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sábado, 24 de fevereiro de 2018

E CONHECEREIS A VERDADE... ACEITA O DESCONFORTO DO EVANGELHO?


Atualmente temos visto uma multidão de pessoas que se dizem cristãs - e/ou crentes - em busca de tudo o que Deus pode dar. O mais engraçado de tudo isso, é que essas pessoas caminham ao inverso do que as Escrituras nos ensinam. Veja:
"E será que, se ouvires a voz do SENHOR teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno, o SENHOR teu Deus te exaltará sobre todas as nações da terra... E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e só estarás em cima, e não debaixo, se obedeceres aos mandamentos do Senhor teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir. E não te desviarás de todas as palavras que hoje te ordeno, nem para a direita nem para a esquerda...  
"E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão. Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus.  
E eles [os discípulos], tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém" (Deuteronômio 28:1,13,14; Marcos 16:17-20 - grifos meus).
E o que vemos atualmente? Uma multidão descontrolada, correndo atrás de bênçãos e atrás de sinais. Ou seja, uma inversão completa dos ensinamentos do Mestre. Tais pessoas, estão em busca de um conforto que Jesus NUNCA prometeu. Não querem ser provadas, não querem lutas, não querem ser desafiadas, não querem ser confrontadas, não querem ser perseguidas... não querem morrer.
"Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem, e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos sobremaneira, pois é esplêndida a vossa recompensa nos céus; porque assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós. 
"Sabe, entretanto, disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens amarão a si mesmos, serão ainda mais gananciosos, arrogantes, presunçosos, blasfemos, desrespeitosos aos pais, ingratos, ímpios, sem amor, incapazes de perdoar, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, inconsequentes, orgulhosos, mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, com aparência de piedade, todavia negando o seu real poder.  
Afasta-te, portanto, desses também. Porque são pessoas assim que se intrometem pelas casas e conquistam mulheres insensatas sobrecarregadas de pecados, as quais se deixam levar por toda espécie de desejos. Elas estão sempre aprendendo, mas jamais conseguem chegar ao conhecimento da verdade...  
Tu, porém, tens seguido atentamente minha teologia, procedimento, propósitos, fé, paciência, amor, perseverança; observado minhas perseguições e aflições, que sofri em Antioquia, Icônio e Listra. Quantas perseguições suportei! Contudo, de todas o Senhor me livrou! De fato, todas as pessoas que almejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidas" (Mateus 5:10,11; 2 Timóteo 3:1-7, 10-12 - grifos meus).
Os pregadores da teologia da prosperidade, em seu maligno escopo doutrinário, têm ensinado aos seus discípulos um "outro evangelho" (Gálatas 1:1-12). Um "evangelho" que oferece conforto, descanso e inúmeras facilidades. Os discípulos de Janes e Jambre (2 Tm 3:8) têm feito uma legião de seguidores que se caracterizam pela espiritualidade rasa, a teologia distorcida e pela fé baseada no que se pode ver, sentir e tocar. 

São verdadeiros anões espirituais, que sobre a égide da autoajuda, a trilha sonora do egocentrismo e a repetição ensaiada de chavões e clichês, saem a caminhar numa marcha insana rumo ao despenhadeiro do desconhecimento bíblico.
"O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos" (Oséias 4:6).

Quer crescer espiritualmente? Saia agora da zona de conforto!


Aparentemente todos gostamos da ideia de crescer. Desejamos crescer espiritualmente, profissionalmente e em todas as áreas da vida. Mas quando vemos o que esse crescimento exige, muitas vezes deixamos o desejo de crescer pra lá e permanecemos estagnados onde estamos. Já parou para pensar nisso?

Quando dizemos: 
"Deus, quero ir mais fundo em ti, quero novos dons, mais intimidade contigo...".
E Ele nos mostra que para isso vamos ter que fazer coisas loucas, vamos ter que estudar mais Sua palavra, dedicar mais tempo para simplesmente estar em Sua presença, buscar mais a Ele, sair da nossa zona de conforto, sair do lugar que já conhecemos. Nós nos deparamos com isso, entendemos que é a verdade mas não a praticamos. Não temos tempo para estudar a Bíblia, para aprofundar nosso relacionamento com Deus e conhecê-lO, fazemos apenas o que nos é cômodo, confortável, e infelizmente nos contentamos em não crescer. Não lembramos que vale a pena estar no desconforto.

Sim, é exatamente isso. Crescer dói, crescer nos leva a lugares desconhecidos, nos permite nos conhecer melhor e muitas vezes não gostamos do que encontramos dentro de nós (Jeremias 17:9,10; 1 Coríntios 11:28a). Entende o que eu digo? Não importa a área da sua vida, se quiser evoluir, se quiser crescer, você terá que fazer algo a respeito. Se quer uma profissão melhor, terá que estudar mais, se especializar, criar experiência. Se quiser ser um(a) amigo(a), um(a) filho(a) um pai, um marido melhor, terá que rever o que tem feito, no que tem errado, no que pode se aperfeiçoar, terá que dedicar tempo a cada relacionamento.

Em tudo, haverá uma ação tua. Uma decisão tua de fazer o que não é tão confortável mas que vai levá-lo a outro nível. Outro nível de intimidade com Deus, outro nível de relacionamento com quem você ama, outro nível mais elevado, aquele que é acima da média, aquele que poucos alcançam por terem medo ou preguiça de dar os primeiros passos rumo ao novo, ao desconhecido, ao que não é comum, ao incerto.

Ficar no confortável não nos deixa crescer em nada! Lembre-se disso. Se você realmente deseja chegar naquele lugar incrível, se mexa, faça tudo o que estiver ao seu alcance, mesmo que te custe mais do que esperava. Vai valer a pena! Se nós permanecermos fazendo as mesmas coisas nós nunca alcançaremos resultados diferentes!


Conclusão


Para concluir esse pensamento deixo contigo as palavras sábias que encontrei no Dunamis Movement
"Talvez a coisa mais incrível e radical que você possa fazer seja começar. Muitas vezes a nossa expectativa do que está por vir nos paralisa. Enchemos nossa cabeça com 'e se' e, quando vemos a incerteza nos imobilizou. 
Nestes momentos precisamos tomar uma atitude radical: confiarmos na palavra de Deus e darmos um passo de fé, mesmo que o chão ainda não esteja na nossa frente. Esteja certo de que quando você ousar começar, Deus te dará todas as ferramentas necessárias para chegar até o fim (grifo meu)."

Creia nessa palavra e dê hoje mesmo seu passo de fé rumo ao crescimento, ao desconfortável que por hora pode parecer loucura mas que certamente te levará a viver mais, muito mais!
  • Escrevi sobre esse assunto ➫ aqui.
A Deus toda glória.
Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://circuitogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade.
E nem 1% religioso.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

DISCOS QUE EU OUVI - ESPECIAL: OS 30 ANOS DO ÁLBUM "A REVOLTA DOS DÂNDIS" - ENGENHEIROS DO HAWAII




Eu não nasci no Rio Grande do Sul, então, não por  natureza eu defendo a banda - na verdade, o trio - Engenheiros do Hawaii, assim como a maioria das bandas do chamado "rock gaúcho". Engenheiros, Nenhum de Nós, Bidê ou Balde, Wander Wildner, fizeram parte da exposição do melhor que o rock nacional apresentou no cenário musical à partir da aclamada década de 1980, os meus dourados anos 80.

É daquelas coisas que as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos ouviam, que os pais tinham os discos pela casa, que as galeras cantavam em rodas de violão. Mas mais que isso, eram artistas que vira e mexe faziam shows pelas nossas cidades, pois eles iam para todas as bibocas dos estados.

"A Revolta dos Dândis" 


já mostra sua tratativa de erudição logo no título, retirado do livro "O Homem Revoltado", de Albert Camus. 

Dândi, no século XVIII, seria aquele sujeito de muito bom gosto e inteligência, porém, que não pertencia à nobreza. Nessa auto-proclamação da banda como "os dândis do sul", a crítica jogou pedras no que chamou de elitização de suas composições e citações. 

Há realmente no disco e na obra posterior da banda uma busca constante por o que se chamaria de "alta cultura", buscando essa intersecção entre o pop rock e todas essas referências. É um cenário muito próximo do que Caetano Veloso sempre expressa em suas canções e que também é visto por muitos como um pedantismo e uma arrogância de intelectualóides. 

De qualquer forma, já em seu disco de estreia, "Longe Demais das Capitais" (1986), os Engenheiros já demonstravam essa verve literária, comunicando-se com a obra de Umberto Eco e John Donne, portanto é natural que aqui eles flertem com Camus, por exemplo.


"Eu me sinto um estrangeiro..."


"O Estrangeiro", é o romance mais conhecido de Albert Camus, foi lançado em 1942, tendo sido traduzido para mais de quarenta línguas e recebido uma adaptação cinematográfica realizada por Luchino Visconti em 1967.

Faz parte do "ciclo do absurdo" de Camus, trilogia composta de um romance (L'Étranger), um ensaio (Le mythe de Sisyphe - O mito de Sísifo) e de uma peça de teatro (Calígula) que descrevem o aspecto fundamental de sua filosofia : o absurdo.
Albert Camus

Influenciado pela filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre, apesar de Camus rejeitar tal rótulo para seu romance, o livro mostra o personagem Meursault. A princípio um ser indiferente ao mundo e às coisas a sua volta – mesmo se estas tais coisas alterem o rumo de sua vida – e que só ao final passa por uma tomada de consciência.

Na filosofia de Sartre o homem primeiro existe e depois se define, ou em suas palavras 
"A existência precede a essência e a governa". 
O homem seria livre para fazer suas escolhas e até a falta de decisão já caracteriza uma escolha.
Da esquerda para a direita: Carlos Stein, Carlos Maltz
e Humberto Gessinger

Do primeiro disco para o segundo, o caminho não demorou a ser escolhido, e não foi uma estradinha qualquer e sim uma auto-estrada: 'Infinita Highway'. Essa música é uma das minhas preferidas de todos os tempos e gêneros e mostra uma sonoridade que seria a marca registrada do grupo, juntamente com as letras sonoras e sarcásticas. 

"...Hey mãe! Eu tenho uma guitarra elétrica..."


O trio gaúcho começou quase por acaso, montado para participar de um festival da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Humberto Gessinger (voz e guitarra), Carlos Stein (guitarra), Marcelo Pitz (baixo) e Carlos Maltz (bateria) eram estudantes de arquitetura e o ano era 1985.

O nome era uma provocação aos estudantes de engenharia da UFRGS, e é apenas mais um capítulo na eterna rixa entre estudantes de arquitetura e de engenharia. E o que era para ser apenas uma brincadeira acabou caindo no gosto do público de Porto Alegre e as oportunidades surgiram, culminando com a gravação do primeiro álbum já em 1986.


Dândis revoltados


O segundo álbum dos Engenheiros do Hawaii "A Revolta dos Dândis", lançado em 1987, mostra uma sonoridade bem diferente daquela mostrada no primeiro disco, com toques de rock progressivo, de rock alternativo e reminiscências sessentistas, além das letras críticas com rimas sonoras que considero deliciosas, além também, como já dito anteriormente, de uma forte influência da filosofia existencialista de Jean Paul Sartre e dos livros de Albert Camus. Coisa de nerds? É, pode ser! Obrigado pela parte que me toca.
O nome do álbum, e de duas de suas músicas, foi tirado do livro "O Homem Revoltado" de Camus, onde dá nome a um dos capítulos. Camus aparece também em várias referências a "O Estrangeiro". Sartre aparece em 'Infinita Highway' com a frase 
"a dúvida é o preço da pureza"
e tome mais existencialismo em 
"Mas não precisamos saber pra onde vamos / Nós só precisamos ir..."
da mesma música.

Podemos também encontrar ecos de um dos ídolos de Humberto Gessinger, o angustiado e atormentado baixista do Pink Floyd, Roger Waters. 

Enfim um álbum de um grupo que se destacou da maioria de seus contemporâneos e que considero um dos melhores do rock brasileiro e ao qual sempre recorro para pinçar algumas de suas marcantes frases como: 
"Só me acorde quando o sol tiver se posto" 
Elitistas ou intelectualóides, o fato é que os Engenheiros se comunicaram de forma certeira com o público médio e tocaram nas rádios de todo o país. Grandes hits como "Infinita Highway", "Terra de Gigantes" e "Refrão de Bolero" aparecem aqui e se tornaram clássicos da banda e da década de 1980. 

Com um pano de fundo que deixava latente as tensões da Guerra Fria e de uma democracia recém-nascida no Brasil, é curioso como aquele deslocamento e toda a tensão do disco segue extremamente atual, pois seguimos sendo "estrangeiros, passageiros de algum trem", portanto, é natural que as composições do jovem Humberto (na época com 22 anos) ainda reverberem nos fones de ouvido dos adolescentes. Pelo menos dos que têm o bom gosto e o bom senso que os levem além do famigerado funk e seus abomináveis ícones.

Essa não-participação, esse distanciamento é verdadeiramente comunicável com a nossa juventude, seja na década de 80, seja na atualidade. E, para aqueles que moram distantes do eixo Rio-São Paulo, é sempre reconfortante ouvir a banda que mora longe demais das capitais.

Conclusão


As contracapas do disco na versão vinil (esq) e CD (dir).
Para terem noção da atemporalidade do disco, é só saber que 'Terra de Gigantes' é um sucesso na trilha da novela infantil "Cúmplices de um Resgate" (2015/16), do SBT, onde foi cantada pelo dublê de ator e cantor João Guilherme, pequeno astro teen que é filho do cantor sertanejo Leonardo.

Quem diria que o disco chamado de pretensioso e, até mesmo, fascista, ainda ressoaria em novelas infantis 30 anos depois? Para alguns, isso é apenas sinônimo de que já vivemos no futuro distópico que os sci-fis dos anos 80 previam, mas acredito que isso é apenas a representação de que precisamos abandonar o preconceito e olhar novamente para os Engenheiros do Hawaii com bom coração. 

Humberto Gessinger e companhia têm seus tropeços e há momentos em que não ousaria defendê-los – por exemplo, em seu novo EP, Humberto faz parceria com Tiago Iorc -, mas o fato é: as bobagens de uma carreira tão longa como a do Humberto não podem macular o que de fato é um disco de qualidade.

"A Revolta dos Dândis" é fundamental para muita gente e tem uma importância inegável para o rock nacional. Para o rock gaúcho, então, é uma "bíblia" tão básica quanto Os Replicantes. Aproveitem a celebração de aniversário do disco para uma revisão, pois em seu universo oitentista há um olhar interessante e sagaz sobre cultura pop, sociedade moderna e um existencialismo que ainda diz muito sobre o nosso tempo. Ouçam sem pré-julgamentos.

O trio que gravou esse disco é composto por: Humberto Gessinger (voz e baixo), Augusto Licks (guitarra) e Carlos Maltz (bateria).
  • Curiosidades 
O formato LP desse disco apresenta também algumas curiosidades, como por exemplo a letra da música 'Sweet Gardênia', que segundo Carlos Maltz (baterista e fundador da banda) nunca chegou a ser gravada.
'Sweet Gardênia' (Letra): 
Ele trabalhava num posto de gasolina
Ela era a filha mais belaDa família mais finaUm dia eles se encontraramNuma dessas esquinasE nada aconteceu(Nada aconteceu) 
Ele trabalhava o dia inteiro na oficina
Ela ficava em casa(Casa com piscina)Um dia eles se encontraram(Um dia de neblina)E nada aconteceu(Nada aconteceu)
O encarte do LP apresenta também erro na letra da música 'Infinita Highway', no trecho cantado por Humberto Gessinger a letra é a seguinte: 
"Cento e dez, cento e vinte, cento e SESSENTA só pra ver até quando o motor aguenta..."
Porém, no encarte do LP (e também no encarte do CD) a letra é a seguinte: 
"Cento e dez, cento e vinte, cento e QUARENTA só pra ver até quando o motor aquenta..." 
  • Faixas
Todas as faixas compostas por Humberto Gessinger, exceto a indicada. 
  • Clique ➫ aqui e ouça o disco completo.
Lado A
  1. A Revolta dos Dândis I
  2. Terra de Gigantes
  3. Infinita Highway
  4. Refrão de Bolero
  5. Filmes de Guerra, Canções de Amor
Lado B
  1. A Revolta dos Dândis II
  2. Além dos Outdoors
  3. Vozes
  4. Quem Tem Pressa Não Se Interessa (Humberto Gessinger; Carlos Maltz)
  5. Desde Aquele Dia
  6. Guardas da Fronteira
Ah, sim o carimbo, claro:
A Deus toda glória.
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VINGANÇA, UM "PRATO" QUE NÃO ENTRA NO CARDÁPIO DO CRISTÃO



As três tramas da tele-dramaturgia exibidas pelas Rede Globo "Tempo de Amar" (18h:00), "Deus, Salve o Rei" (19h:00) e "O Outro Lado do Paraíso" (21:00h), trazem como principal mote o tema vingança. Principalmente a trama do horário nobre. 


"O Outro Lado do Paraíso"


Todo o enredo da novela de autoria de Walcyr Carrasco gira em torno do plano de vingança da personagem Clara, interpretada pela atriz Bianca Bin, contra seus algozes: o psiquiatra Samuel (Eriberto Leão), o delegado Vinícius (Flávio Bertolazi), o juiz Gustavo (Luís Melo), que foram liderados pela pérfida Sofia de Montserrat (Marieta Severo), em uma jogada para roubar as minas de esmeraldas da mocinha vingadora. 

Grande parte dos lares brasileiros (e aqui incluo os de muitos cristãos) tem estado diariamente diante das telas de seus televisores vibrando com essa verdadeira doutrinação sobre vingança. Mas será que alguém se interessa em saber os ensinamentos da Bíblia sobre isso?

O único lado da Bíblia


O Salmo 23 é um dos textos mais lidos de toda a Bíblia (em conjunto com o 91, claro). Há irmãos que nunca leram um único livro completo, mas já leram o Salmo 23 inúmeras vezes. Muitos, inclusive, já o sabem de cor. Há outros que sequer abriram a Bíblia noutra página, pois ela permanece na estante, aberta no Salmo 23 (e/ou no 91, claro).

A doutrina da vingança X o amor de Deus


É muito fácil explicar a razão por este salmo ser tão lido e querido: Ele nos coloca pra cima, nos dá garantia de conforto em Deus, fala de socorro e prosperidade. Há também algo bem interessante expresso nesse salmo, algo que inspira canções e influencia boa parte da atual geração de crentes. Ele diz assim:
"Preparas um banquete para mim à vista dos meus inimigos. Tu me honras, ungindo a minha cabeça com óleo e fazendo transbordar o meu cálice" (5 – NVI).
Obviamente a Bíblia não se contradiz e esse texto está perfeitamente em sintonia com seu contexto. Em tempos da Lei, como bem sabemos, imperava a justiça, pois a Lei é justa.

Dessa forma, ao ser ferido, era justo que meu agressor sofresse o mesmo dano. Ele que se exilasse caso desejasse livrar-se da minha justa vingança. Olho por olho, dente por dente.

Além disso, os inimigos de Israel, à medida que esta nação permanecia fiel, eram derrotados pelas mãos de Deus, humilhados e despojados. Nisso tudo a Soberania de Deus era revelada, e era justo (Levíticos 21).

É disso que fala o salmista. Seus inimigos seriam ridicularizados enquanto ele seria abençoado com um banquete e prosperidade. Nesse contexto, seus inimigos estavam em estado de afronta contra Deus, por se levantarem contra seu povo, e por isso recebiam a justa punição.

Esta questão de "amigos" e "inimigos" de Deus, no Antigo Testamento, é mais complexa que isso, mas tento aqui apenas tornar mais claro o que começo a dizer a partir de agora.

Sob o contexto da graça de Deus


Enfim, com Cristo algo acontece. A misericórdia de Deus que sempre foi perfeita, se apresenta encarnada em Cristo. O justo morrendo pelo pecador. Deus perdoando aqueles que não mereciam perdão, pela sua Graça, de graça, por amor incondicional. 

Diz a Bíblia que:
"Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos" (Efésios 2:4-5 – NVI, grifo meu).
Entenda bem o que isso significa: Nós, que éramos inimigos de Deus, rebeldes, impuros, amantes de tudo que era contrário a Deus, fomos por Ele perdoados sem que déssemos a mínima para isso! Ele não poupou seu Único Filho para que nós, sendo ainda pecadores, pudéssemos ser perdoados e salvos!

E o que Jesus fala a respeito de nossos inimigos? Ele por acaso ensina que reivindiquemos vingança? Ou que oremos a Deus pedindo juízo? Quem sabe uma súplica para que Deus os ridicularize em nossa presença, como vemos ensinado em algumas canções? Bem, para tirar a dúvida, Cristo está com a palavra:
"Vocês ouviram o que foi dito: 'Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo'. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês" (Mateus 5:43-48 – NVI, grifo meu).  
"Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: 'Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam.' Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica" (Lucas 6:27-29 – NVI, grifo meu).
Paulo acrescenta:
"Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou" (Colossenses 3:13 – NVI, grifo meu).
E como foi que o Senhor nos perdoou? Sem merecimento. Nós não merecíamos o perdão de Deus!

Como pode então agora, em plena Graça, tendo recebido tão grande amor, misericórdia e perdão, nós venhamos desejar a ruína de nossos inimigos? Como podemos agora pedir a Deus que faça vingança, que os ridicularize ou que traga juízo sobre suas cabeças?

Não! Esse não é o espírito do verdadeiro cristão! O cristão perdoa! O cristão suplica a Deus que tenha misericórdia de quem o ofende!

Que parada é essa de eu estar no palco sendo aplaudido pelos meus inimigos? Que história é essa de Deus preparando uma mesa para mim perante meus inimigos? Estamos loucos? Esquecemos como fomos perdoados (Leia o artigo sobre a música "Sabor de Mel".)?

O mínimo que se espera de qualquer cristão é que ele também perdoe seus ofensores. Foi esta a oração que Jesus nos ensinou, que Deus nos perdoe "assim como perdoamos nossos inimigos".

Já imaginou se Deus resolvesse nos perdoar conforme nós perdoamos as outras pessoas? Seriamos fulminados! Irmão, fuja dessa sede de vingança, isso não condiz com o espírito cristão, pois no final de tudo, considerando todas as coisas, o que nos fará sermos reconhecidos como discípulos de Cristo é o amor que temos pelas outras pessoas (João 13:35).

Lembre sempre que nossos inimigos não são as pessoas e peça misericórdia (Ef 6:12), não juízo, e deseje o bem, não o mal, e busque comunhão, não a afronta.

Conclusão


"Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: 'A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor'" (Romanos 12:19). 
Através do texto de referência desse artigo, podemos ver que Deus não é a favor dos que "fazem justiça com as próprias mãos", é uma exortação para que o cristão espere com paciência, pois dEle é a vingança e Ele sabe agir no momento certo, pois é o único que tem como atributos a onipotência, onisciência e onipresença. E, se engana muito quem pense que a vingança de Deus significa a destruição, a aniquilação de alguém. Tudo em Deus está permeado pelo amor.
"Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto" (Salmos 89:14, grifo meu).
A recomendação que temos é: 
"Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" (Gálatas 5:14).
Esse é um mandamento que replica qualquer indagação, pois amar quem me ama é fácil, o desafio é amar a todos, mesmo sabendo que porventura alguém queira o meu mal.

A raiz da vingança é o próprio pecado, quando o cristão dá vazão a esse sentimento, é porque o 'velho homem' não morreu completamente, ou seja, ainda continua praticando os mesmos atos que outrora fazia antes de confiar a vida em Deus.

No livro de Provérbio, capítulo 20 e versículo 22, consta: 
"Não digas: 'vingar-me-ei do mal', espera pelo Senhor e ele te livrará." 
Mais uma vez Deus pede para que o indivíduo não se vingue e nem retribua o mal com o mal, mas pelo contrário, pede para que apenas descanse e aguarde a recompensa do ímpio.

Portanto de nada adiantará o homem querer fazer justiça com as próprias mãos, pois como foi mencionado nas referências que aqui foram citadas, a vingança pertence somente a Deus, Ele será íntegro na hora de julgar as causas cometidas por cada um.

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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

E CONHECEREIS A VERDADE...: "A MORTE ESPIRITUAL DE JESUS"


A doutrina que mais sofreu com interpretações equivocadas no decorrer da história da Igreja foi, sem sombra de dúvidas, a cristologia. Temos os primeiros indícios desses transtornos em uma das epístolas joaninas, ao nos depararmos com uma defesa da dupla natureza de Cristo, diante dos gnósticos que negavam a encarnação do verbo (1 João 4:1-3). 


As polêmicas sobre a natureza de Cristo


A discussão sobre a natureza de Cristo perdurou alguns séculos da era cristã. Ário, por exemplo, negava a divindade de Jesus e dizia que Ele era uma criação, ainda que a mais sublime. Tal controvérsia foi debatida no Concílio de Niceia, em 325 d.C., mas só foi solucionada definitivamente em Constantinopla, no ano de 381 d.C..

Apesar do desfecho triunfante sobre o arianismo em Constantinopla, uma nova heresia surgiria meio século depois. Dessa vez, a controvérsia cristológica tomaria nova versão em Nestório, que fora empossado como patriarca de Constantinopla em 428 d.C.. Ele dizia que, em Jesus, havia duas pessoas distintas e independentes, uma humana e outra divina. Suas ideias foram rebatidas e anatematizadas no Concílio de Éfeso em 431 d.C..

Em suma, podemos definir assim os três concílios supracitados: 
  • Niceia afirmou: Jesus é Deus;
  • Constantinopla, por sua vez, declarou: Jesus é também plenamente homem;
  • e finalmente Éfeso concluía com a união hipostática: Ele é plenamente Deus e plenamente homem, são duas naturezas integradas em uma única pessoa, a saber, Jesus Cristo.
Além das controvérsias sobre a natureza de Cristo, houve alguma discussão sobre a expiação. Alguns diziam, equivocadamente, como foi o caso de Orígenes, que a expiação de Cristo fora um resgate pago a satanás. Outros defenderam uma teoria mística, afirmando que Jesus venceu a própria natureza pecaminosa e que o conhecimento deste triunfo despertaria o ser humano. Isso sem contar aqueles que reduziram a expiação a um mero exemplo ou a uma influência moral.

Uma heresia contemporânea vinculada à expiação pode ser encontrada nos círculos do movimento neopentecostal. Proponentes como Kenneth Hagin, Kennet Copeland e Valnice Milhomens ensinam que a expiação de Cristo só teria efeito pleno caso o Salvador morresse espiritualmente. Tal assunto tem sido palco de muitas dúvidas e confusões no meio evangélico, de modo que carece de maiores esclarecimentos. Diante do exposto, cabe as indagações: 
  • Jesus morreu espiritualmente?
  • Quais são os pressupostos para tal doutrina?

A absurda doutrina da morte espiritual de Jesus


A ideia de que Jesus morreu espiritualmente é baseada em textos como 2 Coríntios 5:21; Mateus 27:46; Atos 13:33 e principalmente Salmo 16:10; Romanos 10:6,7; Efésios 4:8-10; e 1 Pedro 3:18-20; 4:6. O biblicista Paulo Romeiro resume essa doutrina da seguinte forma:
"(…) ao morrer na cruz, Jesus recebeu uma natureza satânica, foi feito pecado, desceu ao inferno em nosso lugar e lá foi atormentado três dias e três noites pelo diabo. 
Jesus teve que morrer espiritualmente para pagar pelos pecados do homem no inferno, pois sua morte física e seu sangue derramado na cruz foram insuficientes para fazer a expiação. 
Depois de três dias no inferno, Jesus nasce de novo e derrota os poderes das trevas, completando no inferno a expiação que havia começado na cruz. 
O Jesus nascido de novo ressuscita e é elevado à mão direita do Pai. Hoje ele tem poder para devolver à Igreja tudo o que ela havia perdido para o diabo através da queda de Adão e Eva."
Apesar das palavras assustadoras, podemos ver que Romeiro não está errado, visto que seus proponentes realmente fazem declarações consistentes com o que acabamos de ler. Kenneth Hagin, por exemplo, disse:
"Seu espírito, seu homem interior, foi para o inferno em nosso lugar (…) A morte física não removeria os nossos pecados. Provou a morte por todo homem — a morte espiritual (…) A morte espiritual significa mais do que a separação de Deus. 
A morte espiritual significa ter a natureza de satanás (…) Jesus se fez pecado. Seu espírito foi separado de Deus, e Ele desceu para o inferno em nosso lugar (…) Lá embaixo na masmorra do sofrimento — lá nos fundos do próprio inferno — Jesus satisfez as reivindicações da Justiça para todos nós (…) Deus no céu disse: 'É suficiente'. Depois, O ressuscitou. Trouxe seu espírito e alma para cima, tirando-os do inferno" (grifos meus).
Kenneth Copeland, outro propagador do mesmo ensino comentou: 
"Uma vez que ele [Jesus] foi feito pecado, ele teve que pagar a pena pelo pecado. Teve de morrer espiritualmente, o que o levou às regiões dos perdidos, antes que ele pudesse nos redimir (…) Quando seu sangue foi derramado, ele não fez expiação" (grifos meus).
Além dos dois proponentes já citados, vale citar uma representante nacional. Romeiro conta que Valnice Milhomens, fazendo um comentário de Isaías 53:9 durante um programa de televisão, afirmou que a palavra "morte", no texto original, está no plural  "mortes"  o que significaria que Jesus morreu duas vezes, física e espiritualmente.

Complementando todas essas informações, podemos citar E. W. Kenyon, o qual explica que a morte espiritual é "a natureza do adversário" e que, através dessa morte, Jesus se identificou com a humanidade. Segundo ele, Jesus tinha um corpo imortal e divino, não era como o corpo humano. Para que o sacrifício de Cristo fosse eficiente e eficazmente substitutivo, Jesus deveria morrer primeiro espiritualmente. "Era um corpo que não podia morrer até que o pecado possuísse o Seu espírito".

Jesus morreu espiritualmente?


Essa deveria ser uma pergunta retórica, visto que a Bíblia não abre nenhuma margem para uma resposta positiva. Apesar da obviedade, algumas interpretações inconsistentes têm sido propagadas e gerado dúvidas e confusões. Inequivocamente, Jesus não pode ter morrido espiritualmente e as razões são mais do que óbvias, conforme será explicado doravante.

Uma das argumentações para a suposta morte espiritual de Jesus é a de que a ressurreição de Cristo deveria ser diferente das demais ocorridas no Novo Testamento, visto que o próprio Jesus operara três ressurreições. Entretanto, a diferença entre a ressurreição de Cristo e as de Lázaro, do filho da viúva de Naim e da filha de Jairo é que estes morreriam novamente, pois foi uma ressurreição para esta vida, ao passo que Aquele, primícias dos que dormem, foi o primeiro a vencer a morte eternamente.

Os defensores da morte espiritual de Cristo desejam mostrar que, para que a expiação de Cristo fosse eficaz, Ele deveria morrer espiritualmente. O problema desta ideia é que "morte espiritual" pressupõe pecaminosidade. Portanto, Jesus teria que ter pecado para morrer espiritualmente. Lembrando as palavras supracitadas de Kenyon: 
"Era um corpo que não podia morrer até que o pecado possuísse o Seu espírito".
O pastor Mez McConnell explica que essa crença é uma interpretação grosseira do sacrifício substitutivo, cuja plataforma está em 2 Coríntios 5:21. Os sacrifícios realizados no Antigo Testamento tipificavam o que Jesus faria por nós, mas tais animais deveriam ser sem defeitos (cf Levíticos 4:3, 23, 32). 
"A pessoa que apresentava essas ofertas santas colocava a sua mão sobre os animais para simbolizar a transferência de seu pecado e culpa (4:4, 24, 33). Essa transferência de pecado era simbólica e não literal". 
McConnell assevera que 
"o animal sacrificial não se tornava pecado; o pecado era-lhe simbolicamente atribuído".
A teoria da expiação dos proponentes neopentecostais ainda não foi nomeada, mas pode facilmente ser catalogada como "teoria da identificação". Assim como muitas teorias sobre a expiação não encontraram respaldo bíblico e foram consideradas como heréticas, a ideia de que Jesus se identificou com a humanidade e morreu espiritualmente segue a mesma trilha.

A Bíblia mostra que o salário do pecado é a morte (Rm 6:23) e que toda humanidade pecou e está destituída da glória de Deus (3:23). Portanto, para que Jesus morresse espiritualmente, teria que ter pecado, o que contradiz a própria Escritura: 
"Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado" (Hebreus 4:15 — grifo meu).
Pedro também disse: 
"(…) sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo (…)" (1 Pe 1:18,19 — grifo meu). 
Não obstante, tal ideia vai de encontro com o que Paulo declarou: 
"Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus" (1 Co 5:21 — grifo meu).
O que dizer da natureza diabólica? Teria Jesus assumido em sua suposta "morte espiritual" a natureza de satanás? O próprio Cristo contradiz tal hipótese: 
"Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo, e ele nada tem em mim" (Jo 14.30 — grifo meu).

Jesus desceu ao inferno?


Para dar mais sentido à "teoria da identificação", seus proponentes afirmam que Jesus desceu ao inferno e que foi atormentado pelo diabo por três dias. De acordo com eles, somente depois de ter cumprido essa pena — que seria nossa — é que Jesus pregou aos espíritos em prisão, tomou as chaves das mãos do diabo e foi, em seguida, ressuscitado.

Apesar dessa ordo resurrectio proposta pelos defensores da morte espiritual de Cristo, o clássico texto petrino sobre a descida de Jesus ao hades é claro ao afirmar que Cristo morreu na carne, e não no espírito, e que foi vivificado antes de pregar aos espíritos em prisão, o que deixa um problema significativo para a interpretação de que Jesus ficou no hades sendo torturado ou pagando pelos nossos pecados:
"Porque também Cristo morreu uma só vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; sendo, na verdade, morto na carne, mas vivificado no espírito; no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão" (1 Pe 3:18,19 grifo meu).
Sheol/Hades é uma esfera de divisão territorial dicotômica — salvos e perdidos (cf Mt 11:23; 16:18; Lc 10:15; 16:23; At 2:27,31), sendo que o espaço daqueles é chamado de "Paraíso" e "Seio de Abraão". Ambos os territórios são separados por um "grande abismo" (Lc 16:26), mas quando Jesus subiu aos Céus, levou consigo os ocupantes do Paraíso (Ef 4:8-10), deixando o Sheol/Hades intacto.

O reverendo Heber Campos explica o significado da expressão "vivificado no espírito" em uma excelente abordagem sobre a "descendit ad inferna". O texto é um dos mais interessantes sobre o assunto, e esgota-o completamente. Vejamos o que diz o texto:
"A expressão 'vivificado em espírito', que possui similares em outros textos da Escritura, diz respeito à vitória de Cristo na ressurreição, combinando-se com o que Paulo diz em 1 Timóteo 3:16. 
Todavia, neste texto específico de 1 Pedro 3:19, o espírito vivificado ou vivificador pode ter mais significado se o entendermos como a natureza divina do Redentor, antes de ele encarnar-se. 
Ele vivia nesse estado de poder e não-limitação que contrasta com o estado de fraqueza em que esteve nos dias de sua carne, e foi neste tempo de não-limitação que ele foi e pregou aos espíritos em prisão, quando estes viviam no tempo de Noé".
Outro texto utilizado para incrementar a descida ao hades é Lucas 23:43. Tradicionalmente, quem coloca uma vírgula no versículo em questão o faz com o intuito de defender o sono da alma, isto é, um estado de inconsciência post mortem. Todavia, os proponentes da "teoria da identificação" o fazem porque ficam em apuros. 

Se Jesus disse "hoje estarás comigo no paraíso", como conciliar a ideia de que Cristo ficou padecendo três dias no Hades? Por isso pegam emprestada a ideia das Testemunhas de Jeová e dos Adventistas do Sétimo dia, que traduzem Lucas 23:43 da seguinte forma: 
"Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso".
Tal texto é muito bem interpretado por Willian Hendrikssen, o qual explica que o ex-ladrão fazia um pedido com expectativa longínqua, ao passo que Cristo mostra-lhe a instantaneidade de sua obra salvífica. Não era necessário aguardar muito tempo, a resposta era pontual: "hoje estarás comigo no paraíso". A vírgula é descabida e só serviu para os defensores da morte espiritual de Cristo darem um "tiro no pé".

É mister entender que Jesus não desceu ao inferno e tampouco tomou chaves das mãos do diabo. A ideia de que o inferno é um local governado por satanás e que ele atormenta pessoas num caldeirão não passa de mera crendice popular. Não tem apoio bíblico. Inferno (geena no grego) é o local de tormento eterno (Mt 5:22,29,30) e é identificado com o lago de fogo (Apocalipse 20:14,15). Jesus desceu ao hades, correspondente grego de sheol (hebraico). Hades é um lugar temporário, enquanto geena é definitivo.


Conclusão


A doutrina chamada neste artigo de "teoria da identificação" afeta seriamente a cristologia e com maior perigo sua subárea, a expiação. Afirmar a morte espiritual de Cristo é, além de uma heresia, uma ideia blasfema. Tais ensinos não combinam com a ortodoxia e devem ser rejeitados pela comunidade cristã.

O sacrifício de Cristo na cruz foi suficiente e eficiente, pois Ele (Jesus), 
"subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte [física], e morte de cruz" (Fp 2:6-8).
Por falar em cruz, foi lá mesmo que Jesus riscou 
"o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário"
removendo-o do meio de nós. Ainda na cruz, Jesus despojou "os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou" (Colossenses 2:14,15). 
Finalmente, na cruz, o Redentor declarou decisivamente: 
"Está consumado!" (Jo 19:30).

[Fonte: REILY, Duncan. A História da Igreja. Imprensa Metodista, 1993, p.46; ROMEIRO, Paulo. Supercrentes. Mundo Cristão, 1996, p. 58; HAGIN, Kenneth. O Nome de Jesus. Graça Editorial, 1988, pp. 25-28; KOPELAND Apud ROMEIRO, Paulo. Op. Cit., p. 59; ROMEIRO. Op. Cit., pp. 60,61; KENYON, E. W.. Realidades da nova criação: uma revelação da redenção. [s.n.: s. d.], pp.; HENDRIKSSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Lucas. Cultura Cristã, 2003, volume 2, pp. 658,659; RHODES, Ron. Resposta às seitas. CPAD, 2001, pp. 249,250.]

A Deus toda glória. 
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E nem 1% religioso.

OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DO CRISTIANISMO - 3) PERDÃO: CINCO VERDADES SOBRE O PERDÃO







Desentendimentos, brigas, separações e mágoas acontecem todos os dias pela falta de perdão. O perdão só existe porque, como vimos, todos nós podemos cometer erros, e sem ele, seria impossível mantermos relacionamentos saudáveis com as pessoas. 

No entanto, apesar de ser tão importante, perdoar não é nada fácil, principalmente para quem não segue o que a Palavra de Deus diz. Por isso, eu resolvi escrever cinco verdades bíblicas sobre o perdão. Em um primeiro momento, elas podem nos confrontar, mas, depois, vão nos direcionar para fazer a coisa certa: 

1) Perdão não é uma opção 


É comum escolhermos o que vamos perdoar, baseados naquilo que acreditamos ser "perdoável" ou não. Algumas pessoas acreditam, por exemplo, que quando alguém comete o mesmo erro conosco mais de uma vez, não merece ser perdoada. Então elas criam uma espécie de "escala de perdão". Mas a Bíblia nos mostra que perdoar não é uma opção, mas uma ordem de Deus. Veja o que Jesus escreveu: 
"Tomem cuidado. Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe. Se pecar contra você sete vezes no dia, e sete vezes voltar a você e disser: 'Estou arrependido', perdoe-lhe" (Lucas 17:3,4). 

2) Perdão não é um sentimento 


Sentir vontade de perdoar é muito bom. Mas a verdade é que quase nunca isso acontece, não é mesmo? Se analisarmos os nossos sentimentos, encontraremos raiva, mágoa e desejo de vingança em nosso coração. Por isso a Bíblia nos mostra que o perdão não deve ser fruto da emoção, e sim da razão. 

É claro que o sentimento pode estar envolvido no ato de perdoar, mas, se não estiver, a razão tem que prevalecer. Quando Pedro perguntou a Jesus sobre o quanto devemos perdoar, Ele deu uma resposta impactante: 
"Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: 'Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?'. Jesus respondeu: 'Eu lhe digo: não até sete, mas até setenta vezes sete'" (Mateus 18:21,22). 
Só conseguiremos cumprir esse mandamento se tivermos uma vontade racional de perdoar e de agradar a Deus. Se formos levados pela emoção, não conseguiremos perdoar nem uma vez, quanto menos setenta vezes sete! 

3) Perdão fingido não é perdão 


Fingir o perdão é algo que muitas pessoas fazem, pois torna as coisas mais "fáceis". Eu mesmo já fingi ter perdoado uma pessoa só porque precisava continuar convivendo com ela. Mas depois de um tempo, Deus me mostrou que eu ainda não tinha perdoado, porque não era algo verdadeiro, vindo do meu coração. Então, eu chamei a pessoa e liberei o meu perdão com sinceridade. 

(Se você está sempre criticando e apontando os defeitos do outro, este é um sinal de que você ainda não perdoou esta pessoa). 

4) Perdão não é esquecer 


Conheço muitas pessoas que não liberam o perdão por acharem que, por elas se lembrarem do que ocorreu, significa que não houve o perdão. Mas, se nos basearmos nesse modo de pensar, nunca conseguiremos perdoar ninguém! Quando somos agredidos ou ofendidos de alguma forma, o nosso cérebro guarda aquelas informações tão intensamente, que dificilmente nos esqueceremos um dia. 

Então, quando você perdoa, não significa que você esqueceu o que o outro fez com você, mas sim de que você não leva mais em conta. Quem perdoa, se lembra do que aconteceu, mas também se lembra que decidiu liberar perdão e isso traz paz ao coração. Veja o que Deus disse para o povo de Israel: 
"Eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados" (Jeremias 31:34). 
Essa passagem diz que Deus não se lembrará mais dos pecados daquele povo, mas eu te pergunto: Será que o Deus Todo Poderoso pode se esquecer de alguma coisa? É claro que não! Ele sabe de tudo! Com isso, o texto mostra que Deus não os culpa mais pelos pecados confessados, pois Ele já os perdoou. Ou seja: Ele não leva mais em conta o que fizeram de errado. 

5) Deus não aprova a falta de perdão 


Mesmo diante de todas essas verdades citadas aqui, existem muitas pessoas que ainda não estão dispostas a perdoar. O problema é que essa decisão coloca essas pessoas diante do julgamento de Deus. Jesus disse: 
"Se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas" (Mateus 6:14,15). 
Pode parecer terrível, mas Deus não perdoa aqueles que não querem perdoar, pois Ele demonstrou o maior ato de perdão, ao enviar Seu Filho para sofrer e morrer na cruz por nós, mesmo nós sendo tão pecadores! Por isso, a falta de perdão pode trazer muitas coisas ruins. Ela nos leva para longe da presença do Senhor e abre brechas para que o inimigo atue em nossas vidas. Em Isaías 59:2 está escrito: 
"As suas maldades separaram vocês do seu Deus; os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele, e por isso ele não os ouvirá"
Essa é uma das razões porque tantas pessoas sofrem com doenças físicas e emocionais... A falta de perdão e o distanciamento de Deus geram uma ferida espiritual muito grande na pessoa, que tende a aumentar com o passar do tempo. 

Conclusão 


Diante dessas cinco verdades sobre o perdão, não resta dúvidas de que perdoar é preciso. É o melhor caminho a seguir, por mais que seja difícil e que fira o nosso orgulho. Muitas vezes, não perdoamos porque achamos que somos melhores que os outros, mas devemos nos lembrar que nós também temos defeitos e pecamos, e mesmo assim Deus sempre nos dá uma nova chance. 

Quando perdoamos, nós nos aproximamos do Senhor e isso nos traz paz, saúde física, mental e espiritual. Por isso, se você foi ferido ou magoado por alguém e ainda não perdoou, tome coragem e a procure essa pessoa o quanto antes (se for preciso). Deus se agradará de você e te trará para mais perto dEle! Assim, concluímos esse capítulo da nossa série especial Os Princípios Básicos do Cristianismo. 
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domingo, 18 de fevereiro de 2018

OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DO CRISTIANISMO 3) PERDÃO: O CRISTÃO E O PERDÃO

O cristão não faz sozinho a sua caminhada. Tem a companhia luminosa do Espírito de Cristo, que prometeu estar sempre conosco e tem também a companhia dos seus irmãos e irmãs na fé. Jesus providenciou para que o cristão tenha na sua caminhada a companhia visível e concreta de irmãos e irmãs, que formam em cada localidade a sua Igreja e globalmente formam a Igreja Universal. Nosso Senhor quer que os seus discípulos caminhem em companheirismo, para que deem força uns aos outros, mutuamente se edifiquem na fé, e juntos combatam o bom combate.

O princípio da individualidade no contexto da coletividade


Cada homem e cada mulher converte-se individualmente a Cristo. Cristo é reconhecido como o único e suficiente Senhor e Salvador, mas, ao convertermo-nos a Cristo, saímos do individualismo e tornamo-nos parte de um todo, que é a Igreja, chamada o Corpo de Cristo, Povo de Deus:
"Vós dantes não éreis povo, mas agora sois Povo de Deus…" (1 Pedro 2:10). 
Já alguém comparou a Igreja a um conjunto de homens e mulheres que vão fazer alpinismo e seguem ligados por cordas uns aos outros. Só podem avançar e alcançar o pico da montanha se tiverem o cuidado de se manter unidos na sua caminhada. Quando lemos a descrição da vida da Igreja primitiva em Atos 2:42-47, percebemos melhor a infelicidade do crente que estiver numa igreja onde não houver o espírito de unidade e comunhão que ali reinava.

Há muitos cristãos dos nossos dias que desvalorizam o papel da Igreja ou das igrejas, mas no Novo Testamento há a preocupação constante de lhe reconhecer um lugar fundamental na vivência da mensagem cristã. Principalmente todo o capítulo 18 do Evangelho de Mateus é dedicado ao papel da Igreja como amparo da vivência da Fé. O texto de Mateus 18:15:20 dá-nos instruções do Senhor de suprema importância para todos nós.

1 - O pecado existe e é desintegrador


Para formar uma autêntica e feliz comunidade cristã é preciso, desde logo, reconhecer que nos seus membros pode haver situações de pecado. O texto começa dizendo: "Se o teu irmão pecar", ou, como diz a versão moderna: "Se o teu irmão te ofender". Não podemos ser ingênuos e pensar que, se todos se dizem seguidores de Jesus Cristo, todos obedecem a Cristo durante as 24 horas do dia e os sete dias da semana. 

Cada um por si mesmo sabe que infelizmente não é assim, mas o pecado ronda a nossa vida. A Comunidade Cristã, justamente por causa da sua condição de comunidade inspirada pelo Espírito Santo, tem de levar a sério o pecado, porque ele é mesmo um elemento desintegrador da pessoa e da comunidade.

A tendência do homem em geral é de subestimar o pecado, começando justamente por fugir até da própria palavra. Cantamos velhos hinos em que falamos do pecado e da ira de Deus, mas se queremos mostrar uma linguagem mais moderna evitamos falar em pecado. No entanto, ele existe, é a desobediência à vontade de Deus. Na ordem do culto de algumas denominações é costume haver um momento em que se faz a "confissão de pecados". Ou seja, aquele que preside ao culto dirige a comunidade numa oração, em geral escrita, confessando o pecado coletivo. Mas é, quase sempre, muito formal, sem profundidade e julgo que poucos o levam a sério.

O que é necessário é que a nossa consciência se envolva na confissão:
"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar" (1 João 1:9).
A nossa própria consciência está formada de tal maneira que sabemos muito bem quando pecamos e/ou quando estamos em pecado (Romanos 2:15). É verdade que tem havido na História do Cristianismo e nos nossos dias, pregadores e movimentos que se excedem no uso da palavra pecado, numa pregação de meter medo, com ameaças constantes ao fogo do inferno; mas tal abuso, que procura manter os crentes como crianças amedrontadas, obedecendo cegamente a pastores e dando fartas ofertas, não nos deve levar ao abuso oposto que consiste na pregação que reduz tudo a simpatia, sorrisos, paz e amor, pregação muitas vezes feita com o mesmo alvo de angariar generosas ofertas e obter sucesso humano.

"Se o teu irmão pecar..." (Mateus 18:15


A comunidade cristã, incluindo o pastor e outros dirigentes, não está imune à ação do maligno, e cada membro tem de estar atento para não cair e para ajudar outros a não caírem. 

Recentemente, a imprensa europeia noticiou que perto de Lisboa um pastor evangélico brasileiro abusou sexualmente de um rapazinho e quando descoberto fugiu para o Brasil. O pai do adolescente, num depoimento à televisão, dizia: 
"Nós confiávamos plenamente no nosso pastor. Quem havia de esperar uma coisa destas?!" 
Desgraçadamente, não podemos nunca confiar plenamente em ninguém. Eu sempre digo isso aos meus discípulos. É a essa perspectiva que compreendemos esta Palavra de Deus: 
"…Não há um justo, nem um sequer" (Romanos 3:10).
Em 2009, celebramos os 500 anos do nascimento de João Calvino, mas teimamos em ser muito pouco calvinistas na leitura da Bíblia, porque esse Reformador sublinhava justamente a inclinação para o erro que há no ser humano.

2 - É preciso denunciar o erro


O pecado existe dentro da comunidade cristã e Jesus manda-nos enfrentá-lo. Nos tempos do rei Davi, como podemos ler em 2 Samuel 12:1-14, Natã era o profeta que o Senhor conduzia com a Sua inspiração. O rei cometeu um duplo pecado: adulterou com a mulher de Urias e enviou o marido traído para a frente mais perigosa da guerra, onde foi morto. 

Natã soube-se enviado por Deus para confrontar o rei com os seus pecados, tal como um cristão hoje se sabe enviado por Deus para confrontar o homem com o seu pecado (em Mateus 18:15 diz: "Se o teu irmão pecar, vai…"). E que fez o profeta para alcançar a consciência do rei? Contou-lhe, como um fato, a história do homem rico que roubou a única cordeira que um pobre possuía. O rei enfureceu-se com a história, dispôs-se a castigar firmemente o rico insensível e então Natã disse ao rei: "Tu és esse homem".

Que enorme coragem mostrou Natã ao colocar o rei diante do seu pecado! Davi, tendo toda a força do seu lado (era rei, rico e tinha um grande exército sob sua direção), podia zangar-se de tal maneira que imediatamente aniquilasse o pobre profeta. Mas Natã, que, era homem inteligente e sábio, tinha plena consciência dos riscos que corria, preferiu obedecer à vontade de Deus que lhe foi revelada, tal como a nós é revelada essa vontade.

Na situação da comunidade cristã que a passagem de Mateus 18 refere também é preciso coragem para obedecer à vontade de Deus, e é isso que o Senhor espera de todos nós. Não apenas de pastores e outros dirigentes, mas de cada cristão, porque cada cristão é templo do Espírito Santo (2 Coríntios 6:16). Infelizmente, por vezes falta essa coragem. E falta também autêntico amor ao irmão que erra, porque é abandonado no seu erro.


A importância da disciplina para o equilíbrio do convívio cristão 

"Ouve o conselho, e recebe a correção, para que no fim sejas sábio. Cada pensamento se confirma com conselho e com bons conselhos se faz a guerra" (Provérbios 19:20, 20:18).

Imaginemos o caso de um jovem idealista, vindo de uma família crente, que entrou num Seminário para se tornar pastor. Manifestou-se um jovem egocêntrico, numa luta constante, falta de camaradagem, mentiroso, com sinais de violência. Ninguém dessa comunidade formada por reitor, professores e alunos, alguma vez o confrontou com o seu pecado. 

No fim de quatro anos de estudo, foi fazer estágio numa congregação. Cometeu mais alguns erros, mas a comissão que supervisionava o estágio não o interpelou. Foi ordenado pastor e instalado numa igreja local. Cometeu mais erros – e o conselho da comunidade aceitava tudo. Se vinha algum alerta de outros dirigentes, a congregação local tomava a defesa do seu pastor, em lugar de o confrontar com as suas faltas.

Por fim, o pastor cometeu erros que trouxeram escândalo sobre ele próprio e sobre a igreja. De quem é a culpa? É fácil apontar com um dedo o pastor que, obviamente, tem imensas culpas, mas não podemos deixar de reconhecer que, se o texto da Bíblia que estamos considerando fosse sempre tomado a sério, ter-se-ia evitado o escândalo e a dor àquele pastor e a toda a Igreja. Se o pastor for expulso do ministério pastoral é uma grande infelicidade, mas os que o não ajudaram serão também infelizes. Quem comodamente se calou ou fechou os olhos por desleixo moral, também peca gravemente, mesmo que seja por omissão.

3 - O perdão não é graça barata


Agir como agiram os dirigentes que refiro no exemplo acima não é lidar com o perdão. Na passagem de Mateus 18 há todo um esforço para levar o pecador a arrepender-se do que fez: tem de se falar com ele a sós, em primeiro lugar; depois, se a conversa não resultar, levar mais uma ou duas testemunhas; finalmente, apresentar o caso à igreja, ao conjunto dos crentes. Falar em perdão sem esses passos, sem esse esforço, é falar de uma caricatura do perdão, de uma "graça barata", para usar a expressão cunhada pelo teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer.

Se um homem rouba devido à sua miséria, devemos ajudá-lo materialmente, ajudá-lo a sair da sua miséria – mas ajudá-lo também a reconhecer o seu pecado, a arrepender-se e a buscar a ajuda divina. Devemos combater um sistema social iníquo que leva tantos ao crime, mas devemos lutar também para que seja a honestidade e não o crime que domine a sociedade.

Tenho ouvido várias vezes pessoas simples comentarem: "Temos que perdoar a todos. Nosso Senhor até à mulher adúltera perdoou!". É um fato: o Evangelho dá-nos conta desse perdão em João 8:1-11 – mas é necessário ler bem o texto sagrado. O texto diz-nos que todos os acusadores da mulher foram-se embora – mas ela não aproveitou para ir-se embora também e escapar a eventual reprimenda do Rabi. 

O seu silêncio diante de Jesus é um sinal da mudança que estava operando dentro da mulher. E por fim Jesus manda-a em paz, mas diz-lhe: "Vai e não peques mais". Ou seja, não peques mais, não voltes a adulterar, a fazer o que até a tua consciência te diz ser errado.

Em toda a Bíblia encontramos a mesma situação: o perdão é acompanhado pelo arrependimento, que é a mudança (metanoia) que se opera no interior daquele ou daquela que pecou. O rei David passou também pelo processo doloroso do arrependimento. O resto do capítulo de 2 Samuel 12 dá conta dessa mudança no rei, e a tradição ensina que o Salmo 51 é o produto literário e espiritual do profundo arrependimento que abalou essa alma.

Até fora dos círculos da fé se percebe da relação que tem de haver entre perdão e arrependimento. Não é raro ouvir juízes, na pronúncia da sentença, interpelarem réus de crimes graves por não verem neles sinais de arrependimento ou, no caso específico, de remorso. Ou, pelo contrário, aliviarem as penas por ser notório o arrependimento do réu. Porque hão de os cristãos, guiados pelo Espírito de Deus, ser menos sábios do que a justiça humana?

4 - Igrejas com amor fraternal


Os versículos de Mateus 18:18-20, parecem deslocados no excerto bíblico que estamos analisando. A quem se dirigem as palavras do versículo 18? Dirigem-se também a todos os cristãos. Temos, cada um de nós, seja pastor ou mero membro, o dever de ajudar os nossos irmãos que eventualmente estejam em erro, estando atentos ao nosso próprio erro. 

Não abandonar o irmão que falha é cumprir o mandamento do amor. Temos todos o poder de ligar e desligar, de contribuir para que haja na congregação um ambiente de verdadeiro amor fraternal, o que se alcança se cada um de nós viver num esforço de seguir a Cristo. Se seguirmos como os alpinistas unidos uns aos outros pelos laços da amizade, seguiremos numa unidade que permite a realização do versículo 19: 
"Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus."
Não é difícil perceber porque é que tantas vezes os cristãos se negam a entrar na crise que ajuda aquele que erra a buscar o caminho correto. Por um lado, o que é legítimo, é a consciência que cada um de nós tem de que erra também e, por isso, falta-lhe autoridade para falar. Mas essa consciência não deve anular o mandamento de Deus que manda interpelar o errado.

Por outro lado, o que é mais grave, tem-se medo de zangar a pessoa que precisa de ser corrigida, e mesmo de a levar a afastar-se da igreja. 
"A irmão Tiquinho Canela de Fogo, que é membro da igreja e faz tantas coisas importantes nela (ou se calhar dá um elevado dízimo), ficou ofendido com uma palavra que ouviu e deixou de ir aos cultos". 
A pregar desta maneira, este pastor vai ficar com uma congregação cada vez mais reduzida. Mas o texto diz:
"Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles".
Ou seja, não é preciso mais do que três pessoas para realização de um culto ao Senhor. É bom ter um largo auditório, mas é melhor lembrar que mesmo quando o auditório é pequeno Cristo está presente, se é em seu Nome que o povo está reunido.

Na igreja onde reina o amor fraternal não são necessários expedientes de alienação psicológica, para atrair pessoas para as reuniões. Não é preciso manipular as mentes para receber contribuições em dinheiro. As pessoas virão por impulso interior, pela ação do Espírito Santo, felizes por encontrar irmãos e irmãs que não são pessoas perfeitas mas são cristãos coerentes, justos e pecadores que buscam obedecer à vontade revelada de Deus. 

As igrejas onde a vontade de Deus é obedecida são igrejas que brilham e crescem como a Igreja do livro de Atos que foi descrita com estas palavras: 
"Perseveravam unânimes, todos os dias, no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar" (At 2:46,47 - grifo meu).

Conclusão


O livro de auto ajuda "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas", escrito por Dale Carnegie, publicado em 1937 e o seu autor foi Dale Carnegie, trás uma receita fundamental desse autor para se conseguir o que o título desse conhecido e aclamado best-seller promete:

  • "Não critique, não condene, não se queixe".
Pois é, lindo né? Mas se o profeta Natã tivesse esse princípio como orientação, não teria falado com Davi do modo como falou, e o rei Davi teria continuado no seu caminho que leva à ruína total. E se os cristãos adotarem essa regra recusarão o ensino de Jesus. 

A questão então que se põe é esta: estamos prioritariamente interessados no sucesso e na prosperidade ou estamos acima de tudo prontos a fazer a vontade de Jesus Cristo, que se deu a si mesmo para salvação do pecador? A terrível crise financeira e econômica em que o mundo está mergulhado nestes dias deve-se a essa cultura do sucesso e da prosperidade que fecha os olhos à ética e à moral. Princípios e valores cristãos são inflexíveis, inegociáveis, incorruptíveis, invioláveis, atemporais, imutáveis, eternos.
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A Deus toda glória. 
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E nem 1% religioso.