderijo. O detetive começa uma inspeção no local e considera Norman muito suspeito. Por sua vez, Arbogast informa Lila por telefone de suas suspeitas, e sua intenção de interrogar a mãe de Bates. De repente, o detetive também acaba assassinado por alguém que aparentemente é a mãe de Bates.

A morte de Marion Crane


Essa sequência é, claro, a famosa sequência do assassinato de Marion Crane no chuveiro, a coisa mais chocante e memorável do livro de Bloch, na minha opinião medíocre, por assumir uma situação totalmente inesperada que causa grande impacto no leitor. Ao ser levada para as telas pelo brilhantismo preciso da claquete de Hichcock, faz com a intensidade do que se lê se torne ainda mais pertubador.

Em torno dessa sequência, Hitchcock compôs o que ele mesmo considerou seu maior jogo com o público. Um filme que custou R$ 4.076.720,00 e acabou se tornando seu maior sucesso, bem como o filme mais lembrado de sua extensa filmografia.
Vejam só: O bonachão e debochado Hitchcock afirmou mais de uma vez que as motivações dos personagens, suas ações, não importavam nada para ele, o que importava para ele era conseguir algo através da técnica, que inclusive ele conseguiu fazer. O tiro de Hitchock, ainda bem, saiu pela culatra.
Ademais, o jogo de câmera termina com aquele olhar no final de Perkins para o espectador e então para a foto do carro de Marion sendo resgatado do pântano.

Do suspense ao terror


E esse filme faz um joguinho com o espectador, que consiste em enganá-los com base nas mudanças de rumo da trama. Aliás, a princípio, "Psicose" foi posado como uma comédia.

Na verdade, o primeiro terço do filme é construído sobre a premissa de que o espectador conhece e o personagem não sabe. Sendo assim, indo do suspense ao terror.

Uma análise de Norman Bates


Quando assisti "Psicose" pela primeira vez, em uma fita de VHS, num aparelho de videocasste
(sim, querido(a), sou da época do icônico e hoje já extinto aparelho doméstico de exibição de vídeos, que, então, era um luxo para poucos privilegiados...)
tive uma incrível curiosidade (como sempre) em conhecer mais sobre a história e o contexto que existe atrás da história dos personagens e descobri algumas coisas interessantes, principalmente sobre Norman.

Não tinha conhecimento, mas o caso real de um tal de Ed Gein (✩1906/✞1984) foi inspiração para a criação do personagem. 

Gein foi um homicida americano, condenado pelo assassinato de duas pessoas e o desaparecimento de outras cinco. Seus crimes ganharam destaque, pois costumava exumar cadáveres de cemitérios, fazendo uma espécie de troféu com eles. 

Considerado mentalmente incapaz não foi condenado, devido a sua insanidade. Talvez sua condenação também seja uma relação com os desfechos do filme.

No caso do personagem Norman, é visível a semelhança com Ed Gein. Por sua vez, Bates também assassinou pessoas, incluindo Marion, e transformou uma de suas vítimas  — sua própria mãe  — em "troféu".

Outro fator desencadeador para a personalidade conturbada do personagem é a relação com a mãe. A figura materna, por vezes, é insensata ao ponto de interferir na percepção de mundo do filho, influenciando-o de forma negativa.

O complexo de Édipo é determinante para que a psicose se alastre, nesse caso. Norman era fixado por sua mãe, uma mulher dominadora e fanaticamente religiosa. O fascínio era tanto que Bates assumia a personalidade da mãe, chegando até a vestir-se igual a ela, mas logo sofria de um surto de amnésia. 

Ele acreditava que sua mãe era uma velha e que precisava de amor, sendo sua obrigação cuidar dela. As falas da mãe também insinuam o ódio por todas as mulheres que possam a vir se relacionar com Norman.

Outro importante detalhe é o fato de que o quarto de Norman foi decorado com brinquedos e artefatos infantis, mostrando que não possuía maturidade suficiente para levar a vida por si só, além de sua personalidade quieta e estranha. 

Nota-se também sua solidão, Bates vivia com uma única aparente companhia, a mãe. Seu motel, cada vez mais pacato, não lhe dava outra escolha senão realizar hobbies exóticos como a taxidermia (empalhar animais), sendo esse, aliás, o ponto máximo de sua psicose.

Apesar de todos esses fatores que causariam estranheza a qualquer um que os notasse em um gerente de motel, Bates não parecia suspeito. Mantinha aparências de um jovem correto e visualmente apresentável, estratégia do diretor para causar espanto ainda maior no público. Como o próprio Bates disse no final do filme, 
"Eu não poderia fazer mal a uma mosca".
A partir do momento que se tomou conhecimento do estudo do inconsciente pela psicanálise, essa tornou-se parte primordial para a crítica literária e artística. 

Ao analisar o filme "Psicose", com base na teoria freudiana do complexo de Édipo, é possível mais do que explicar o comportamento de Norman Bates como resultado de um diálogo com sua infância, mas como a fixação materna dele serviu de combustível para sua psicose.

A Psicanálise segundo Hitchcock

Hitchcock e a criação do seu filme


O que imagino sobre "Psicose", não é uma mensagem que intrigou o público, que comoveu, não é um romance de prestígio que cativou o público. O que anima o público é o cinema puro.

Essa é a frase do Hitchcock, que estava muito convicto do que disse a François Truffaut (✩1932/✞1984), na famosa entrevista recolhida em forma de livro quando se refere ao seu filme mais famoso, "Psicose".

Nasceu do interesse do realizador britânico em fazer um pequeno filme, quase uma série. O livro de Robert Bloch foi lido por Hitchcock quando ele viajava, e uma cena foi decisiva para a decisão de fazer a adaptação.

Minha análise psicanalítica despretenciosa sobre "Psicose"


Neste filme podemos ver vários princípios freudianos que se destacam. Por exemplo, podemos diferenciar os níveis da psicanálise de Freud (✩1856/✞1939) simbolizados pela casa em que Norman Bates mora.

Observamos que o primeiro andar, onde se encontrava sua mãe, equivaleria ao superego que são os valores da sociedade, no filme são as normas parentais. O andar térreo seria o Self, o lugar onde Norman vive como uma pessoa aparentemente normal.

Finalmente, o porão corresponde ao Elo, local ao qual Norman decide confinar sua mãe, e que, ao mesmo tempo, é a conexão entre os outros níveis.

Novamente esta mesma teoria é representada na cena em que Norman aparece vestido como sua mãe, seu perfil psicopático finalmente vindo à tona e o cadáver de sua mãe é descoberto. A luta do id e do self pode ser apreciada aqui.

O id (ou princípio do prazer) não aceita as normas sociais e a realidade imposta pelo self. Aplicado ao personagem, vemos como Norman não aceita a morte de sua mãe, por isso se recusa a se desfazer do cadáver, mantendo assim diálogos com ele.

Outra visão é que a mãe de Norman toma um lugar psíquico muito grande dentro dele e o faz ficar/viver dentro de seus próprios delírios, que o faz se tornar uma pessoa delirante.

"Psicose" e o Complexo de Édipo


Por outro lado, outra teoria freudiana que se destaca claramente neste filme é o complexo de Édipo. Freud descreveu sua teoria como o desejo inconsciente de ter um relacionamento com a mãe.

O complexo de Édipo ocorre em bebês do sexo masculino e o complexo de Electra em mulheres. Para eliminar o complexo de Édipo é preciso que uma série de eventos aconteçam na infância da criança mediante o carinho excessivo do filho pela mãe.

Por exemplo, no nascimento de um irmão mais novo, pois com isso a criança aprende a aceitar que sua mãe deve ser compartilhada, também quando a ela começa a reconhecer que o pai é o "dono" da mãe e que ele deve procurar uma substituta.

Relacionando este estudo de Freud a Norman, percebe-se que o jovem nunca teve com quem compartilhar sua mãe, pois ele não tinha irmãos.

Por não enfrentar adequadamente o complexo de Édipo, Norman Bates se encarregará de tudo conforme o seu gosto e dará origem a uma série de acontecimentos que surpreenderão todos os espectadores.

Conclusão


Em suma, Hitchcock fez o filme "Psicose", que de acordo com a visão psicanalista, está diretamente relacionado com o Complexo de Édipo e Id, o princípio do prazer no indivíduo.

Análise psicanalítica a parte, no entanto, Hitchcock foi surpreendentemente capaz de capturar fotos muito boas que chamaram nossa atenção. Além disso, as voltas e reviravoltas inesperadas do filme trouxeram sentimento de frustração e intriga à superfície

Acho melhor parar por aqui. Para quem não assistiu, repito, garanto que esse é um dos melhores filmes do Hitchock. Mais um pouco e eu teria contado o final do filme (eu até queria fazer isso). Contudo, deixo para vocês tirarem suas próprias conclusões quando assistirem. 

Como disse, não queria fazer apenas uma resenha, e sim uma análise diferente de Norman Bates, justamente pelo fato de que o filme já possui sua grandiosidade e reconhecimento.
  • O longa de 1960 teve uma refilmagem homônima, em 1998, sob a direção de  Gus Van Sant. Na minha opinião, foi um remake tão medíocre, que nem merece ser mencionado. Também teve uma série de streaming, baseada no filme de Hitchcock, chamada de "Motel Bates", exibida originalmente, entre 2013 e 2017, pela GloboPlay, da qual não posso nem falar, pois, nunca assisti a uma temporada sequer (não sou chegado à séries, mas, quem sabe agora eu até veja à tal série...). A única coisa que sei sobre ela, é que foi estrelada pelo mesmo ator que protagoniza outra produção famosa, também da GloboPlay, "O Bom Doutor ('The Good Doctor')", Freddie Highmore, que, de acordo com a crítica, esteve excelente no papel do conturbado Norman Bates o que teria garantido a ele o papel do médico autista.
[Fonte: Fapcom, Por Juliana Oliveira; Psicanálise Clínica; Filmov]

Ao Deus Perfeito Criador, toda glória.
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