Já prestou atenção na letra da música “Camila, Camila”, da banda gaúcha Nenhum de Nós, uma das canções que embalaram os corações dos jovens nos anos 1980?
Infelizmente, a maioria de nós não tem o hábito de fazer uma análise sobre a música que está ouvindo.
Nos deixamos envolver pelo ritmo e pela melodia sem, necessariamente, dar muita importância sobre o que estamos ouvindo e/ou cantando.
É o caso também — citando apenas mais UM, dentre muitos outros exemplos — do que acontece com as canções "Pais e Filhos", um dos maiores hits na discografia da banda Legião Urbana, cuja letra fala sobre suicídio — conforme foi dito pelo próprio Renato Russo (✰1960/✞1996), o compositor — e a cantamos como se ela fosse apenas mais uma balada romântica (ela, inclusive, chegou a fazer parte da trilha sonora das novelas "A Vida da Gente", de 2012 e "Sete Vidas", de 2015, ambas exibidas pela Rede Globo, no horário das 18h00).
O nome da protagonista dos versos, a "Camila", costuma ser cantado a pleno pulmões pelos entusiastas do rock gaúcho, mas por trás de frases misteriosas se apresenta o relato de um caso de violência doméstica.
É a história da letra dessa canção, um dos grandes clássicos do rock nacional da década de 1980, que iremos conhecer, após os parênteses abaixo, neste capítulo da nossa série especial de artigos "Canções Eternas Canções".
A importância da letra em uma composição musical
A letra em uma composição musical é crucial para transmitir mensagens, contar histórias e criar conexão emocional com o ouvinte, fornecendo contexto e significado que a melodia sozinha não consegue, embora a importância varie por artista, podendo ser o foco principal ou servir ao som e à produção, sendo um elemento essencial para a identidade e memorabilidade da canção.
A letra é, portanto, a alma verbal da música, essencial para a comunicação profunda e a arte de compor, transformando sons em histórias e emoções tangíveis para quem ouve.
A banda
Uma banda que fez o Sul chegar ao resto do Brasil
| Primeira formação da banda, da esquerda para a direita: Thedy Correa (baixo e voz), Sady Homrich (bateria e percussão), Carlos Stein (Guitarra) e João Vicente (teclados) |
Enquanto Legião Urbana, Titãs e Paralamas traçavam seus mapas sonoros, o Nenhum colocava o vento frio da Serra Gaúcha dentro das rádios nacionais.
Com Thedy Corrêa (voz e baixo), Carlos Stein (guitarra) e Sady Homrich (bateria e percussão), posteriormente com a entrada de Veco Marques (violões e guitarras) e João Vicenti (teclados), a banda construiu uma trajetória sólida, longe dos holofotes efêmeros e perto da alma de quem ama música de verdade.
Há quatro décadas na estrada, com uma carreira ininterrupta, com a mesma base de integrantes, um marco raro na música nacional, o Nenhum de Nós é uma das principais bandas brasileiras em atividade no segmento pop rock e uma das poucas a ter ultrapassado a marca de 2 mil e trezentos shows.
Com 17 discos, 03 DVDs, 02 EPs e várias coletâneas lançadas, a banda já recebeu inúmeros prêmios, reconhecimento de público e de crítica e possui uma imensa legião de fãs no Brasil e na América Latina.
Com 17 discos, 03 DVDs, 02 EPs e várias coletâneas lançadas, a banda já recebeu inúmeros prêmios, reconhecimento de público e de crítica e possui uma imensa legião de fãs no Brasil e na América Latina.
O diferencial do Nenhum de Nós reside na manutenção de sua formação original e na capacidade de compor letras poéticas que tratam de sentimentos e temas sociais com longevidade.
A Letra
O que parecia ser apenas uma música com um refrão fácil e que cantávamos a plenos pulmões era nada mais nada menos que um grito por socorro.
A letra de "Camila, Camila" trazia como tema violência doméstica, algo que infelizmente ainda é muito comum na nossa sociedade nos dias de hoje.
A letra de "Camila, Camila" trazia como tema violência doméstica, algo que infelizmente ainda é muito comum na nossa sociedade nos dias de hoje.
Quando o tema do abuso sexual de crianças e adolescentes era praticamente inexplorado no Brasil, a banda Nenhum de Nós ousou tratar desse assunto nos anos 80 por meio dessa emblemática canção, que é obrigatória em todas as boas festas e compilações da maravilhosa e marcante década de 1980, sendo hoje, merecidamente, essa faixa considerada um clássico do cenário do rock nacional.
Em entrevistas na época, o líder vocal e autor da letra, Thedy Corrêa, disse que sentiu a necessidade de abordar um tema ainda um tanto delicado e tabu para época.
A ideia por trás da letra imprime a paisagem de conscientizar contra a violência sexual.
"Camila, Camila" foi o primeiro sucesso da banda Nenhum de Nós. A música foi responsável por inserir o grupo no rock profissional na segunda metade da década de 80, quando eles tinham apenas seis meses de formação.
Tentamos dar a nossa versão sobre a letra, sei que ela pode trazer várias visões e tal, mas esperamos que todos parem para ouvir e entender "Camila, Camila".
Camila Camila
Nenhum de Nós
'Depois da última noite de festaChorando e esperando amanhecer, amanhecerAs coisas aconteciam com alguma explicaçãoCom alguma explicação...
Imagina sair de casa para ir a uma festa com o namorado e voltar sabendo que aquela mínima coisa que supostamente aconteceu vai transformar a noite em mais um pesadelo, e o desejo é apenas que amanheça logo para que tudo acabe.
...Depois da última noite de chuvaChorando e esperando amanhecer, amanhecerÀs vezes peço a ele que vá emboraQue vá embora...
Aqui se nota que a violência é constante, seja em noites depois de sair ou mesmo com chuva lá fora, e a vontade que tudo se acabe faz o grito se tornar desespero, onde o maior desejo é que o agressor vá embora.
...Camila, ohCamila, Camila...
Um grito ecoante de dor. É como se Camila procurasse em seu nome uma saída, um achamento de si mesma.
...Eu que tenho medo até de suas mãosMas o ódio cega e você não percebeMas o ódio cega...
Aqui a certeza que a violência não é só psicológica. Imagino o medo daquele ódio infundado de uma pessoa que deveria nos amar e só agride.
...E eu que tenho medo até do seu olharMas o ódio cega e você não percebeMas o ódio cega...
Imagina ter medo até de olhar para a pessoa e desse olhar vir o motivo para a próxima agressão? Aqui, a protagonista usa o eu lírico para verbalizar o pavor que sentia em relação ao seu abusador.
...A lembrança do silêncioDaquelas tardes, daquelas tardesDa vergonha do espelhoNaquelas marcas, naquelas marcas...
O silêncio aqui se caracteriza no medo da pessoa agredida em buscar ajuda, em se sentir incapaz de gritar por socorro ao ponto de não conseguir se olhar no espelho e ver ali as marcas da agressão, se sentir até de certa maneira culpada pelo que está passando.
Esse é um dos poderes da agressão psicológica, e uma estratégia usada pelos agressores: fazer com que a vítima se sinta culpada e se responsabilize pela agressão sofrida.
Esse é um dos poderes da agressão psicológica, e uma estratégia usada pelos agressores: fazer com que a vítima se sinta culpada e se responsabilize pela agressão sofrida.
...Havia algo de insanoNaqueles olhos, olhos insanosOs olhos que passavam o diaA me vigiar, a me vigiar...
A maneira com que ela é vigiada traz a certeza de um descontrole emocional do agressor, um ódio, um desequilíbrio mental.
Se sentir vigiado em cada passo, em cada gesto. É o doentio domínio e possessão que os abusadores acreditam ter sobre suas vítimas.
Se sentir vigiado em cada passo, em cada gesto. É o doentio domínio e possessão que os abusadores acreditam ter sobre suas vítimas.
...Camila, ohCamila, CamilaCamila, ohCamila, Camila...
Mais gritos de desespero, de angústia, de dor, de desesperança.
...E eu que tinha apenas 17 anosBaixava a minha cabeça pra tudoEra assim que as coisas aconteciamEra assim que eu via tudo acontecer.'
Ainda jovem e sentindo na pele e na alma toda a dor de um relacionamento abusivo.
Um medo que faz com que ela perca até a coragem de olhar o mundo de frente, daí a visão de olhos baixos, submissos, tristes e incapazes de pedir ajuda.
Um medo que faz com que ela perca até a coragem de olhar o mundo de frente, daí a visão de olhos baixos, submissos, tristes e incapazes de pedir ajuda.
A história da música
A música foi responsável por inserir o grupo no rock profissional na segunda metade da década de 80, quando eles tinham apenas seis meses de formação.
A história da música "Camila, Camila" começa antes mesmo do surgimento da banda, quando os integrantes estavam no ensino fundamental.
Acontece que todos eles estudavam juntos na mesma escola, alguns até na mesma turma.
Foi na escola que eles conheceram a menina que inspirou a música — seu nome verdadeiro não é Camila, mas, infelizmente, a história é real.
Já com a banda formada, os cinco integrantes do grupo, Thedy Corrêa, Carlos Stein, Sady Homrich, Veco Marques e João Vicenti, costumavam se reunir para compor e escrever letras.
Em uma das reuniões, eles se lembraram da colega de escola, uma adolescente de 17 anos, que vivia um relacionamento abusivo, e foi aí que a ideia da música surgiu.
Thedy conta que a composição não foi fácil, levou bastante tempo e foi feita em etapas — eles fizeram tudo com muito cuidado e conversaram sobre cada verso.
"Sabemos que, sendo todos homens, os integrantes da banda estão fora de seu lugar de fala ao relatar o caso de uma menina que sofria violência.
Mas foi exatamente essa empatia que objetivou a mensagem que queríamos passar.
[...] O cara era tão violento, mas tão violento, que humilhava a garota na frente de todo mundo. E ela sentia aprisionada naquele relacionamento abusivo."
No entanto, tanto na profundidade da letra quanto nos relatos dos músicos sobre a composição, dá pra perceber que escrever "Camila..." foi um exercício verdadeiro de empatia, uma tentativa de compreender como a amiga se sentia.
Como surgiu o nome da canção?
O nome no refrão só veio mais tarde, em um dia de ensaios no estúdio.
Estava chovendo muito e o chão estava coberto de jornais para evitar que o carpete molhasse.
Em um desses jornais, Thedy viu um anúncio do filme argentino "Camila: O Símbolo de Uma Mulher", lançado em 1984.
O filme argentino "Camila" (1984), dirigido por María Luisa Bemberg, é um clássico do cinema latino-americano que narra a trágica história real de Camila O'Gorman.
Ambientado na Buenos Aires da década de 1840, durante a ditadura de Juan Manuel de Rosas, o longa acompanha Camila (Susú Pecoraro), uma jovem da alta sociedade que desafia as convenções morais e religiosas ao se apaixonar por Ladislao Gutiérrez (Imanol Arias), um padre jesuíta.
O romance proibido leva os dois a fugirem para o interior, onde tentam viver uma vida simples sob identidades falsas até serem descobertos.
Quando viu o nome [do filme], ele imediatamente começou a tocar as notas que já tinham composto para o refrão da música e o ritmo encaixou perfeitamente, e foi aí que a personagem da história passou a se chamar Camila.
O sucesso chegou!
Uma versão acústica da canção
Quando escreveram "Camila, Camila", os integrantes do Nenhum de Nós tinham feito apenas 8 shows com a banda formada.
Eles tinham pouca experiência como grupo e não esperavam o sucesso naquele momento.
De acordo com Thedy, tudo começou quando Cazuza (✰1958/✞1990) ouviu a música e fez questão de gravar sua versão.
A partir daí, a gravadora [Selo Plug] viu que a canção tinha muito potencial e que precisava ser lançada imediatamente.
A partir daí, a gravadora [Selo Plug] viu que a canção tinha muito potencial e que precisava ser lançada imediatamente.
Os músicos mostraram certa resistência no começo, porque queriam compor mais músicas antes de lançar seu primeiro álbum.
Por sorte, eles acabaram aceitando gravar e o álbum homônimo que, como já dito, foi lançado em 1987.
No ano seguinte, "Camila, Camila" se tornou um hit nacional e consagrou definitivamente o grupo no cenário do rock brasileiro.
Conclusão
O vocalista Thedy explicando a letra da música em uma
apresentação no programa "Altas Horas", do Serginho Groismann
apresentação no programa "Altas Horas", do Serginho Groismann
"Camila, Camila" é uma forte crítica social contra os maus tratos sofrido por mulheres; é uma denúncia sobre a violência contra as mulheres.
Apesar de fazer parte do surgimento do Rock no Brasil e ter sido cantada até sem nem mesmo se ouvir direito a letra essa música vem sendo reproduzida até hoje como um tema atual, um grito denunciante, de forma sensível e impactante, mostrando que, apesar do tempo, a temática sobre relacionamentos abusivos e violência doméstica continua tristemente atual.
Aquela agressão que pode acontecer na casa do lado, e que nos cega. Até mesmo reparar nos detalhes da vida de outra pessoa pode ser preciso, até porque a mulher que sofre esse tipo de violência, como a protagonista da letra, precisa de ajuda e nem sempre ela consegue pedir. Daí os altos índices de Feminicídio que estampam os jornais do nosso dia a dia.
Mesmo décadas após seu lançamento, a música continua sendo um importante marco por sua mensagem atemporal sobre um problema social persistente no Brasil.
Que as "Camilas" de hoje consigam a ajuda necessária para fugir das mãos dos agressores que deviam dar amor e só dão dor. Fiquemos atentos aos sinais de toda e qualquer violência contra a mulher!
Onde denunciar casos de abuso e violência infantil ?
- Polícia Militar — 190: quando a criança está correndo risco imediato;
- Samu — 192: para pedidos de socorro urgentes;
- Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;
- Qualquer delegacia de polícia;
- Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa;
- Conselho tutelar: todas as cidades possuem conselhos tutelares. São os conselheiros que vão até a casa denunciada e verificam o caso. Dependendo da situação, já podem chegar com apoio policial e pedir abertura de inquérito (Via g1).
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E nem 1% religioso.


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