quando vou morrer?
O que temos a aprender?
A pedagogia da morte
O livro bíblico de Eclesiastes traduz essa condição com uma simplicidade quase desconcertante:
"...ninguém sabe quando virá a sua hora..." (9:12).
Não saber quando morreremos nos lembra, paradoxalmente, de que não somos donos absolutos do tempo (apesar de não serem poucos os que ainda, mesmo apesar das evidências contrárias, acreditarem que são).
Planejamos aniversários, viagens, projetos, aposentadoria, encontros para daqui a meses ou anos — mas a existência humana permanece atravessada pelo imprevisto.
- O que nos diz a Filosofia
Na filosofia, o alemão Martin Heidegger (✰1889/✞1976) transformou essa percepção em uma reflexão sobre a própria existência.
Para ele, a morte não deveria ser compreendida apenas como um acontecimento que ocorrerá no final da vida, mas como uma possibilidade permanentemente presente.
A consciência da finitude pode nos retirar da existência automática e nos devolver à responsabilidade por aquilo que fazemos com o tempo que temos.
Para o filósofo grego, não deveríamos transformar a morte em uma fonte permanente de sofrimento:
"quando somos, a morte não está; quando a morte está, nós não estamos".Seu argumento não elimina a tristeza da despedida, mas questiona a angústia antecipada diante de algo que ainda não aconteceu.
- O que diz a Psicanálise
Sigmund Freud (✰1856/✞1939) observou que existe, no inconsciente, uma dificuldade profunda de representar a própria morte.
Em "Reflexões para os tempos de guerra e morte", escreveu que, no inconsciente, cada pessoa se comporta como se fosse imortal.
Talvez por isso saibamos racionalmente que morreremos, mas vivamos emocionalmente como se a morte fosse sempre algo que acontece aos outros.
A incerteza, nesse sentido, pode ser pedagógica.
Ela nos ensina a não adiar indefinidamente aquilo que realmente importa: pedir perdão, dizer "eu te amo", visitar alguém, reconciliar-se, abandonar ressentimentos, realizar um sonho ou simplesmente aproveitar uma manhã tranquila.
- O que nos diz a Teologia
A fé interpreta a morte à luz da esperança da ressurreição.
O Catecismo católico afirma que a lembrança da mortalidade dá "urgência" à existência, justamente porque temos um tempo limitado para realizar nossa vida.
Paulo expressa essa esperança ao afirmar:
"...para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro..." (Filipenses 1:21).
A filosofia nos convida a assumir nossa finitude; a teologia nos oferece uma esperança que ultrapassa essa finitude; e a psicanálise nos ajuda a compreender por que resistimos tanto à ideia de nossa própria mortalidade.
Conclusão
No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja "quando vou morrer?", mas
"o que estou fazendo com o tempo que tenho?".Não conhecer o dia da morte pode parecer uma limitação, mas também é uma liberdade.
Se soubéssemos a data exata, talvez transformássemos a vida numa contagem regressiva. Como não sabemos, somos convidados a viver.
E talvez essa seja a grande lição:
não temos garantia de quantos dias teremos, mas temos a responsabilidade de decidir o que faremos com este dia.
- Por Leonardo Sérgio da Silva
- [Fontes e referências para leitura: Heidegger, Martin. Being and Time (Ser e Tempo). A reflexão sobre finitude e morte como possibilidade fundamental da existência. Stanford Encyclopedia of Philosophy — Martin Heidegger; Epicuro. Carta a Meneceu. Reflexão clássica sobre a relação entre morte, sofrimento e medo. Stanford Encyclopedia of Philosophy — Death; Freud, Sigmund. Thoughts for the Times on War and Death (1915). Reflexões psicanalíticas sobre a morte e sua representação no inconsciente. Freud Edition — Thoughts for the Times on War and Death; Freud Museum London. Writing against death. Contextualização contemporânea das ideias de Freud sobre a morte. Freud Museum London. Igreja Católica. Catecismo da Igreja Católica, §§1005–1014. Reflexão teológica sobre morte, finitude e esperança da ressurreição. Vaticano — Catecismo da Igreja Católica; Bíblia Sagrada, Eclesiastes 9:12. Texto bíblico sobre a imprevisibilidade do tempo e da morte. Bíblia — Eclesiastes 9:12]
- O blogue CONEXÃO GERAL presa pelo respeito à lei de direitos autorais (L9610. Lei nº 9.610, de 19/02/1998), creditando ao final de cada texto postado, todas as fontes citadas e/ou os originais usados como referências, assim como seus respectivos autores.


Nenhum comentário:
Postar um comentário