| Imagem: Reprodução O Liberal |
O influenciador Felca (Felipe Bressanim Pereira, 27 anos), que ganhou visibilidade nacional (quiçá, internacional) após denunciar um esquema de adultização de crianças e adolescentes expostos nas redes sociais (a repercussão, inclusive, levou até a criação da Lei nº 15.211/2025, conhecida como Lei Felca ou Estatuto Digital da Criança e do Adolescente), recentemente estreou no programa Fantástico (em 22 de março de 2026) com um quadro chamado "Sobre Nós".
A série, dividida em seis episódios, utiliza uma mistura de esquetes humorísticas, depoimentos pessoais e entrevistas com especialistas para abordar temas ligados à saúde mental e pressões sociais.
Ao longo da temporada, Felca explorou inquietações comuns da vida moderna:
- Ansiedade Social — O episódio de estreia focou na sensação de estar sendo constantemente julgado por outras pessoas.
- Dificuldade em Dizer Não — Investigou por que muitas pessoas se sentem culpadas ou incapazes de estabelecer limites.
- Exaustão e Ritmo Acelerado — Discutiu o impacto da pressão por produtividade e a dificuldade de "desligar" o cérebro.
- Depressão — Diferenciou a tristeza comum do transtorno depressivo, trazendo uma abordagem pessoal baseada em sua própria experiência com terapia.
- Pressão por Comparação — Onde foi abordado o impacto de se comparar constantemente com a "vida perfeita" dos outros nas redes sociais.
Tudo estaria muito bom se o youtuber tivesse alguma autoridade, fosse um especialista para tratar de assuntos e temas tão complexos da psiquê humana. E o fato é que ele não tem nem uma coisa e nem outra.
Para avaliação dessa polêmica, trazemos Felca, "compulsoriamente", para o nosso divã, em mais um capítulo da nossa série especial de artigos Papo de Psicanalista.
Felca no divã
| Imagem: reprodução GZH |
A graça estava ali:
alguém que não se encaixava rindo de si mesmo antes que o mundo resolvesse rir primeiro.
Na psicanálise, o ato de uma pessoa depressiva rir de si mesma é frequentemente interpretado como um mecanismo de defesa sofisticado, utilizado para lidar com a dor psíquica e a autocrítica severa.
Era desconfortável, às vezes até meio triste, mas justamente por isso é que funcionava: ou seja, rir de si mesmo pode ser uma estratégia de controle.
Ao fazer piadas sobre suas próprias falhas, a pessoa depressiva antecipa a possível crítica alheia.
A lógica inconsciente é:
"Se eu já me ridicularizei, você não pode mais me ferir com a sua crítica".
Isso transforma uma vulnerabilidade passiva em uma ação ativa de autodepreciação controlada.
Isto é, rir de si mesmo não significa ausência de depressão, mas sim uma estratégia de sobrevivência psíquica que transforma uma dor paralisante em uma queixa suportável, ainda que disfarçada.
🎬Corta!🎬
| Imagem: reprodução Instagram |
E então um upgrade, versão do "padrão Globo", completo: postura, discurso, intenção. O pacote inteiro.
Acendam-se, pois, os holofotes: luz, câmera, ação!
Acendam-se, pois, os holofotes: luz, câmera, ação!
A figura que antes servia de piada agora distribui orientação com segurança de manual.
Eis que em um touch, tornou-se a nova autoridade em determinado assunto.
Só que a internet não é um caderno novo. É mais um depósito — daqueles empoeirados, cheios de caixas que ninguém organiza, mas também ninguém joga fora.
E as caixas estão lá, com uma etiqueta digital, onde lê-se: "Felca archives"!
Abrindo as caixas
| Imagem: reprodução Portal Notícias Hoje Mais |
Em um deles, o hoje queridinho influenciador, visivelmente alterado numa live, despeja uma sequência de ofensas contra a namorada da época (o fato ocorreu há mais ou menos um ano) — não uma frase atravessada, mas uma insistência quase metódica.
Algo que, pela nova proposta de Lei da Misoginia, ele estaria possivelmente preso.
Algo que, pela nova proposta de Lei da Misoginia, ele estaria possivelmente preso.
Após a repercussão da divulgação do tal exposed, feito pela tal ex-namorada, ele fez o que já era esperado, postou um vídeo onde se justificou sobre a ocorrência, na tentativa de jogar água no foco do incêndio. Parece que deu certo, né?
No podcast, Inteligência Ltda., dentre outras coisas, resolve compartilhar dicas de vídeos sexuais que fariam qualquer conversa normal morrer na hora, sem nem direito à despedida.
E tem também o momento em que transforma o mapa do Brasil numa espécie de rascunho descartável, sugerindo que o sul do país poderia simplesmente deixar de existir,
"desaparecer com o ataque de uma bomba atômica",e tudo isso dito com a naturalidade de quem comenta o clima.
Desvalores valorizados
| Imagem: reprodução LinkedIn |
Porque existe um talento muito brasileiro que quase sempre é reconhecido:
a capacidade de fabricar em série ídolos de barro em escala industrial.
E não qualquer barro — muitas vezes barro 100% orgânico, já usado, já pisado, já rachado...
Ainda assim, moldado de novo, com outra forma, outra narrativa, outra embalagem.
E funciona. Sempre funciona, pois aqui o critério não é consistência, é presença.
Quem ocupa espaço, quem fala com firmeza, quem entrega a indignação certa no momento certo, ganha o selo informal de autoridade.
O passado vira detalhe técnico, quase um erro de digitação na biografia.
Existe até uma elegância nisso tudo, se olhar com o distanciamento certo.
Uma espécie de teatro contínuo onde os papéis mudam mais rápido do que a plateia consegue acompanhar.
Hoje o sujeito é personagem de redenção, amanhã especialista em comportamento, depois de amanhã, quem sabe, se torna uma referência ética e, talvez, quem sabe, mais um mito da política.
O roteiro não exige coerência. Exige ritmo.
E o público acompanha. Aplaude, compartilha, comenta, defende.
Não porque esqueceu completamente, mas porque lembrar ou questionar dá muito mais trabalho — exige o investimento de tempo em pesquisar, estudar... — do que seguir o fluxo.
Conclusão
| Imagem: Reprodução YouTube |
🚨Em tempo: Não tenho pessoalmente nada contra o Felca, a quem só vim a conhecer após sua maior visibilidade midiática, meu objetivo com este texto é mesmo e essencialmente a provocação de uma necessária reflexão, não sobre apenas a pessoa, mas o contexto no qual não só ela, mas todos nós estamos inseridos.
- Por Leonardo Sérgio da Silva
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