'...Desculpe o auê, eu não queria magoar você...' (trecho da música 'Desculpe o Auê', da autoria de Rita Lee [✰1947/✞2023] e Roberto de Carvalho — faixa do álbum "Bombom", 1983, Som Livre).
Creio que muitos estão acompanhando a polêmica em torno da canção intitulada "Auê (A Fé Ganhou)", de Marco Telles & Coletivo Candiero.
Para não ter visto o auê que essa tal música — que, sim, melodicamente a musiquinha é até interessante, de ritmo envolvente, do tipo que a galera mais, digamos, progressista gosta — só estando não apenas navegando, mas habitando, submerso no oceano do Espírito.
Então, o quiproquó gerado por essa música — com o envolvimento de personalidades do mainstream gospel, como o pragmático Marco Feliciano, dentre outros —, me fez lembrar da fala do apóstolo Paulo, registrada em sua carta aos filipenses. Ele foi, como sempre, direto e duro:
"Cuidado com os cães" (3:2).
Jesus: Use-o sem moderação!
Nem todo líder espiritual leva você para Jesus! Alguns usam o nome de Jesus, falam de Jesus, vestem Jesus, postam Jesus… mas não conduzem a Cristo.
Usam Jesus como ferramenta para manipular, controlar e angariar seguidores.
Isso não acontece só dentro da igreja. Acontece na política, nas redes, nos palcos motivacionais. Jesus virou slogan, amuleto, coach motivacional, argumento de autoridade.
É citado para legitimar discursos, justificar projetos pessoais e blindar ambições. O nome é santo, mas a intenção é humana. E quando isso acontece, pessoas são feridas em nome de Deus.
Ficar atento é questão de sobrevivência espiritual. Entenda de uma vez por todas:
nem toda voz que cita Jesus serve a Jesus.
E o mais interessante, é que desde a era apostólica isso acontecia, comprove:
"É verdade que alguns pregam Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade.
Estes o fazem por amor, sabendo que aqui me encontro para a defesa do evangelho.
Aqueles pregam Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade, pensando que podem aumentar a minha aflição na prisão.
Mas que importa? O importante é que, de qualquer forma, seja por motivos falsos, seja por motivos verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato, continuarei a alegrar‑me" (Filipenses 1:15-18 — NVI, grifos acrescentados).
Observe o fruto, não o discurso. Onde há culto à personalidade, promessas de salvação humana, messias políticos ou ideológicos, ódio ao “outro lado”, medo constante, culpa crônica, dependência emocional e devoção incondicional, Cristo não está no centro.
O evangelho nunca sequestra a consciência. Ele a desperta. Jesus não manipula, não oprime, não constrange pela culpa, não governa pelo medo, não divide pessoas em inimigos, não inflama o ódio, não infla o ego de ninguém.Ele não usa feridas para controlar, nem a fé para enriquecer, nem o sagrado para dominar. Jesus não constrói impérios pessoais.
Ele forma discípulos livres e conscientes não só dos direitos — espirituais, constituídos a eles na Cruz do Calvário, como os sociais, garantidos pela Constituição —, como, na mesma proporção, dos seus deveres e responsabilidades.
Por isso, cuidado quando Jesus vira isca. Quando Ele é usado para atrair, mas não para transformar.
Quando é citado, mas não seguido. Quando serve a projetos humanos, e não ao Reino. Jesus não é ferramenta de controle nem escudo para abusos.
Se não conduz à cruz, não vem de Cristo. Se não tem VERDADE COM AMOR, não é Jesus!
Se não gera arrependimento com graça, não é evangelho.
Se não produz liberdade, restauração e vida, pode ter o nome de Jesus, mas não tem o coração dEle.
E Paulo continua ecoando para nós hoje, com a mesma urgência: cuidado.
Isto posto, vamos então, especificamente, à música da discórdia.
"Auê (A Fé Ganhou)"
Marco Telles & Coletivo Candiero feat. Ana Heloysa e Filipe da Guia
Pode entrar, eu ouvi
Alagou o olhar
Quando o lustre tá no chãoOnde os meus estão?Com a folha, eu aprendi como se deve cairE agora, com as mãos estendidasVocê quer me levantar, diz que aqui é meu lugarCom minhas roupas, minhas falhas, minhas brigasCom a folha, eu aprendi como se deve cairE agora, com as mãos estendidasVocê quer me levantar, diz que aqui é meu lugarCom minhas roupas, minhas falhas, minhas birrasAuê (auê-auê, auê-ah, auê-auê)(Auê-ah, auê-auê, auê-ah, auê-auê)Com a folha, eu aprendi como se deve cairE agora, com as mãos estendidasVocê quer me levantar e diz que aqui é meu lugarCom minhas roupas, minhas falhas, minhas birrasAgora que o Zé entrou e todo mundo viuE todo mundo olhou, e todo mundo riuNinguém se acostumou, mas o céu se abriuAgora que a fé ganhou e a Maria sambouSua saia balançou, alguém se incomodouCom a cor que ela mostrou, mas o céu coloriu
Agora que o Zé entrou e todo mundo viuE todo mundo olhou, e todo mundo riuNinguém se acostumou, mas o céu se abriuAgora que a fé ganhou e a Maria sambouSua saia balançou, alguém se incomodouCom a cor que ela mostrou, mas o céu coloriu (mas o céu coloriu)Auê, dança na ciranda da féQue te abriu (que te abriu) as portasAuê, solta tua criança atéExplodir em glóriaAuê, dança na ciranda da féQue te abriu as portasAuê, solta tua criança atéExplodir em glóriaCom a folha, eu aprendi como se deve cairE agora (e agora), e agora (e agora)Auê, dança na ciranda da féQue te abriu as portasAuê, solta tua criança atéExplodir em glóriaAuê (emolêbamemoê-ê-ê)Dança na ciranda da fé (emolêbamemoê-ê-ê)Que te abriu, abriu as portas (abriu as portas)Auê, solta tua criança atéExplodir em (explodir) glória (emalêbamemoê-ê-ê
Um "auê" ou um "aleluia"?
Antes de fazer qualquer consideração sobre essa polêmica, que, na minha opinião, já está ultrapassando a linha limítrofe entre o exagero e a hipocrisia, fiz questão absoluta de ouvir todo o álbum "O Grande Banquete", para basear minha opinião não em achismos, recortes ou réplicas das opiniões alheias. Ser "papagaio de pirata", graças a Deus, não é o meu forte.
Penso que a problemática da tal canção 'Auê...' não está na estética musical ou na brasilidade cultural expressada no projeto. Vejo uma outra questão bem séria e já irei abordá-la.
Particularmente achei a estética linda: a disposição do público em volta do palco num formato arquibancada, com muita alegria, vigor e sinceridade nas expressões de louvor. O povo cantou como quem ama forte.
Os músicos em sinergia com toda expressividade do ambiente. E a musicalidade é linda! Não temos dificuldade com a brasilidade.
Está tão belo, com tantos temperos e camadas que dá dó ver que, terem colocado provocações, obviamente sabendo que a igreja iria polemizar (não acredito que os responsáveis pela produção dessa canção ignorassem — fazendo um trocadilho contextual — o auê que ela causaria), fez-se pouco notado tantos outros valores que o grupo carrega.
E para mim, o problema está aí. A igreja não tem dificuldade com brasilidade.
Acho que a galera da MPB tem mais resistência com a tendência sonora e estética britânica na cena musical dos louvores das igrejas do que a própria turma do — penso eu, também assaz questionável — "worship".
Não vejo o pessoal do worship afetado pela brasilidade dos irmãos que louvam com forró.
Como ia dizendo, o problema está, ao meu ver, do Coletivo Candiero escolher o caminho da provocação, que, sabidamente daria discórdia e sentimentos facciosos e levaria irmãos a pecar utilizando réguas de julgamentos e ignorância que já estamos vendo na repercussão da polêmica canção 'Auê...'.
Só acho que poderia ser diferente. Marco Telles acertou em cheio na embalagem e conteúdo de "Colossenses e Suas Linhas de Amor" em parceria com FHOP.
Comunicou boa teologia, musicalidade original e congregacional (ao mesmo tempo), estética regionalista, sotaque brazuca com centralidade de Cristo.
Todos olharam para a essência, Cristo, e se deliciaram com a musicalidade e temperos compartilhados pelo Marco.
A análise da letra me levou a algumas perguntas:
- Com quem eu aprendo a cair?
- Quem estende a mão para me levantar da queda?
- Quem é o Zé que entrou e todo mundo viu?
- Onde o Zé entrou e como entrou?
- E por que todo mundo riu?
- Quem é a Maria que sambou e sua saia balançou?
- Qual a cor que ela mostrou e ninguém se incomodou?
- Que porta foi aberta pela ciranda da fé?
- O que é a ciranda da fé?
- Que criança deve ser solta até explodir em glória?
Quando uma canção que se pretende ser cristã levanta tantas perguntas, alguma coisa está errada.
Não existe nenhuma alusão a Deus, a Jesus ou ao Espírito Santo, nem mesmo indireta. Não existe nenhum elogio ao caráter e à natureza de Deus.
Não existe absolutamente nada relacionado às obras do Deus Triúno da Bíblia.
Portanto, a primeira conclusão a que podemos chegar é que não se trata de uma canção de louvor a Deus.
Pelo vocabulário do poeta, me pareceu mais uma canção de entretenimento que revela um sincretismo religioso bastante claro, particularmente ressaltando conceitos dos cultos de matriz africana praticados no Brasil.
Baseado no meu conhecimento bíblico e teológico, além da minha experiência pastoral de décadas, afirmo que esta canção não é absolutamente recomendável num culto cristão.
A música tem causado um auê tremendo!
Mas agora virou um problema, lacração ideológica, sutil tendência esquerdista, segregação, oposição e distanciamento de quem o grupo precisa trazer para perto.
Cristo saiu do centro e a cultura (não me refiro a brasilidade) da lacração a preço da divisão entre irmãos recebeu maior destaque.
Quem produziu sabe no que daria.
Acredito que o alvo foi alcançado, só não sei dizer se Cristo foi glorificado (se é pelos frutos que conhecemos a árvore, acredito poder afirmar que não).
Quem produziu sabe no que daria.
Acredito que o alvo foi alcançado, só não sei dizer se Cristo foi glorificado (se é pelos frutos que conhecemos a árvore, acredito poder afirmar que não).
Estourando bolhas
Não quero dar uma de profeta do caos, contudo, esse episódio da música, não deve ser encarado como um fato isolado ou que não mereça a devida atenção, pois sinaliza algo maior.
Mas precisamos ser honestos. Estamos vivendo um dos momentos mais difíceis da história recente da igreja evangélica brasileira.
Há uma barragem prestes a estourar. E não é surpresa. São anos de má teologia acumulada.
Um evangelho reduzido, raso, diluído, misturado com legalismo, ideologias e interesses que nunca deveriam ter ocupado o centro.
Uma teologia fast food que é tão saudável quanto uma dieta rica em macarrão instantâneo com molho de salsichas.
O resultado é devastador. E os sinais estão por toda parte.
Uma teologia fast food que é tão saudável quanto uma dieta rica em macarrão instantâneo com molho de salsichas.
O resultado é devastador. E os sinais estão por toda parte.
Qualquer fala vira munição. Tudo é arrancado do contexto, lido por lentes ideológicas e não bíblicas. Igrejas são julgadas superficialmente.
Vídeos são postados com acusações sem qualquer compromisso com a verdade.
O importante é alarmar, lacrar, monetizar, ganhar engajamento, atrair quadrilhões de seguidores, preferencialmente ignorantes úteis, não precisa nem ter neurônios, basta ter agilidade motora na hora dos likes.
Pastores viram inimigos. Todo mundo vira especialista. Rápidos para falar, postar e condenar. Lentíssimos para ouvir, compreender e discernir.
Vídeos são postados com acusações sem qualquer compromisso com a verdade.
O importante é alarmar, lacrar, monetizar, ganhar engajamento, atrair quadrilhões de seguidores, preferencialmente ignorantes úteis, não precisa nem ter neurônios, basta ter agilidade motora na hora dos likes.
Pastores viram inimigos. Todo mundo vira especialista. Rápidos para falar, postar e condenar. Lentíssimos para ouvir, compreender e discernir.
Em vez de buscar reconciliação, praticar a comunicação direta e lidar biblicamente com conflitos, muitos preferem a exposição pública.
Não para restaurar, mas para parecerem melhores que os outros. Velho farisaísmo com estética digital.
O mais preocupante é que boa parte da massa cristã perdeu a capacidade de pensar biblicamente. Falta critério. Falta filtro. Falta maturidade espiritual para analisar o que está acontecendo à luz das Escrituras, e não dos algoritmos.
Pior do que um país dividido é uma igreja dividida.
O que fazer diante desse cenário?
- 1. Encontre uma igreja local saudável e viva a fé nela — A vida cristã não foi desenhada para ser vivida no Instagram. É local, comunitária, encarnada. É pertencer, servir, amar, se importar, congregar.
- 2. Busque profundidade real na sua relação com Cristo — por meio da Palavra (Colossenses 2:6,7). Saia da superficialidade. Menos influencers. Mais Bíblia.
- 3. Resgate uma vida de oração — Como disse Spurgeon (✰1934/✞1892), viver sem oração é viver sem Cristo.
Conclusão
Talvez esse momento esteja expondo o que realmente somos. Não para nos destruir, mas para nos confrontar.
O caminho não será mais barulho, nem mais eventos.
Será arrependimento, maturidade e retorno ao essencial:
- Cristo no centro.
- A Palavra como filtro.
- A igreja local como lugar de formação.
- Menos reação.
- Mais ação.
- Mais testemunhos (ou seja, vivência do Evangelho puro e simples).
- Menos discursos.
- Mais discernimento.
- Menos palco.
- Mais cruz.
Tudo é lícito... Mas nem tudo é conveniente.
- [Fonte: Livre adaptação a partir dos textos originais da autoria de Diné René Lotá e Paulo Tiago Mattes, pastor da Igreja Red]
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
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E nem 1% religioso.

