quinta-feira, 11 de junho de 2026

TRIBUTO — CLODOVIL HERNANDES: MAIS QUE UM NOME, UMA MARCA!

Reprodução Estadão
Dentro do surgimento da alta-costura no Brasil se destaca o nome de Clodovil Hernandes (✰1937/✞2009).

Tendo iniciado o seu percurso profissional ainda muito jovem, nos anos 50, ele foi um artista polivalente, tendo atuado como estilista, figurinista, ator, jurado e apresentador de programas de televisão — além de posteriormente como político.

No texto deste capítulo da nossa série especial de artigos "Tributo", vamos relembrar a trajetória desta que foi uma figura, que, além do talento e inteligência inquestionáveis, teve enorme relevância nos cenários aos quais atuou, a despeito das muitas polêmicas nas quais sempre esteve envolvido.

Nascido para brilhar


Reprodução da internet
Clodovir Hernandes, como seu nome ficou registrado na certidão de nascimento por um equívoco do cartório, nasceu em Elisiário, interior de São Paulo, no dia 17 de junho de 1937.

Ainda muito pequeno, ele foi adotado por Domingos Hernández e Isabel Sánchez Hernández, um casal de imigrantes espanhóis. Desde então, ele não teve nenhuma relação com os seus pais biológicos.

​A foto, em preto e branco, é uma das raríssimas imagens de Clodovil na infância, com os pais, e foi tirada em frente ao armazém da família, no interior de São Paulo, na década de 40.

Ela nos mostra um garoto bem magrinho, moreno, aparentando 7 anos de idade. 

Na foto, bem típica para os padrões da época, ele veste camisa branca de manga curta, bermuda com cinto, sapato de amarrar e meias brancas  o típico uniforme daquela época em que o ensino fundamental era chamado de grupo escolar.

O cabelo, repartido de lado e cortado bem rente nas laterais, deixa as orelhas mais proeminentes.

O menino encara a câmera com olhar muito sério, com uns dos braços dobrados e a mão sobre a barriga.

Do lado direito, com uma mão sobre o ombro do garoto, está uma mulher de pele bem branca, cabelos ondulados na altura do queixo e vestido escuro.

Do outro lado está um homem de cabelo engomado puxado pra trás, bigodinho fino, terno, gravata e lenço na lapela.

  • Formação

Clodovil teve uma ótima educação, estudando em um colégio interno de padres. 

Falava francês e castelhano, além do português. Formou-se como professor primário, mas não durou muito tempo nessa profissão.

Essa fluência linguística foi mencionada por várias pessoas que compartilharam da sua amizade, e o próprio Clodovil, claro, também costumava se gabar disso.

O pai de Clodovil, era um homem meio bronco, de pouco estudo. Apesar disso — ou por causa disso — ele fez questão que Clodovil tivesse uma boa formação.

  • Traumas

Além da educação esmerada, o período no colégio interno teve um fato marcante e delicado na vida do estilista: um abuso sexual sofrido aos 11 anos de idade, cometido por um dos padres da escola onde estudava.

Numa entrevista dada por Clodovil à revista "Isto é", em 2003. Aos 13 anos, ao voltar de uma missa, ele teria surpreendido o pai na cama com outro homem. E o outro homem era o irmão de sua mãe, ou seja, seu tio, fato que o teria marcado para o resto da vida.

Carreira

Reprodução FFW
Começou sua carreira nos anos 50, nessa época, ainda não existia o conceito prêt-à-porter por aqui, apenas ateliês onde se criavam roupas exclusivas e sob medida.

Tornou-se conhecido na década de 60 os primeiros croquis foram vendidos para a loja Florence Modas.

Ao longo da carreira passou pelas butiques Scarlett — onde, inclusive, também trabalhou Dener Pamplona de Abreu (✰1937/✞1978) com quem tinha uma suposta rivalidade —, e La Signorella.

Seus modelos eram os mais disputados por socialites e celebridades, o que fez com que ganhasse o prêmio Agulhas de Ouro, o mais cobiçado no mundo da moda brasileira.

Entre suas clientes estavam Cacilda Becker (✰1921/✞1969), Elis Regina (✰1945/✞1982) e as famílias Diniz e Matarazzo.

Nos tempos áureos, tinha um ateliê de alta costura em São Paulo, na famosa rua Oscar Freire — o endereço mais luxuoso e sofisticado da capital paulista, conhecida internacionalmente como um shopping a céu aberto — e sua modelo preferida era a estravagante Elke Maravilha (✰1945/✞2016), que também era atriz e foi jurada nos programas de Silvio Santos (✰1930/✞2024) e do Chacrinha (✰1917/✞1988).

  • Talento

A habilidade com desenhos e o apreço pelo métier eram uma faca de dois gumes.

De um lado era aclamado pelo talento e de outro, do outro, criticado por todos à sua volta, por não corresponder a aquilo que se esperava de um homem nos anos 1950.

As coisas começaram a mudar quando, em 1957, se mudou para São Paulo e começou a participar de concursos de costura que renderam a ele uma comparação com o costureiro francês Jacques Faith.

Em 1961, Clodovil ganhou o concurso Agulha de Ouro, vencendo Dener Pamplona, o que acirrou uma sempre comentada, porém, não comprovada, competição entre eles.

Na verdade, tudo não passava de uma estratégia de marketing. Clodovil e Dener além de dividirem os holofotes como protagonistas da chamada "alta costura brasileira" (que na verdade era moda de atelier inspirada pela moda europeia), se alfinetavam publicamente como forma de aparecer em colunas sociais – as vitrines da época.

Tanto que, mais tarde, Dener viria a alimentar a lenda de ser seu maior rival e concorrente, rendendo até enredo na televisão para a criação da novela "Ti Ti Ti" (1985 com remake em 2010), da Rede Globo.

Clodovil além da moda

Reprodução Rede Globo
Clodovil se via com alma de artista. Cantava, pintava, atuava e vestia. São incontáveis os projetos que ele fez em paralelo.

Mas a moda nunca deixou de ser uma delas, só de ser o principal meio de sustento do estilista.

De vez em quando, ele fazia roupas para clientes fiéis e amigas que imploravam por suas criações.

Ainda com um pezinho na moda, ele fez figurinos e croquis para apresentações de teatro, como seu musical autobiográfico "Ele e Ela" (2006) que abordava sua sexualidade.

Seu grande estrelato nacional foi não só em publicações de revistas de moldes, que levavam suas criações, mas também com o programa "TV Mulher", que foi ao ar na TV Globo entre 1980 e 1986.

Clodovil apresentava seu quadro de moda, um dos maiores sucessos da lendária revista eletrônica matinal, que quando não desenhava ao vivo modelo de croquis para jovens moças, respondia dicas de estilo com suas alfinetadas e humor ácido.

Mais uma vez o modista teve sucesso, capaz de gerar muita audiência à emissora, além de receber inúmeras cartas com perguntas sobre moda.

Mesmo tornando-se apresentador, não abandonou seu ateliê de Alta Costura. Fez da moda mais ampla e acessível a todas as classes sociais, independente de credo ou nível econômico.

Como se não bastasse o sucesso, tornou-se ator e fez shows em casas noturnas, além de elogiado e premiado como figurinista de teatro.

Contudo, dedicou-se à televisão, pois pensava que era a melhor forma de ajudar as pessoas.

Por se envolver em fatos polêmicos e escândalos, ficou ainda mais popular e adquiriu alguns inimigos em sua profissão como estilista.

Além disso, durante o tempo em que atuou na área da moda, ele lançou uma coleção com as cores verde e amarelo e com o nome estampado (made in Brazil) para competir com as grifes internacionais. Contudo, o fracasso foi inevitável e revoltado, afastou-se da moda.

  • Carreira televisiva

Seguindo em sua carreira na televisão, em 1992 apresentou "Clodovil Abre o Jogo", na extinta Rede Manchete.

E em 2001 esteve a frente do programa "Mulheres" da TV Gazeta, ao lado de Christina Rocha.

Alguns meses depois, com a parceria anterior desfeita, passou a apresentar um talk show na mesma emissora.

Foram quase 30 anos na televisão. Não dá pra dizer "ininterruptos", porque sempre tinha uma demissão no meio do caminho.

Mas Clodovil, sem dúvida, foi um dos apresentadores mais populares da TV brasileira, que impôs um estilo próprio, lançou bordões e alcançou uma fama que atravessou gerações.

Ao longo da carreira, ele entrevistou centenas de pessoas das mais diferentes profissões, que tiveram a coragem de encararem as perguntas diretas e retas do apresentador.

Ser entrevistado por Clodovil não era pra qualquer um, afinal, a sinceridade sem limites era a sua principal característica.

Polêmicas

Reprodução Rede Globo
Hoje lembrado pelos problemáticos comentários contra direitos básicos para a população LGBTQIA+ — certa vez, foi convidado para a Parada do Orgulho Gay, mas respondeu que não tinha orgulho nenhum de ser gay, e foi vaiado por militantes —, Clodovil foi um dos primeiros gays afeminados que falavam abertamente sobre sua sexualidade na televisão.

Em plena ditadura militar, ele foi um grande porta-voz contra os estigmas da AIDS. Quando o tema era um tabu, defendeu as pessoas da exclusão e do obscurantismo que a mídia jogava para as celebridades que contraíram a infecção.

Um fato lastimável ocorreu em 2004, quando Clodovil foi motivo de "piadas" dos integrantes do programa "Pânico na TV", no icônico quadro 'Sandálias da Humildade', sendo inclusive, perseguido e esquivando-se por duas vezes.

Na terceira investida dos integrantes do "Pânico na TV", Clodovil fez um desabafo, ao vivo, em seu programa "A Casa é Sua" (ambos eram exibidos pela Rede TV!, ou seja, Clodovil e os integrantes do Pânico eram colegas de emissora, imagine o climão), o qual apresentava desde 2003, abandonando o programa em seguida. Após dois dias, a emissora demitiu Clodovil.

Mas o polêmico apresentador ressurgiu em 2007 na TV JB com o programa "Por Excelência" onde foi novamente demitido, desta vez, por problemas de saúde.

À frente ou nos bastidores, quase todo dia tinha uma saia justa, inclusive desavenças entre Clodovil e seus entrevistados.

Política

Reprodução do YouTube
Em 2006 ingressou na carreira política e foi o terceiro deputado federal mais votado.

Tomou posse vestido à moda antiga, inspirado nos senhores de engenho da era colonial, de terno creme, sapato marrom e branco, chapéu e bengala.

Eleito Deputado Federal por São Paulo em 2006 pelo Partido Trabalhista Cristão (PTC), ele chocou o cenário nacional ao alcançar quase 494 mil votos, tornando-se o terceiro candidato mais votado do estado.

Gastou quase R$200 mil do próprio bolso reformando seu gabinete e dizia que só sabia viver no meio da beleza.

Entre as peças de decoração, uma escultura de cobra naja, sustentando a mesa de despachos, batizada pelo próprio.

Na política, não foram poucos os desafetos colecionados pelo polêmico Clodovil.

A incapacidade de controlar a sua própria língua afiada fica evidente em várias entrevistas dadas à imprensa, principalmente durante a fase em que o estilista esteve na TV.

Durante seus poucos mais de dois anos na Câmara dos Deputados, Clodovil integrou comissões importantes como a de Direitos Humanos e Minorias, Educação e Cultura, e Relações Exteriores.

Ele apresentou 55 propostas legislativas, com destaque para:
  • A proposta de criação do Dia da Mãe Adotiva (uma homenagem à sua própria história de vida).

  • Projetos voltados para o apoio e proteção a vítimas de violência.

  • Uma proposta para a redução do número de deputados no Congresso Nacional, sob a justificativa de cortar gastos públicos. 

  • Grandes Polêmicas no Plenário
O comportamento sem filtros de Clodovil levou o tom dos palcos e da TV diretamente para o debate político.
O caso Cida Diogo — Em 2007, envolveu-se em uma briga generalizada ao fazer comentários rudes sobre as mulheres contemporâneas e chamar a deputada Cida Diogo (PT-RJ) de "feia" no plenário. 
O episódio gerou grande repercussão na mídia e representações por quebra de decoro parlamentar.  
Discursos impactantes — Ao mesmo tempo em que causava tumultos, Clodovil era conhecido por sua oratória afiada. 
Em um de seus momentos mais célebres, ele conseguiu impor silêncio absoluto em um plenário barulhento ao confrontar os colegas sobre a falta de compostura e respeito com o cargo público e comparou a casa com um mercado. 
Troca de Partido — Em 2007, Clodovil trocou o PTC pelo Partido da República (PR, atual PL). 
O PTC acionou a Justiça Eleitoral exigindo a perda do mandato por infidelidade partidária, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) absolveu Clodovil em março de 2009, entendendo que ele havia sofrido discriminação na antiga legenda.

Conclusão

Os Momentos Mais Absurdos do Clodovil na TV #3 — Canal 90
Clodovil não tinha papas na língua e era, acima de tudo, verdadeiro. E foi justamente sua liberdade de expressão aliada a sua ousadia, que fizeram sua existência ser marcante na moda brasileira.

Nos inúmeros programas que ele teve na TV (Manchete, Band, Rede TV, Globo), as críticas sobre seu comportamento inadequado contrastavam com os momentos de lucidez, como quando, por exemplo, combatia a homofobia ao vivo.

Lia cartas, trazia contextos familiares e memórias de vida como forma de contextualizar o telespectador sobre respeito às diferenças, ao seu modo, claro. Controverso, mas, sem dúvidas, peça fundamental da história da moda nacional.

No dia 17 de março de 2009 o hospital Santa Lúcia, em Brasília, anunciou a morte cerebral de Clodovil Hernandes, aos 71 anos, em consequência de um acidente vascular cerebral.

Clodovil não teve filhos, nem nomeou herdeiros para sua herança. O Brasil ficou de luto quando uma das figuras públicas mais queridas do país faleceu de forma repentina.

Se Clodovil Hernandes estivesse vivo hoje, ele muito provavelmente enfrentaria cancelamentos em massa e intensos debates nas redes sociais.

Suas declarações enfaticamente polêmicas, que já causavam enorme repercussão nos anos 1980, 1990 e 2000, colidiriam diretamente com as pautas progressistas de diversidade, respeito e direitos humanos da atualidade.

O fato é que Clodovil Hernandez não passou despercebido por aqui e ainda hoje, após quase duas décadas de sua morte, ele ainda é tido referência para muitas pessoas. 
Ao Deus Todo-Poderoso e Perfeito Criador, toda glória.
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