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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

ESCRITO NAS ESTRELAS - CHARLES CHAPLIN, OS 40 ANOS DA MORTE DE UM MITO

Retornando e dando sequência à série especial Escrito nas Estrelas, neste capítulo eu trago o enfoque sobre a vida de um dos grandes gênios da era do cinema mudo, em memória aos 40 anos de seu falecimento. O genial Charles Chaplin, o inigualável Carlitos.

Chaplin nasceu em Londres no ano de 1889 e iniciou sua carreira como mímico, fazendo excursões para apresentar sua arte. Em 1913, durante uma de suas viagens pelo mundo, este grande ator conheceu o cineasta Mack Sennett, em Nova York (Estados Unidos), que o contratou para estrelar seus filmes. 

As imagens em movimento do cinema apresentaram ao mundo, a partir da virada do século XIX para o XX, uma nova perspectiva para a canonização de mitos. Rostos e formas ganharam sua representação moderna, projetando-se na grande tela que surgia como um espelho do mundo, de fatos e emoções que o movimentam diariamente. 

Foi Charles Chaplin um dos primeiros mitos a serem eternizados por esta arte ainda tão recente. Suas obras encantam gerações desde os primórdios do cinema, com a criação do mágico personagem Carlitos, com o qual representou em dezenas de curtas desde 1914 - quando no cinema ainda não ouvíamos falas, apenas víamos gestos, luzes e sombras.

Sua vida, suas obras 


Seu personagem mais famoso foi o vagabundo Carlitos, oprimido e engraçado, este personagem denunciava as injustiças sociais. De forma inteligente e engraçada, este grande artista sabia como fazer rir e também chorar. 

No dia 15 de outubro de 1940 estreia o filme "O Grande Ditador", uma das obras mais importantes da carreira de Charles Chaplin e um marco na história do cinema. Mais conhecido por seu personagem Carlitos, o vagabundo – Chaplin nasceu em 16 de abril de 1889, em Londres, Inglaterra. 

Era filho de Hannah e Charles Chaplin, também artistas de palco. Charles Spencer Chaplin é considerado um dos grandes ícones da comédia-pastelão. Ele usou a pantomima para fazer rir e criticar a sociedade da época, a exemplo do mais conhecido filme de sua carreira "Tempos Modernos", de 1936. 

Chaplin e o ator mirim Jackie Coogan, em cena do filme "O Garoto" 

Ator, escritor, produtor e diretor de seus próprios filmes, foi uma das personalidades mais criativas da era do cinema mudo. Dentre seus talentos também estava o xadrez, chegando a enfrentar o campeão americano Samuel Reshevsky. Seus pais separaram-se logo após seu nascimento, deixando-o aos cuidados de sua mãe, cada vez mais instável emocionalmente. 

Chaplin expressou um pouco de seus próprios sentimentos no filme "O Garoto", de 1921. Nesse filme Carlitos conta a história de um garotinho abandonado que cruza o caminho do adorável vagabundo e os dois juntos vivem uma hilária e emocionante aventura. 

Em 1918, no auge de seu sucesso, ele abriu sua própria empresa cinematográfica, e, a partir daí, fazia seus próprios roteiros e dirigia seus filmes. Crítico ferrenho da sociedade, ele não se cansava de denunciar os grandes problemas sociais, tais como a miséria e o desemprego. Pelo filme "O Circo", Chaplin ganhou em 1929 seu primeiro Oscar Honorário. 

Chaplin é sempre lembrado pela pureza e sentimentalismo de Carlitos, personagem que interpretou em filmes como "Carlitos, o vagabundo" (1915); "Em Busca do Ouro" (1925), "Luzes da Cidade" (1931) e em "Tempos Modernos" (1936). Outro filme bastante marcante foi "Grande Ditador", paródia de Adolf Hitler. O ator foi um dos fundadores da companhia cinematográfica United Artists, que produziu vários de seus filmes.
Chaplin em cena do filme "Luzes da Ribalta"
Foi na Europa que Chaplin promoveu o seu filme seguinte, o brilhante drama "Limelight" ("Luzes da Ribalta", 1952) sobre um palhaço decadente que se apaixona por uma jovem bailarina. 

Neste filme, destacou-se a magistral trilha sonora (da autoria de Chaplin, que lhe valeu um Oscar em 1972, ano em que o filme foi lançado comercialmente em Hollywood), o sketch cómico-musical com Buster Keaton e uma breve aparição de Geraldine Chaplin, sua filha e que viria também a tornar-se atriz de créditos firmados. 

Chaplin ainda realizaria mais dois filmes: "A King In New York" ("Um Rei em Nova Iorque", 1957), que passou quase despercebido, e "A Countess From Hong-Kong" ("A Condessa de Hong-Kong", 1967), uma comédia romântica que, apesar de protagonizada por Marlon Brando e Sophia Loren, foi um fiasco de bilheteria. 

Em 1972, aos 83 anos, recebeu finalmente permissão para entrar nos Estados Unidos e foi aplaudido entusiasticamente de pé durante dez minutos por uma plateia em êxtase quando recebeu um Oscar Honorário por sua contribuição à arte cinematográfica.

Seus amores 


A partir de 1952, o artista passou a viver na Europa, por fazer parte dos atores de Hollywood perseguidos pelo Macartismo. Os EUA passaram a lhe negar visto de entrada no país. Seus sucessos profissionais tiveram reflexos diretos em sua vida pessoal por várias vezes. Em 23 de outubro de 1918, Chaplin casou-se aos 28 anos de idade com Mildred Harris, de 16. Tiveram um filho que morreu ainda bebê e divorciaram-se dois anos depois.  

Aos 35, apaixonou-se por Lita Grey, com quem teve dois filhos. Em 1936, Chaplin casou secretamente, mas seis anos depois a união também teve fim. Em 1943 casou-se com Oona O’Neill, filha do famoso dramaturgo Eugene O’Neill, com quem ficou casado até o fim da vida. A atriz Geraldine Chaplin é filha dos dois. 

Polêmica e contestação, mas com muita sensibilidade 


Chaplin em cena do clássico "Tempos Modernos" 

O Adorável Vagabundo somente recebeu voz ao cantar uma música no filme "Tempos Modernos" (1936). Em seguida, Chaplin abandonou o papel do Vagabundo e passou a representar personagens diversificados. Esta transição é marcada por "O Grande Ditador" (1940). 

"O Grande Ditador" foi o primeiro filme de Chaplin inteiramente falado, uma mescla de comédia com uma afiada e irônica crítica política. Chaplin representa dois papéis no filme, o de um barbeiro judeu e o de um ditador, um "Hitler" do país da Tomania. Outro personagem da obra, Benzino Napaloni de Bactéria, é uma caricatura fiel de Benito Mussolini. Em 1947, Chaplin lançou o filme "Monsieur Verdoux", um trabalho brilhante com uma distinta visão do pós-guerra e pós-Holocausto. 

Adepto ao cinema mudo, o também cineasta, era contra o surgimento do cinema sonoro, mas como grande artista que era, logo se adaptou e voltou a produzir verdadeiras obras primas: "O Grande Ditador (crítica ao fascismo)", "Tempos Modernos" e "Luzes da Ribalta". Em 1965, publicou sua autobiografia, "Minha Vida". Em 1972, Charles Chaplin foi premiado com o Oscar Honorário de melhor trilha sonora pelo filme Luzes da Ribalta. 

Na década de 1930 seus filmes foram proibidos na Alemanha nazista, pois foram considerados subversivos e contrários a moral e aos bons costumes. Porém, na verdade, representavam uma crítica ao sistema capitalista, à repressão, à ditadura e ao sistema autoritário que vigorava na Alemanha no período. Mas o sucesso dos filmes foi grande em outros países, sendo traduzido para diversos idiomas (francês, alemão, espanhol, português). 

Conclusão


Chaplin em cena do ousado "O Grande Ditador"
Em 1977, o mundo perdeu este que foi um dos grandes representantes da história do cinema. Um derrame cerebral foi 
responsável pela morte do ator, aos 88 anos, no dia 25 de dezembro de 1977, na Suíça. 

Três meses depois, em 3 de março de 1978, ladrões invadiram o cemitério e roubaram o corpo de Chaplin a fim de extorquir dinheiro de sua família. O plano falhou, os ladrões foram capturados e condenados à morte. Onze semanas depois, o corpo foi recuperado e novamente enterrado na Suíça. 

Nos filmes de Chaplin, entre os quais estão algumas das mais significativas obras-primas da história, fundamentais para a compreensão do papel do artista no cinema, e do cinema na vida, hoje temos um retrato significativo de fatos decisivos do século passado. Desde sua primeira incursão nos filmes de longa-metragem, em 1921, Chaplin fizera do cinema uma arte para defender seus ideais políticos e sociais, suas ideias humanistas que questionavam o lugar do homem no mundo contemporâneo. 

Em 1993, Charlie Chaplin teve sua vida retratada no filme biográfico "Chaplin", dirigido por Richard Attenborough, que foi muito elogiado por público e crítica além de ter conferido o Oscar de melhor ator para Robert Downey Jr., que viveu Carlitos em brilhante atuação. O longa contou ainda com a participação da própria filha de Chaplin, Geraldine, no papel de sua avó Hannah, e grande elenco. 

Filmografia de Chaplin (principais curtas e longas-metragens) 

  • O idílio desfeito -1914; 
  • Carlitos, guarda noturno - 1917; 
  • O imigrante - 1917; 
  • Vida de cachorro - 1918; 
  • Ombro, armas ou Carlitos na trincheira - 1918; 
  • Os clássicos vadios - 1921; 
  • O garoto - 1921; 
  • Dia de pagamento - 1922; 
  • Casamento ou luxo? - 1923; 
  • Em busca do ouro - 1925; 
  • O circo - 1928; 
  • Luzes da cidade - 1931; 
  • Tempos modernos - 1936; 
  • O grande ditador -1940; 
  • Monsieur Verdoux - 1947; 
  • Luzes da ribalta - 1952; 
  • Um rei em Nova York - 1957; 
  • A revista do Carlitos - 1959; 
  • A condessa de Hong Kong - 1967.

Frases de Chaplin 

"Mais do que máquinas, necessitamos de humanidade". 

"A persistência é o caminho do sucesso". 

"Acredito que o pecado é realmente um mistério tão grande quanto a virtude". 

"Eu tenho muitos problemas em minha vida. Mas meus lábios não sabem disto. Eles sempre sorriem". 

"Um dia sem sorrir é um dia desperdiçado". 


A Deus toda glória. 
Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://circuitogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade. 
E nem 1% religioso.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

CANÇÕES ETERNAS CANÇÕES - "QUE PAÍS É ESTE" - LEGIÃO URBANA


A música "Que País é Este?" da banda Legião Urbana nos leva a fazer uma reflexão sobre o nosso país. Com uma letra bastante forte e que se torna a cada dia mais atual, a música relata vários aspectos da nossa sociedade. Primeiro farei uma análise de cada estrofe da música. Na sequência uma reflexão geral do motivo pelo qual considero essa Canção Eterna Canção.
Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Esse trecho da música nos apresenta duas realidades diferentes no aspecto físico, porém muito parecidas no aspecto comportamental, onde ambos os locais estão sujos por um comportamento típico do povo brasileiro, que se caracteriza pela a necessidade de se dar bem, mesmo que para isso tenha que desrespeitar as leis vigentes no nosso país.
Que país é este? Que país é este? Que país é este?
Trecho que faz uma pergunta contundente e ainda sem resposta sobre o que realmente é o Brasil.
No Amazonas, no Araguaia, na Baixada fluminenseNo Mato grosso, Minas Gerais e no Nordeste tudo em pazNa morte eu descanso mas o sangue anda soltoManchando os papéis, documentos fiéisAo descanso do patrão 
No Brasil a exploração da população sempre foi uma característica muito forte na nossa sociedade, principalmente nas regiões onde a taxa de pobreza é maior. Nas regiões consideradas mais pobres como o norte e nordeste do nosso país era e ainda é bastante comum o desrespeito as leis trabalhistas.
Que país é este?
Que país é este?
Que país é este?
Que país é este?
Novamente o trecho que faz a pergunta que não quer calar e ainda ecoa de norte a sul, leste a oeste sobre o que realmente é o Brasil.
Terceiro Mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão.
A expressão Terceiro Mundo nasceu para caracterizar os países subdesenvolvidos durante a Guerra Fria, nesse contexto que estava caracterizado o Brasil. Como um país subdesenvolvido e tendo a necessidade de se desenvolver o país teve que vender muito de suas riquezas. O trecho da música demonstra a venda das nossas riquezas através das almas dos índios que foram os verdadeiros donos do nosso país. 
Que país é este?
Que país é este?
Que país é este?
Que país é este?
Novamente a pergunta que ainda hoje nos fazemos sobre o que realmente é o Brasil.


Análise reflexiva

O autor e sua obra


Sobre essa música, disse Renato [Manfredini Júnior] Russo
"Aquela pergunta não é uma pergunta, é uma exclamação! Porque quem me diz que país é este são as pessoas que vivem aqui. A gente tem um material fabuloso a ser trabalhado aqui no Brasil. 
A gente percebe certas coisas: tem muita gente trabalhando, tem muita gente fazendo muita coisa boa. O Brasil é também um país de Primeiro Mundo.  
Aqui, num raio de dez quilômetros, vai ver quantas locadoras de vídeos têm. É Primeiro Mundo também! Agora, só para uma parte das pessoas (1989)" (RUSSO, 2000, p. 209-210).
Capa do disco Que País é Este
Uma música escrita em 1978 para o então Aborto Elétrico, primeira banda de Renato, só lançada em disco em 1987 no terceiro trabalho da Legião Urbana. 

Já no encarte a própria banda comenta as músicas demonstra que apesar de serem canções antigas, ainda eram (ou melhor, são) atualíssimas no atual cenário político-social: 
"As letras dessas nove canções refletem uma ingenuidade adolescente mas só por terem sido escritas há quase nove anos atrás. A temática continua atual, às vezes até demais" (URBANA,1987, p.3).
Ainda no encarte a banda registra seu pensamento em relação a essa música de ritmo tribal, de três acordes e muitos riffs de guitarra: 
"(...) Seu refrão [com direito a ô, ô, ô, ô e participação do público] é simples, direto e eficaz. Nunca foi gravada antes porque sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país, tornando-se a música então totalmente obsoleta. Isto não aconteceu e ainda é possível se fazer a pergunta do título, sem erros" (idem, p. 5).


Questionamento? Afirmação!


Exclamação ou pergunta, a pontuação é a mesma: uma reflexão sobre a situação do país. A irreverência está não só por ter sido composta em 1978, plena ditadura militar como, sobre tudo, na sua constante contemporaneidade, e ainda hoje, aproximando do fim da segunda década do século XXI, há muita sujeira para todos os lados da sociedade.

Postas numa mesma sentença, favela e Senado não se distinguem. No verso seguinte o motivo da semelhança 
"Sujeira pra todo lado". 
Em dois extremos: o lugar de todo poder (aqui o Senado pode muito bem representar os três poderes) e o lugar de poder nenhum. Mas se acrescentarmos às favelas a figura de poder do traficante, onde ele quem faz e executa as leis, julga e condena, protege e violenta o povo, verificamos que essa comparação não é tão paradoxal.

O lixo que povoa os dois lugares. Não há uma só "qualidade" de lixo. É o lixo moral, o lixo comercial, o lixo intelectual, enfim, lixo representando tudo aquilo que não presta. No verso seguinte, a canção sentencia: 

"Ninguém respeita a constituição", 


nenhuma pessoa respeita a constituinte, a carta magna, o que regulamenta a nação (aliás, quantas pessoas verdadeira a conhecem). Nem mesmo os que criam e votam as leis muito menos àqueles que deveriam vivenciar tais leis. Até aqui a letra apresenta uma visão niilista da situação, está tudo um caos nos vários setores da sociedade. 

Contudo, no verso seguinte, há um operador 
"mas"
onde tudo o que fora dito primeiramente, que é de conhecimento de todos os interlocutores, posto como argumento possível, é ligado (ironicamente) por um argumento decisivo 
"todos acreditam no futuro da nação"
dando uma ideia de "estática". Por mais que as coisas estejam ruins, ainda há a esperança de que tudo vai ser melhor num futuro, que como propõe a contemporaneidade da canção, nunca chega.

O refrão é cantado de forma visceral e a cada aclamação não faltam pessoas a definirem que país é este. Os próximos versos mostram a dimensão do "ninguém" e do "todos", em todas as partes do país, em suas mais diversas regionalidades e diferentes culturas, tudo está em paz:
No Amazonas, no Araguaia iá, iá, iá
Na Baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Gerais e no
Nordeste tudo em paz
Mais um ponto irônico e irreverente da canção. A música não diz que está tudo em paz. Não simplesmente omite o verbo de ligação. Mas sim, um ar de "tudo está sob controle". Até aqui, o texto foi escrito de forma indefinida, na terceira pessoa. Porém, já no próximo verso, um eu entra em cena para afirmar a condição de paz como controle de um poder sobre os demais membros da sociedade, mais à frente sendo representado por "patrão", ou seja o chefe. 

Ao dizer que 
"na morte eu descanso"
esse "eu" afirma que enquanto vivo não tem descanso, tornando possível a interpretação, por um sub-entendido, de que na vida ele não tem sossego. A própria definição de descanso denota a morte. Ainda há, no senso comum a máxima "descanse em paz" para as pessoas que estão prestes a morrer. 

Outra vez o operador "mas" entra em ação em mais uma demonstração irônica de irreverência: apesar de morto 
"o sangue anda solto / Manchando os papéis e documentos fiéis / Ao descanso do patrão". 
Esses versos nos remetem a vários sentidos, os campos semânticos das palavras escolhidas podem nos levar a vários lugares, nessa extraordinária polissemia, no país onde a impunidade é tão comum que virou "via de regra" podemos interpelar o último verso como norteador: a diferença do descanso do "eu" em relação "ao descanso do patrão".

Esse não morre para ter uma vida tranquila, mas mata, tanto que o sangue daqueles que morreram marcam seus fiéis documentos. Mas quais documentos e papais serão esses? Se julgarmos pelo que temos de informação na letra, poderíamos supor que os documentos fiéis ao descanso do patrão seriam as páginas da constituição que ninguém respeita, mas que, infelizmente, é utilizada para legalizar algumas "falcatruas" dos poderosos em depreciação do povo brasileiro. 

Tanto que documentos também são feitos de papéis, mas aqueles não quaisquer papéis, são documentos, importantes para o país, que são fiéis ao patrão, àquele que é dono, que manda, que é o chefe. Com esse ponto de vista, se forçarmos mais ainda a interpretação, levados pela linguagem metafórica, poderíamos supor que os "papéis" a serem manchados pelo sangue que ainda não morreu junto com o "eu" é o que cada um representa na sociedade. 

Cada cidadão tem seu papel, professor, policial, operário, jovem, idoso, político, artista... Todos são brasileiros, todos têm direitos e deveres regidos pela constituinte, mas que, quando um "eu", que descansa depois de tanta sujeira, morre, ninguém se importa, tendo, então, seus "papéis" manchados, chamando assim, para todos a responsabilidade sobre todos.

Novamente o refrão, que depois de mais informações sobre a situação constitucional e cívica do país se questiona: 
"Que país é este?" 
em seguida, nos próximos versos, saímos da visão interna, de dentro do país para uma visão externa. Numa época que os países eram divididos em primeiro, segundo e terceiro mundo, a comicidade do arranjo frasal nos coloca mais uma vez diante de ambiguidades: 
"Terceiro mundo, se for / Piada no exterior". 
Os países ricos são os do primeiro mundo, os pobres são os do terceiro mundo. Havia ainda os países do segundo mundo, que não eram tão ricos para serem do primeiro, mas tinham muito poder bélico para ser terceiro mundo.

E o Brasil? O 5º maior país do mundo, onde, juntamente com toda a América Latina, por mais de trezentos anos, enriqueceu a Europa, vivendo num sistema de ditadura militar (hoje não há mais uma ditadura militar no poder, mas há quem diga que ainda é uma ditadura), podemos ver a piada, de forma bem irreverente, como sendo o país incapaz de ser pelo menos "terceiro mundo". 

É um dito engraçado para o exterior sermos terceiro mundo. Hoje não temos mais essa nomenclatura, não por deixamos de ser um país pobre do terceiro mundo, mas porque o segundo mundo deixou de existir. Os países ricos são os "desenvolvidos" e os outros "em desenvolvimento". E novamente o operador "mas" entra em ação demonstrando a mesma irônica esperança de um futuro melhor "o Brasil vai ficar rico" vai deixar de ser terceiro mundo, vai deixar de ser piada no exterior, pois “vamos faturar um milhão”, como se um país rico precisasse apenas de um milhão de qualquer dinheiro para ser rico. 

Seremos isso 
"quando vendermos todas as almas / dos nossos índios num leilão". 
Outra metáfora forte e realista. Jogando com as ideias, através do ato de fala desses versos, a letra apresenta uma piada para dar como solução do problema de sermos um país pobre e uma piada.

Durante toda a existência do nosso país, a saída de riquezas para o exterior foi consistente, permanente e notória. Aqui já temos uma noção de quem poderia ser o "eu" que fala na canção. Uma característica marcante nas músicas do Renato é ter mais de um eu, ou seja, suas letras são construídas por várias vozes, às vezes não sendo possível distingui-las. 

Nessa música temos dois "eus". O primeiro, aquele que só descansa na morte, sendo coagido pelo patrão, que tem os documentos a seu favor. Esse pode ser a voz do índio brasileiro, mas não só aquele índio nativo, mas todos os cidadãos que são índios, vivendo em tribos, às vezes nômades (sem casa própria), às vezes brigando por seu pedaço de terra (os sem-terra), ou ainda aqueles que vivem (ou querem viver) como os brancos (as classes médias), mas não têm condições financeiras e culturais para isso, pois são aculturados de sua própria identidade vivendo uma pseudo-cultura brasileira.


Conclusão


Quando a primeira pessoa passa do singular para o plural, esse "eu" ganha outras vozes. O "vamos" e o "vendermos" se refere não só aos "eus" que povoam a letras, mas a todos os interlocutores da canção. Dos componentes da banda aos fãs, até mesmo aqueles que não ouvem e não conhecem a música, todos nós somos responsáveis pelo que já aconteceu, pelo que acontece e, sobretudo, pelo que acontecerá com o país. 

E assim, encerra a canção, com o refrão levando aos ouvintes a pensar que país é "este" e não "esse". O elemento anafórico em questão nos remete a algo que está próximo de quem fala. Este que está próximo da gente, este que vivemos, não esse Brasil que é piada no interior e no exterior, mas este que está próximo de todos os brasileiros.

Além da letra irreverente, a canção possui um som caracteristicamente do rock'n roll. Já na introdução, quando os tambores vão aumentando de som e força, culminando um riff alucinante de guitarra e com gritos do Renato ao fundo, propõe pensar a violência que é não saber que país é o nosso. E provoca uma explosão de sentimentos que, pretende, levar os ouvintes a dar um basta na imobilidade e agir. 

Os efeitos proporcionam a sensação de se ter, durante os primeiros acordes, correntes sendo arrastadas, como se antes de prestarmos atenção aos fatos que a canção mostra, nos vemos imóveis e enclausurados na nossa ignorância. Ligando a irreverência do rock à atitude dos jovens. Demonstrando o caráter desse estilo musical, ou seja, o seu ethos, como nos lembra, da tradição grega, Wisnik: 
"(...) que os gregos chamavam o ethos da música: o seu caráter, um certo padrão de sentido afinado segundo seu uso, e que fazia com que algumas melodias fosse guerreiras, outras sensuais, outras relaxantes, e assim por diante"(WISNIK, 1999, p. 117).
Impulsionados por uma melodia guerreira, a irreverência da letra convida seus interlocutores à guerra contra todas as formas de discriminação e escravidão dos brasileiros. Para que após nos questionarmos "que país é este?", nos espantarmos ao descobrirmos "que país é este!" possamos construir um país que é este: uma nação brasileira.

A Deus toda glória. 
Fique sempre atualizado! Acompanhe todas as postagens do nosso blog https://circuitogeral2015.blogspot.com.br/. Temos atualização diária dos mais variados assuntos sempre com um comprometimento cristão, porém sem religiosidade. 
E nem 1% religioso. 

O RECONHECIMENTO DE JERUSALÉM COMO CAPITAL DE ISRAEL, CUMPRIMENTO PROFÉTICO OU MERA QUESTÃO POLÍTICA?

"É tempo de reconhecer oficialmente Jerusalém como capital de Israel. Presidentes anteriores haviam feito disso uma promessa de campanha, mas fracassaram em cumpri-la. Hoje, eu estou cumprindo", 
afirmou o presidente americano em discurso na quarta-feira, seis de dezembro.

Trump afirmou também que a embaixada americana será realocada em Jerusalém - medida alvo de críticas na comunidade internacional pela possibilidade de comprometer a neutralidade dos EUA na mediação do conflito - e que a medida é parte de uma nova abordagem ao processo de paz entre Israel e Palestina.
"É um passo que já deveria ter sido dado no processo de paz e no trabalho para um acordo duradouro. Repetir a mesma fórmula do passado não produzirá resultados diferentes", 
completou. 
"Reconhecer oficialmente Jerusalém como capital de Israel é condição necessária para alcançar a paz. (...) Não é nada além do que o reconhecimento da realidade."


A resposta da Onu


A primeira reação internacional foi do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, criticando "medidas unilaterais" relacionadas à questão e afirmando que Jerusalém tem de ser reconhecida como "capital de Israel e da Palestina".

A transferência de embaixada é prevista em uma lei que o Congresso americano aprovou em 1995, que prevê, ainda, o reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado israelense.

A lei estipulava 31 de maio de 1999 como data final para a mudança de sede da embaixada, sob pena de sanções ao Poder Executivo. Contudo, incluía a possibilidade de adiamento do prazo por seis meses, caso necessário para "proteger os interesses de segurança nacional".

E é isso o que todos os presidentes desde então (Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama) têm feito.

Trump seguiu o exemplo de seus antecessores e, em junho, renovou a prorrogação por seis meses - decisão que o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, chegou a avaliar como "sábia", na época, tendo em vista que mover a embaixada em um contexto em que os dois lados reivindicam Jerusalém como capital poderia complicar as negociações para a retomada de um processo de paz genuíno.

Agora, com o prazo de sua última prorrogação expirado, Trump decidiu pela mudança a Jerusalém.


Questão política ou cumprimento profético?


A decisão unilateral dos Estados Unidos de reconhecerem Jerusalém como capital de Israel terá desdobramentos políticos que impactaram os acordos internacionais. Para muitos cristãos, a ação de Donald Trump é o cumprimento de profecias sobre o final dos tempos.

O pastor Hernane Santos, da Visão de Evangelismo Mundial, escreveu em suas redes sociais que a profecia de Zacarias 12:3 está se cumprimento, pois, reconhecer que Jerusalém é dos judeus trará conflitos na Terra. O versículo diz: 
"E acontecerá naquele dia que farei de Jerusalém uma pedra pesada para todos os povos; todos os que a carregarem certamente serão despedaçados; e ajuntar-se-á contra ela todo o povo da terra".
O pastor da Comunidade Preciosa Graça em Campo Largo (PR) escreveu que este é "um momento histórico" e declarou que é a profecia bíblica se cumprindo. 
"As profecias da Palavra estão se cumprindo diante de nossos olhos! Jesus está voltando", 
escreveu.

De fato, a decisão americana irá colocar os povos da Terra contra os Estados Unidos e contra Israel, nas primeiras horas após o anúncio de Trump oito países pediram reunião de urgência na ONU e autoridades árabes prometeram "graves consequências".

Em entrevista ao portal JM Notícia, o pastor João Abrantes da Igreja Assembleia de Deus Madureira da Arse 92, em Palmas (TO), não vê a decisão unilateral dos Estados Unidos como uma profecia ou sinal do fim dos tempos.
"A Bíblia diz que Jerusalém a eterna capital do Senhor e também diz que Jerusalém será o centro do mundo na gestão do Anticristo", 
declarou o pastor. 
"Esse Anticristo terá muita influência, pois aglutinará as nações em torno do seu projeto que é uma aliança para ele reinar em Jerusalém", 
completa.

Na visão do pastor, que é teólogo, Trump está sozinho nessa decisão e, sem apoio de outros países, não é possível fazer qualquer ligação entre esse fato e o Apocalipse. 
"Não tem nenhum outro país a favor dessa decisão, portanto não tem uma profecia bíblica que possa embasar que se trata de uma profecia", 
declarou.

Como pastor assembleiano, João Abrantes acredita que o Anticristo irá surgir e aglutinar nações em torno de um projeto que será aprovado para que ele more em Jerusalém. Porém, como crente na pré-tribulação, ele acredita que a tribulação acontecerá apenas depois do arrebatamento.

Gostando ou não, querendo ou não...


Será mera coincidência que Jerusalém, a chave atual da paz mundial, foi originalmente chamada Salem, que significa "paz"? Ela foi governada naqueles antigos dias por uma das figuras mais enigmáticas na história: Melquisedeque, rei de Salem.

Ele aparece subitamente do nada nas páginas das Escrituras, depois desaparece. Esse era território pagão, mas Melquisedeque era "o [não um] sacerdote do Deus Altíssimo" (Gênesis 14:18; conforme Hebreus 7:1). Abraão, conhecido como "o amigo de Deus", admirava Melquisedeque como alguém maior que ele mesmo, honrou-o com uma oferta, e aceitou sua bênção (Gn 14:19,20; Hb  7:1,2).

Conversando com Deus, Salomão chamou Jerusalém de "a cidade que tu escolheste..." (1 Reis 8:44). Jerusalém, com o seu destino profético pronto para atingir força total, apresenta uma mensagem clara para o mundo: a humanidade não é o produto do acaso e de forças evolucionárias cegas. 

Nada no universo, nem a própria energia nem as míriades de formas em que se manifesta, pode ser explicado pelo acaso. Claramente as leis da física e química não iniciaram seu controle organizado sobre a matéria mas foram criadas por um Legislador; e tão obviamente quanto isso, o átomo e a célula viva, com sua organização e função incompreensíveis, só poderiam ter sido criados e concretizados por um Criador infinito. 


Conclusão


Independente das especulações sobre o anúncio de Trump, em concordância com o universo que a cerca, Jerusalém declara ao mundo que a humanidade tem um lugar especial na criação de Deus e que um destino glorioso espera aqueles que reconhecerem e obedecerem ao Deus de Israel que escolheu Jerusalém como Sua cidade.

Se alguém gosta das implicações ou não, permanece o fato de que o papel, racionalmente inexplicável, desempenhado por Jerusalém foi profetizado na Bíblia milhares de anos atrás. E se alguém gosta das implicações ou não, permanece também o fato de que essas profecias bíblicas oferecem a única explicação racional para o lugar singular de Jerusalém no cenário mundial de hoje. Os fatos permanecem por si sós, e não podem ser refutados apesar de muitos israelenses e sionistas rejeitarem seu sabor milagroso.

Sem a Bíblia não é possível fazer sentido da história humana. Nós nos deparamos com apenas duas escolhas: ou a humanidade é simplesmente um acidente, que aconteceu em um dos bilhões de planetas (e se aqui, talvez em outros espalhados pelo cosmo), ou fomos criados por Deus para Seus próprios propósitos. É só o Deus da Bíblia que dá propósito e significado à Sua criação, e Ele decretou que Israel terá um papel importante em Seu plano.

Jerusalém! Ela é diferente de qualquer outra cidade na terra. Ela fica no centro da história e no próprio coração dos propósitos de Deus para este planeta e todos os seus habitantes. Essa é a "Cidade de Deus", onde Deus escolheu colocar Seu nome e para a qual Ele dará a última palavra. Quer goste ou não, o mundo inteiro não pode escapar das implicações dessa escolha.

[Fonte: BBC Brasil]

A Deus toda glória. 
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E nem 1% religioso.

sábado, 23 de dezembro de 2017

FILMES QUE EU VI - 37: "UM GRITO DE LIBERDADE"

Em tempos atuais, quando a polêmica do episódio de racismo envolvendo o jornalista William Waak, assistir a este filme é uma questão didática para a compreensão de tudo o que envolve esse tema. Retratando a vida do ativista negro Steve Biko, o filme é baseado na experiência real do jornalista Ronald Woods, que o conhece e se interessa pela forma como vivem os negros durante o período de Apartheid na África. Essa vivência resultará em um livro, que também embasou o filme, mas que para ser publicado colocou em risco a vida do jornalista e de sua família.

Contexto de Produção do Filme


Os verdadeiros Biko e Woods
As cenas iniciais nos colocam no meio de um gueto. Poderíamos imaginar se tratar de mais um filme sobre o holocausto, não é?

A palavra gueto é rapidamente associada ao genocídio dos judeus na 2ª Guerra Mundial praticado pelos nazistas. Nos parece que associá-la a outros momentos da história não é adequado, acreditamos que perseguições e violências semelhantes ao que ocorreu na Alemanha entre 1939 e 1945 não devam ter acontecido nas mesmas proporções em outras regiões do planeta.

No entanto, as imagens marcantes de crianças sendo espancadas, mulheres sendo estupradas e gritando em desespero, homens tentando se defender de agressões covardes e gratuitas nos são apresentadas. Tanques invadindo locais deploráveis, sem as mínimas condições de higiene, propícias ao surgimento de doenças, onde vivem pessoas aos milhares, estão ao alcance de nossos olhos. 

Impossível não se sensibilizar com tão evidente falta de humanidade. Estamos presenciando cenas da década de 1970, ocorridas na África do Sul, num sub-distrito de Capetown (a cidade do Cabo). As vítimas de toda essa insanidade são os negros, os agressores são os brancos.

Os registros que deram base para as fortes sequências filmadas pelo premiado e experiente diretor inglês Richard Attemborough (o mesmo que filmou o épico "Ghandi") vieram de dois livros, escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods, que vivenciou os acontecimentos e pode, dessa forma, fazer relatos denunciando toda a violência e a intolerância características do regime de segregação racial sul-africano, o Apartheid.

Além de ter visto, ouvido e sentido na própria pele todo ódio incontido dos brancos em relação aos seus conterrâneos negros, Woods teve a oportunidade de viver proximamente ao ativista Stephen Biko. Inteligência privilegiada, Biko se tornou uma liderança respeitada dentro de sua comunidade desde os tempos em que era estudante, aproveitando-se das poucas chances de estudar concedidas pelos governantes brancos sul-africanos à maioria negra do país.

A estruturação da sociedade do apartheid fazia prevalecer a lógica mesquinha da divisão injusta dos meios e recursos, das oportunidades e bens materiais, legando a comunidade negra, majoritária em termos quantitativos, as piores condições de vida e de trabalho, a humilhação de ter que pedir autorização para se deslocar de um lugar para o outro, a separação de famílias para que pudessem sobreviver (os empregos eram concedidos em locais distantes, homens e mulheres acabavam se encontrando apenas nas folgas e nos finais de semana), os salários irrisórios, as moradias que eram verdadeiros guetos (favelas, aglomerados, cortiços ou como queiram chamar).

O filme foi indicado a três Oscars (melhor ator coadjuvante, melhor canção original e melhor trilha sonora original), mas só recebeu alguns prêmios menores, como Prêmio da Paz - Menção Honrosa do Festival de Berlim e Political Film Society, em 1989 na categoria Direitos Humanos. Também recebeu indicações ao Globo de Ouro, Grammy e Bafta.

Desenvolvimento da narrativa


Denzel Washington e Kevin Kline
Steve Biko, era um ativista negro que vivia em um gueto na Província do Cabo. Na década de 70, era motivo de preocupação das autoridades, já que mesmo banido procurava sempre alguma forma de se encontrar com sua comunidade.

Sendo considerado a única esperança de salvar a África do Sul, pelos seus discursos e idéias defendidas, sempre a favor dos direitos e oportunidades dos negros, que não deveriam se submeter à dominação branca, frente essas comunidades, Biko era alvo da imprensa, que considerava sua atitude responsável pelo aumento do ódio racial no país, o que distanciaria a comunidade negra dos brancos.

O editor Donald Woods era um dos que adotavam esse ponto de vista em suas publicações, até ser instigado a conhecer pessoalmente o ativista, e se surpreender com o contraste de sua vida e a dos negros, que viviam em assentamentos, sem oportunidades de estudo e trabalho, e sofrendo a discriminação do mundo branco, essa experiência resulta em uma verdadeira amizade entre Biko e Woods, que passa a mudar suas publicações.

Quando uma das tentativas do ativista, de sair do espaço permitido por seu banimento, falha, ele é encontrado e preso pela polícia, que o submete a torturas durante um mês, até que isso o leva a morte, porém o que se revela como causa, é apenas uma greve de fome.

A partir de então o foco do filme volta-se para o jornalista, que pretende publicar um livro sobre o período que vivenciou, ressaltando a imagem de Biko, e divulgando a verdade sobre os acontecimentos, distorcida pela imprensa. Mas tamanha dedicação à causa negra coloca em risco a vida de sua família, que começa a ser ameaçada pelas autoridades, e o leva a decidir sair do país. Mas como também foi banido pelo governo, sair de sua casa tornou-se um problema, que com a ajuda dos seguidores de Biko torna-se, apesar de arriscado, mais fácil de resolver.

É evidente o contexto histórico do filme, já que o protagonista é um ativista negro, que luta contra a lei Constitucional que oficializou a segregação racial entre brancos e negros, que ficou conhecida como apartheid. Um período em que a minoria branca existente na África do Sul impõe seu poder aos inúmeros grupos sociais compostos pela população negra nativa.

Durante a convivência dos amigos, a forma de destruição da cultura negra, para que a superioridade de uma classe social composta por brancos seja imposta e se mantenha um regime com base na discriminação racial, também é mostrada. Assim como as dificuldades para um negro vencer na vida acadêmica diante das cotas impostas, que resultam em um quadro em que poucos tenham oportunidades de emprego.

Formas de tratamento como fêmea Banthu, inúmeras abordagens e revistas feitas pelos policiais aos negros, restrições impostas, como o banimento do direito de ir e vir, eram as formas encontradas pelos brancos para impor sua soberania, e tentar de alguma forma controlar os possíveis movimentos reacionários.

Diante da exposição desses acontecimentos da época, percebemos que o diretor, não opta pelo panorama das autoridades, e sim defende as causas negras, as apresentando como principais.

A violência aplicava-se sob a égide de um estado de caráter fascista, a base de pancadaria e de submissão a condições totalmente desumanas. Woods (interpretado no filme pelo versátil Kevin Kline) é um jornalista liberal, que faz críticas a ação desmesurada do governo, mas que, vive em subúrbio luxuoso, afastado de toda a conturbação característica dos bairros pobres onde residem os negros. Parece atento ao que acontece ao seu redor, mas não consegue perceber todas as mazelas e diferenças que matam milhares, que mutilam outros tantos, que ferem os corpos assim como as almas. E o pior, tudo acontecendo por conta da diferença da cor da pele.

Biko (protagonizado pelo excelente Denzel Washington, premiado com o Oscar duas vezes, por seu desempenho em "Tempo de Glória" e "Dia de Treinamento"), é um dos alvos mais frequentes dos editoriais escritos por Woods. Do alto de toda a sua sabedoria de membro da classe dominante, o jornalista acredita que a ação de líderes negros como Biko aumenta o ódio racial, faz crescer o número de situações de enfrentamento, distancia a comunidade negra dos brancos e estimula a segregação ao invés de combatê-la.

Quando Woods e Biko se conhecem, quebram as barreiras do silêncio impostas pelo estado racista a Biko e estabelecem conexões entre si que reforçam a idéia de que o diálogo, a compreensão e as concessões são o melhor caminho para solucionar o problema sul-africano. A admiração mútua logo se torna mais marcante e o carisma do líder Biko atinge em cheio o jornalista liberal que passa a utilizar seu espaço no jornal para pregar em favor do fim do apartheid. A perseguição aos negros atinge então seu confortável lar de classe dominante num luxuoso distrito reservado a elite branca.

O que lhe parecia distante, próprio dos subúrbios poeirentos em que residiam os negros, também podia chegar a sua casa, atingir a sua família, obrigá-lo a se calar. Os amargos "remédios" dados pelos racistas sul-africanos a Biko e a Mandela (preso desde a década de 1960 tendo sido solto apenas no final dos anos 1980) atingiam Woods. O doce sonho de que toda a situação vivida pelo país poderia ser superada às custas de planos de governo e boa vontade da população iam por água abaixo. Que alternativa resta senão a luta, que possibilidade se apresenta que não seja o enfrentamento. Biko acreditava ser possível alterar os rumos do país seguindo as máximas de Ghandi e Martin Luther King, sem violência.


Conclusão

Comentário pessoal


As inúmeras cenas de ação, presentes principalmente na segunda parte do filme, já que este pode ser dividido em drama antes e ação depois da morte de Biko, torna a história interessante, e nada cansativa, já que desperta curiosidade e cria expectativa para o final da saga do jornalista. Porém o filme peca ao mostrar a rápida incorporação e aceitação do jornalista pela comunidade negra diante do contexto, em que era esperado o mínimo de recusa e desconfiança por parte dos negros.

Qual foi o custo de toda essa verdadeira guerra civil que se instalou entre os sul-africanos? Quantos homens e mulheres morreram vitimados pela discriminação? As feridas desse verdadeiro genocídio podem se cicatrizar? Será que um dia superaremos todas as formas de preconceito e aceitaremos os outros como são? Assistir a "Um Grito de Liberdade" nos faz refletir sobre essas questões. Alimenta um debate que a humanidade ainda não conseguiu resolver. Permite que falemos sobre problemas que ainda existem. Apesar do fim do regime do Apartheid, será que a situação de vida dos negros na África do Sul melhorou? Como serão as relações entre negros e brancos nesse país (e também aqui no Brasil) hoje em dia?

Ficha Técnica


  • Um Grito de Liberdade (Cry Freedom)
  • País/Ano de produção: Inglaterra, 1987
  • Duração/Gênero:- 157 min., drama
  • Direção de Richard Attemborough
  • Roteiro de John Briley
  • Elenco: Denzel Washington, Kevin Kline, Penélope Wilton.
A Deus toda glória. 
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E nem 1% religioso.

RELAXAMENTO: A MALDIÇÃO DO OBREIRO


 
"Maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente" (Jeremias 48:10, grifo meu).
Esta palavra final negritada, encontrei em outras versões como "fraudulosamente" ou "enganosamente".

Em todas, podemos dizer que o sentido é o mesmo, ou seja, não fazer a obra do Senhor com temor, de verdade, levando a sério as coisas de Deus, brincando de ser crente.

Na atualidade o que mais vemos são obreiros tentando fazer a obra de Deus, perdoe-me a expressão, "nas coxas", isso quando não estão levando tudo com a "barriga".

São pastores, líderes, músicos, noto um aglomerado de pessoas com uma má preparação espiritual, sem conhecimento bíblico e também com a intenção, com o propósito, com a motivação errada.

Síndrome de Garfield


Para quem não sabe, Garfield é o famoso personagem de animação, um gato gordo, folgado, bonachão e cuja principal característica é a preguiça. O meio cristão tem sua gataria de Garfields.

No meio evangélico é comum as pessoas não se prepararem para ocupar algum cargo na Igreja. Infelizmente, sobram exemplos de pessoas fazendo a obra de Deus relaxadamente.

Pregadores que sobem ao púlpito sem ter sequer uma mensagem, ou que substituem o preparo bíblico por técnicas motivacionais. Ministrantes de louvor tocando ou cantando de má vontade quando o público é pequeno.

Passa-se meses e anos, e cada vez mais precisamos de novos "guerreiros" para enfrentar o inimigo nas questões espirituais.

Um detalhe chama a atenção: Algumas pessoas se conformam em fazer o básico, apenas para cumprir uma tarefa, e acham que estão fazendo muito. Isso é desconsiderar a importância da obra do Senhor, fazendo relaxadamente as coisas de Deus.

O que isso quer dizer para os dias atuais? 

Os fatos


No meio evangélico, existem muitas pessoas atrasadas e paradas no tempo. São aqueles irmãos que não gostam de estudar para se aperfeiçoar na obra, também não são pontuais nos compromissos do ministério, que dizem que não precisam ensaiar, basta pegar o microfone e seguir em frente.

Creio que a obra de Deus não pode ser feita de qualquer maneira. Este princípio é ensinado por toda a Bíblia. Tudo deve ser feito de todo coração e com todo o capricho para o Senhor, com ordem e decentemente.

Fazer a Obra de Deus relaxadamente, é um perigo para o cristão.

Em Colossenses 3:23 está escrito: 
"E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens". 
Temos que matar nossos pensamentos medíocres de que para Deus qualquer coisa vai, tudo serve, que Ele não se importa com o que oferecemos a Ele. A propósito, tudo isso é reflexo do nosso coração.

Jesus orientou os apóstolos a ensinarem os discípulos a 
"guardar todas as coisas que vos tenho ordenado" (Mateus 28:19-10). 
Em outra ocasião, ele disse:
"Se me amais, guardareis os meus mandamentos [ordenanças]" (João 14:15).
Fazer a obra de Deus relaxadamente, é o atestado de perdição total.

Conheço determinados pregadores que nunca leram a Bíblia inteira! Eu já disse isto em um artigo pretérito, mas repito porque o número de pastores que não conhecem a Bíblia só tem se alastrado.

Logo no início de uma pregação sabemos se o cidadão tem ou não conhecimento da Palavra ou se é uma pessoa de oração. O que mais tenho me deparado são com pregações teologicamente rasas, onde o poder de Deus não opera por falta de consagração, por falta de preparo.

Quando vamos para a parte musical vejo algo semelhante a um picadeiro! Um verdadeiro circo. É uma utopia de alguns achando que vão alcançar o "estrelato" gospel montando uma bandinha "estilo Oficina G3", um ministério "estilo Toque no Altar" ou um grupo de rap.

Acham que fazer a obra de Deus é só ser um músico. Um artista. Ora, porque então não se inscrevem em um desses tantos reality shows que estão sendo exibidos pela televisão? Eu sei porquê. É porque para participar de um programa desses tem que ter muito mais do que talento. Tem que ter dedicação, perseverança e disciplina. Se encontra isso na Igreja? Não precisa responder. Os fatos falam por si. Não meu caro, não adianta nada cantar ou tocar bonito se nunca ganhou uma vida para Cristo, Ele nos chamou antes de qualquer coisa para pregarmos o evangelho.
"E Jesus, andando junto ao mar da Galiléia, viu a dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, os quais lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores; E disse-lhes: 'Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.'Então eles, deixando logo as redes, seguiram-no" (Mateus 4:18-20, grifo propositalmente acrescentado).
Alguns gostam de se defender dizendo que estão pregando o evangelho com a música, porém o que percebo, é que isto não passa de uma mentira, pois nem eles mesmos estão convertidos!

São músicos que não oram, não leem a Bíblia, não vivem uma vida de santidade, não escutam a pregação (porque estão sempre fora do culto no momento da Palavra, ou seja, acabam de tocar e para eles o culto acabou).

Com Deus não é assim! Há bandas ditas "cristãs" que são conhecidas, porém isto não quer dizer que Deus está com elas, pois a maioria são músicos com intenções adversas dos princípios bíblicos, que faz anos que não colocam seus pés para participar de um culto, cear. Negociam a unção, corrompem os princípios.

Vejo obreiros, músicos, e até mesmo pastores rebeldes, que não respeitam quem são autoridades espirituais em suas vidas. Refiro-me aos próprios pais, bem como líderes espirituais.

As intenções perversas dos seus corações são manifestadas com suas atitudes de orgulho e ganância! Quantos são os que "fazem a obra de Deus" pensando só no dinheiro e na fama, no estrelato, no status? MUITOS!

Poderia citar uma avalanche de textos bíblicos que corroboram com tudo que tenho dito aqui, mas não o farei, pois creio que este artigo é um bom resumo dos maus obreiros que vemos hoje em dia. E eu não estou acusando nem julgando a ninguém. Estou me valendo dos fatos e contra fatos não há argumentos.


Conclusão


Cabe a cada um de nós perseverar, orar intensamente, e nos deixar ser usados pelo Espírito Santo para passar isso a eles. Fazer a obra de Deus relaxadamente, é o mesmo que negar ao propósito do evangelho.

Deus tem dado aos servos dEle, nos dias de hoje, uma missão de misericórdia e amor. Nós devemos anunciar as boas novas que oferecem a salvação aos homens perdidos, para que possam evitar a condenação eterna e participar do privilégio da comunhão eterna com Deus.

Todos os cristãos fiéis devem trabalhar incansavelmente. Todos os discípulos de Cristo são obreiros, cooperadores no trabalho dEle. Uma vez que compreendemos o sacerdócio de todos os cidadãos do reino de Cristo, entendemos que todos são obreiros.

O perigo de ser obreiros malditos não é apenas um problema de pastores, músicos e evangelistas. É um perigo que todos os cristãos enfrentam! Se formos negligentes, desonestos ou preguiçosos no nosso serviço a Deus, seremos condenados por Ele. O verdadeiro discípulo é conhecido pela sua obediência. O apóstolo João disse que sabemos que temos conhecido Cristo por isto: 
"Se guardamos os seus mandamentos [ordenanças, ensinamentos]" (1 João 2:3).
Portanto, você foi feito para a glória de Deus e serviço de Seu Reino. Não pode fazer parte do Reino de Deus, aqueles que O servem de modo relaxado.

Termino fazendo um alerta, de Deus não se zomba e Ele não toma por inocente quem tem culpa (Gálatas 6:7-10), por isto, quando colocar suas mãos no arado, o faça com zelo, amor, disciplina, obediência, temor e tenha consciência de quão precioso é fazer a obra de Deus (2 Coríntios 15:57,58).

Será que temos dado pouco crédito a obra de Deus? Se é o nosso caso, mudemos nossas atitudes e busquemos realizar o ministério de Deus que Ele colocou, confiou em nossas mãos, da melhor maneira possível, com muita fé, amor, disciplina, obediência e dedicação.

Que o Senhor nos abençoe e nos guarde não só dos maus obreiros, mas, principalmente, de virmos a ser maus obreiros.

Pensemos nisso e sigamos em frente.

A Deus toda glória. 
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